terça-feira, 27 de dezembro de 2011

UM POUCO DE JOHN OF RUYSBROECK (1293-1381)

Da Gratidão

     A devoção interior produz frequentemente gratidão, pois ninguém pode agradecer e louvar a Deus tão bem quanto o homem interiormente espiritual. E é justo que agradeçamos e louvemos a Deus, porque Ele nos criou como seres racionais, ordenou e destinou os céus, a terra e os anjos ao nosso serviço; e porque Ele se tornou homem por causa dos nossos pecados, nos ensinou, viveu por nós, nos mostrou o caminho e porque Ele a nós ministrou em humilde roupagem, sofreu uma morte ignominiosa por amor a nós e prometeu Seu reino eterno e também a Si mesmo como nossa recompensa e retribuição.
Ele nos poupou quando pecamos, nos perdoou e perdoará, derramou Sua graça e Seu amor em nossas almas e habitará e permanecerá conosco, e em nós, por toda a eternidade. E Ele nos visitou e nos visitará todos os dias da nossa vida com Seus nobres sacramentos, de acordo com a necessidade de cada um, e nos deixou Sua carne e Seu sangue como comida e bebida, de acordo com o desejo e a fome de cada um. Ele colocou diante de nós a natureza, as Escrituras e todas as criaturas como exemplos e como espelho, por meio dos quais podemos olhar e podemos aprender como tornar nossos atos obras de virtude.
Ele nos deu saúde, força e poder, e, às vezes, para nosso próprio bem, nos enviou enfermidades. Nas nossas necessidades exteriores estabeleceu paz e felicidade interiores em nós, e nos fez ser chamados por nomes cristãos e nascer de pais cristãos. Por todas essas coisas devemos agradecer a Deus aqui na terra para que possamos, depois, agradecer a Ele por toda a eternidade.
     Devemos também adorar a Deus por meio de tudo o que podemos obedecer a Ele. Louvar a Deus significa que por toda sua vida o homem glorifica, reverencia e venera a Divina Onipotência. O louvor a Deus é a finalidade e o trabalho adequado dos anjos e dos santos nos céus, e dos homens que o amam na terra.
Deus deve ser adorado voluntariamente, pelo oferecimento de todos os nossos poderes, por obras e por palavras, com o corpo e com a alma, com a fé e com tudo o que possuímos, em serviço humilde, do interior e do exterior.
     Aquele que não louva a Deus enquanto está na terra ficará mudo eternamente. Louvar a Deus é o mais querido e alegre trabalho de cada coração cheio de amor, e o coração que está repleto de louvor deseja que cada criatura adore a Deus. O louvor a Deus não tem fim, pois é nosso refrigério, e muito justamente o adoraremos na eternidade.

     John of Ruysbroeck, "The Adornment of the Spiritual Marriage”, Cap. XIII.
     Original disponível em www.ccel.org
     Tradução de Fernando Sabóia Vieira

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