domingo, 29 de outubro de 2017

Chuva tardia em Brasília

Chuva, silêncio e música


I


Água e silêncio
Chovem sobre a terra
Fazendo brotarem mistérios
E milagres

Raramente os reverenciamos

Mas o amor persistente de Deus
Continua a comandar
Os ciclos da Terra e do Universo

Água e silêncio
Chovem nesta manhã
E a minha alma absorve a Vida
Atenta ao Espírito que passeia




II


Choveu ao amanhecer
Suave e eloquentemente
Como um noturno de Chopin

A água desperta a terra
A música expande minha alma

A vida vence a seca
Os flamboyants florescem
Como multicoloridos vitrais
E as mangueiras e jaqueiras
Se exibem prenhas
Nas ruas e nos quintais

Tranquilas, altivas
Exóticas catedrais

Deus existe
Deus ama
Deus reina

out/17


Fernando Saboia,
de "Ciclos das Terras dos Mundos e dos Sentimentos".





domingo, 6 de agosto de 2017

A Voz no Monte Santo


Naquele tempo, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, seu irmão, e levou-os, em particular, a um alto monte
e transfigurou-Se diante deles: o seu rosto ficou resplandecente como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz.
E apareceram Moisés e Elias a falar com Ele.
Pedro disse a Jesus: «Senhor, como é bom estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias».
Ainda ele falava, quando uma nuvem luminosa os cobriu com a sua sombra, e da nuvem uma voz dizia: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O».
Ao ouvirem estas palavras, os discípulos caíram de rosto por terra e assustaram-se muito.
Então Jesus aproximou-Se e, tocando-os, disse: «Levantai-vos e não temais».
Erguendo os olhos, eles não viram mais ninguém, senão Jesus.
Ao descerem do monte, Jesus deu-lhes esta ordem: «Não conteis a ninguém esta visão, até o Filho do homem ressuscitar dos mortos». 
Mateus 17,1-9.

Comentário: Santo Agostinho 
(354-430), bispo de Hipona (norte de África), doutor da Igreja 
Sermão 78 


«Nós ouvimos essa voz, que Lhe foi dirigida lá do Céu, quando estávamos com Ele no monte santo» (2Pd 1,18)


«Senhor, como é bom estarmos aqui!» Cansado de viver no meio da multidão, Pedro acabava de encontrar a solidão no alto do monte, onde a alma se alimenta de Cristo. Porque haveria de deixar aquele local e de voltar às fadigas e aos sofrimentos, ele que ardia de um amor santo por Deus e dessa maneira santificava a sua vida? Pedro queria aquela felicidade, embora tivesse acrescentado: «Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para Ti, outra para Moisés e outra para Elias». [...]

Pedro desejava três tendas; a resposta vinda do Céu demonstrou que só temos uma: o Verbo de Deus é o Cristo, o Verbo de Deus está na Lei, o Verbo de Deus está nos profetas. [...] Quando a nuvem os envolveu a todos, e formou, por assim dizer, uma única tenda sobre eles, dela saiu uma voz. [...] Aquele que a voz revelava é o mesmo em quem a Lei e os profetas se gloriavam: «Este é o meu Filho muito amado, no qual pus toda a minha complacência. Escutai-O». Porque O escutastes nos profetas, O escutastes na Lei, e onde foi que não O ouvistes? A estas palavras, os discípulos caíram por terra. [...]

Ao caírem por terra, os apóstolos simbolizam a nossa morte [...], mas, ao erguê-los, o Senhor simboliza a ressurreição. E, depois da ressurreição, de que serve a Lei? De que serve a profecia? A partir desse momento, Elias e Moisés desaparecem. O que resta é: «No princípio era o Verbo, e o Verbo estava em Deus, e o Verbo era Deus» (Jo 1,1). Resta-te o Verbo, para que Deus seja tudo em todos (1Cor 15,28). [...]

Desce, Pedro. Tu desejavas descansar no monte [...] e eis que o próprio Senhor te diz: «Desce para sofreres e servires neste mundo, para seres desprezado e crucificado neste mundo. A vida desceu para ser levada à morte, o pão desceu para suportar a fome; o caminho desceu para se cansar caminhando, a fonte desceu para suportar a sede, e tu recusas-te a sofrer? Não procures o teu proveito. Pratica a caridade, anuncia a verdade. Alcançarás, então, a imortalidade, e, com ela, encontrarás a paz.»

Fonte: Evangelho quotidiano.org

sábado, 5 de agosto de 2017

Sobre a Misericórdia de Deus

MISERICÓDIA
Thomas Merton

            Quão mais perto Deus está de nós quando reconhecemos nossa vileza e lançamos sobre Ele todo o nosso cuidado! Contra todas as expectativas humanas, ele nos sustenta quando precisamos ser sustentados e nos ajuda a fazer o que parecia impossível. Apendemos a conhecê-lO, agora não na “presença” que se encontra em considerações abstratas, a “presença” em que O revestimos com nossas próprias fantasias, mas no vazio de uma esperança que pode se aproximar do desespero. Pois a perfeita esperança é alcançada no limiar do desespero, quando, ao invés de cair no abismo, nos descobrimos andando no ar. A esperança está sempre na iminência de se tornar desespero, mas nunca o faz, pois no momento da suprema crise o poder de Deus é subitamente tornado perfeito na nossa debilidade. Então, aprendemos a esperar na Sua misericórdia tão mais calmamente quanto maior for o perigo, a procurá-lO tranquilamente diante da ameaça, certos de que Ele não pode nos faltar, ainda que sejamos abandonados pelos justos e rejeitados por aqueles que alegam deter a evidência do Seu amor.
            Cum vero infirmor, tunc potens sum. “Quando sou fraco, então é que sou forte (2a aos Coríntios 12:10).
            Nossas fraquezas abriram os Ceús para nós porque elas trouxeram até nós a misericórdia de Deus e nos atraíram o Seu amor. Nossa infelicidade é a semente de toda a nossa alegria.
            ...
            O conceito cristão de misericórdia é, assim, a chave para a transformação de todo um universo onde o pecado ainda parece reinar. Pois o cristão não escapa do mal, não está dispensado do sofrimento e não está livre da influência e dos efeitos do pecado: ele não está isento de pecar. Infelizmente, ele também pode pecar. No entanto, sua vocação é livrar o mundo inteiro do pecado e transformá-lo em Deus: por meio da oração, da penitência, da caridade e, acima de tudo, da misericórdia. Deus, que é todo santo, não apenas teve misericórdia de nós, mas Ele entregou Sua misericórdia nas mãos de potenciais pecadores para que eles possam escolher entre o bem e o mal, e possam vencer o mal como bem e obter misericórdia para suas próprias almas tendo misericórdia dos outros.
            Deus deixou o pecado no mundo para que pudesse haver perdão: não apenas o perdão secreto pelo qual Ele mesmo purifica nossas almas, mas o perdão manifestado pelo qual nós temos misericórdia uns dos outros e, dessa forma, damos expressão ao fato de que Ele vive, por Sua misericórdia, nos nossos corações.


De “Homem algum é uma ilha”.

Tradução de Fernando Saboia Vieira.

domingo, 9 de julho de 2017

Poesia para a alma


Desperta, ó minha alma



Desperta, meu coração!
O Senhor é bom hoje e para sempre!


Não se entristeça nem fique abatido 
Porque a benignidade do Senhor 
Rege a vida dos Seus servos

Não te perturbes, minha alma 
O Reino dos Céus é chegado 
E o nosso Rei está no trono

Desperta-te do sono do desânimo 
Louva ao Rei do Universo
Glorifica o Seu Santo nome
Porque grandes maravilhas tem feito


No dia da angústia, clama ao Senhor 
E Ele ajuntará suas lágrimas 
Nenhuma será desperdiçada

Pois ainda tornará o mal em bem 
O pranto em riso
E a lamentação em louvor


Persevera com alegria 
Com paciência espera

Porque a tua esperança não será frustrada, 
Assim disse o Senhor
...
Brasília, junho de 2017. 

LFS 

Sobre a Vontade Deus

INTENÇÃO PURA

Thomas Merton


            Se Deus fosse apenas mais um ser contingente, como eu mesmo sou, então fazer Sua vontade seria tão fútil quanto fazer a minha própria. Nossa felicidade consiste em fazer a vontade de Deus. Mas a essência dessa felicidade não reside numa mera concordância de vontades. Ela consiste numa união com Deus. E a união de vontades que nos faz feliz em Deus precisa ser, em última instância, algo mais profundo do que um simples acordo de vontades.
            Primeiramente, não sejamos apressados demais em nossas afirmações sobre a vontade de Deus. A vontade de Deus é um profundo e santo mistério, e o fato de vivermos nossas vidas cotidianas mergulhados nesse mistério não nos deve levar a subestimar sua santidade. Nós habitamos na vontade de Deus como em um santuário. Sua vontade é a nuvem escura que cerca Sua Presença imediata. É o mistério no qual Sua vida divina e nossa vida criada se tornam “um espírito”, uma vez que, como afirma S. Paulo, "Aqueles que se unem ao Senhor são um só espírito" (1a aos Coríntios 6:17).
            Há homens religiosos que se tornaram tão familiarizados com o conceito de vontade de Deus que sua familiaridade fez surgir neles um aparente desprezo. Fez com que eles se esquecessem de que a vontade de Deus é mais do que um conceito. Ela é uma terrível e transcendente realidade, um poder secreto que nos é concedido, momento após momento, para ser a vida da nossa vida e a alma da vida de nossa própria alma. É a chama viva do próprio Espírito de Deus, em Quem a chama de nossa própria vida pode se mover, se assim quiser, como um anjo misterioso.
            A vontade de Deus não é uma abstração, uma máquina, nem um sistema esotérico. Ela é uma realidade concreta na vida dos homens, e nossa alma foi criada para arder como chama dentro de Sua chama. A vontade de Deus não é um centro estático atraindo cegamente nossas almas em sua direção. Ela é um poder criativo a trabalhar em todo tempo e lugar, dando vida, ser e direção a todas as coisas e, acima de tudo, formando e criando um novo mundo que é chamado de Reino de Deus. O que nós chamamos de “vontade de Deus” é o movimento do Seu amor e sabedoria, ordenando e governando todos os agentes livres e necessários, movendo motores, causando causas, conduzindo condutores e regendo os que que regem, de modo que até os que resistem a Ele realizam a Sua vontade, mesmo sem perceber que o estão fazendo. Em todos os Seus atos Deus ordena todas as coisas, boas ou más, para o bem daqueles que O conhecem e O procuram e se esforçam para trazer sua própria liberdade em obediência ao divino propósito d’Ele. Tudo o que é feito pela vontade de Deus em secreto é feito para Sua glória e para o bem daqueles com os quais Ele escolheu compartilhar Sua glória.

Thomas Merton, “Homem Algum é uma Ilha”, Cap. IV, “Intenção Pura”.

Tradução: Fernando Saboia Vieira.

domingo, 11 de junho de 2017

Ciclos, poesias serôdias V

Irmãos



Fazemos parte do mundo
desde que chegamos aqui,
como tudo o mais:
os pais, os móveis, as pessoas,
as casas, as ruas, as árvores.

Somos coletivamente
- os meninos, as meninas -
antes de sermos cada um
e por toda vida seremos
alguém de alguém.

Nas brincadeiras e nas brigas
aprendemos que amar
sempre tem um preço
ainda que nunca custe nada.

Um dia seremos
nossas melhores lembranças
se nunca nos esquecermos
de que sempre fizermos parte
do mundo
e sempre estivemos lá
uns para os outros
uns dos outros
ainda que os tempos e as histórias
nos ciclem
e nos levem a toda parte.


Fernando Saboia Vieira
de "Ciclos das Terras dos Mundos", 2017

sábado, 10 de junho de 2017

Ciclos, poesias serôdias IV

adoração



almas eternas
em vozes humanas
fazem ouvir na terra
cânticos celestiais

chego sozinho
afônico
atônito com minha cruz
meu chamado no deserto

minha solidão
minha afonia
minha atonia
se diluem nas canções
e sou um com todos
no Espírito que nos faz
um só cantar, um só sentir
um só viver


Fernando Saboia Vieira, de "Ciclos das Terras dos Mundos", 2017

sábado, 3 de junho de 2017

Versos Peregrinos III

Peregrino




Nunca houve mesmo salvação
Para mim
Mas eu ouvi a Voz
Que me falava
E senti o toque
Que me acolhia
E fui suavemente invadido
Pela Presença que enche todas
As coisas
Infinitas, largas e profundas

Não posso falar
E não posso me calar
Preciso permanecer
E tenho que partir

Levar comigo
A Palavra e o silêncio
Escondidos no lugar secreto
Da alma que adora
Em todo tempo e espaço


Fernando Saboia Vieira
de "Versos Peregrinos", 2015.

terça-feira, 30 de maio de 2017

Notas de um peregrino

Sobre o verdadeiro avivamento

30 DE MAIO DE 2017/ L.F.S.


O verdadeiro avivamento começa dentro de cada um nós. É com o retorno do temor íntimo e individual ao Senhor que o Espírito Santo nos enche da Sua presença. Esse é o avivamento que gera arrependimento e vida. Ora, não há fruto sem vida. O mover do Espírito e os sinais são apenas frutos da vida regenerada em nós. O avivamento da igreja começa com a compreensão da revelação da santidade de Deus e da ordem divina: “sede santos porque Eu sou santo”. Não devemos buscar os frutos antes de ter a vida. E para ter a vida precisamos perder a nossa vida.

O avivamento verdadeiro não é feito de emoções, nem mesmo do mover isolado do Espírito em determinados eventos. O avivamento começa com o temor do Senhor, e se expande com o desejo íntimo e sincero de cada um deixar tudo, mortificar a carne e se santificar ao Pai.
É pela prática da presença de Deus que vem o avivamento. Antes de fazermos qualquer coisa, devemos buscar o Reino de Deus. Antes de ler, falar ou ir, temos de nos colocar em silêncio, com temor e tremor, na Presença. Buscar o Seu Reino em primeiro lugar é fazer nada, absolutamente nada, antes de estarmos despidos e humilhados aos pés do Seu trono. É ali, no silêncio da convicção de nossa miséria e total dependência, que aprendemos a ouvir o coração do Pai.
Quando, então, aprendemos a ser nada, pouco a pouco, Ele se torna tudo em nós. Sua santidade nos toma, e somos feitos um com Seu Espírito. Assim, por amor e temor, somos levados à santificação, a qual permite o livre fluir do Espírito, que transborda e toca a vida das pessoas. Assim é que começa o verdadeiro avivamento.

***
Pai, quero experimentar do verdadeiro avivamento, juntamente com meus irmãos. Revela-nos, Senhor, a Tua santidade. Faz-nos compreender os desígnios do Teu coração. Precisamos ser cheios do Espírito, para que o mundo conheça as Tuas obras; mas para isso sabemos que precisamos nos santificar.
Queremos ser iguais ao nosso Amado. Leva-nos, ó Deus, por esse caminho de esvaziamento de nós mesmos e de total compreensão da Tua santidade, para que aprendamos o temor do Senhor. Queremos aperfeiçoar nossa santificação por amor e temor a Ti, a fim de que o Santo Espírito tenha plena liberdade no nosso meio. Sabemos que o avivamento verdadeiro provém do Teu coração; e que vêm de Ti também tanto o querer quanto o realizar. Por isso Te rogamos, ó Pai, concede-nos essa graça.


/LFS
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