domingo, 16 de abril de 2023

                                                                      Perdão

 

 

“... tira as sandálias dos teus pés, porque o lugar em que estás é terra santa” (Êxodo 3:5)

 

 

         Caros irmãos e irmãs, companheiros de jornada,

 

         No último período de Páscoa, estive meditando sobre perdão. Jesus crucificado, oferecido em sacrifício pelos nossos pecados, pronunciando um perdão puro, completo, suficiente, redentor e transformador para todos os homens, inclusive aqueles que o estavam supliciando e executando no madeiro.

         Ao contemplar essa cena do Evangelho, vieram-me à memória as palavras de Deus a Moisés, quando este foi atraído pela sarça chamejante: tire suas sandálias, você está pisando em terra santa.

         O perdão é terra santa. Não podemos nos aproximar desse profundo mistério do amor de Deus calçados com nossas razões pessoais, com nossa justiça, orgulho, ressentimentos, mágoas, conceitos e experiências que nos conduzem, justificam e protegem em nossos caminhos humanos. 

O sangue de Jesus, que nos purifica de todo pecado, foi derramado no pó desta terra. Temos que pisar nela descalços, desprovidos de qualquer coisa que se interponha entre nós e este chão que recebeu a dádiva suprema do Pai e do Filho. 

Paradoxalmente, como é comum no Evangelho, temos que primeiro assumir profundamente nossa humanidade, para que possamos nos encontrar com o Deus que se fez homem, e, em seguida, sermos conduzidos por Ele na geração de nossa nova identidade espiritual.

O perdão de Deus, materializado no sacrifício de Jesus, é terra santa, pertence à dimensão puramente espiritual do Reino dos Céus. Mas nós somos, na nossa jornada terrena, profundamente marcados pelo pecado e pela culpa. Os pecados que cometemos contra os outros e os que se cometem contra nós, pecados de nossos pais e da nossa geração. Por isso, podemos ter muita dificuldade em compreender o perdão de Deus e o perdão que devemos conceder uns aos outros.

- Por favor, Jesus, me ajude a me descalçar de minhas sandálias, marcadas e desgastadas pelas minhas caminhadas nesta terra, para que eu possa me aproximar desse profundo mistério que é receber o teu perdão e me tornar instrumento da tua graça perdoadora na vida dos meus companheiros e companheiras de jornada.

Perdoar subverte nosso senso de justiça, contraria nosso amor-próprio, parece premiar o mal, nos torna vulneráveis, desprotegidos. Parece até mesmo nos desconstituir como pessoas dotadas de valor e de dignidade. 

Em várias ocasiões, os discípulos de Jesus ficaram perplexos e admirados com seu ensino sobre o perdão. Formados com a mentalidade da lei judaica, que privilegiava, na interpretação dada pelos mestres do seu tempo, a punição das transgressões, não lhes parecia razoável, por exemplo, perdoar alguém mais de sete vezes no mesmo dia, quanto mais setenta vezes sete. Haja fé para isso! (Lucas 17:3-5).

Perdoar não é uma questão de justiça pessoal, moral ou social, de reparação emocional, de saúde psicológica. Embora possa ter efeitos benéficos quanto a esses aspectos, o perdão tem sua necessidade e sentido essenciais na dimensão espiritual da salvação, tanto do ofendido quanto do ofensor.

Se não recebemos o perdão de Deus em Cristo, não podemos ser salvos, se não perdoarmos em Cristo nossos ofensores, também não somos perdoados (Mateus 6:14). Assim, nossa salvação e a dos nossos eventuais agressores estão espiritualmente ligadas e condicionadas.

Uma razão disso está, acredito, no fato de que, ao não perdoar, eu estou desprezando o perdão que eu mesmo recebi e ainda necessito receber, pervertendo a justiça de Deus, que se realiza em sua graça e misericórdia. Se o Senhor, o maior ofendido pelo pecado dos homens, perdoou, como posso eu não perdoar?

Quando sou ferido, agredido ou de qualquer maneira atingido por alguém, a mim me cabe, como discípulo de Jesus, perdoar o ofensor que se diz arrependido e me pede perdão.  Não me cabe julgá-lo, nem sou responsável por sua correção e disciplina. Eu não sou seu juiz, nem seu senhor, nem seu corregedor.

Além disso, preciso evitar qualquer sentimento de vingança, punição ou compensação. Perdoar não me torna credor, nem melhor, nem mais santo do que o ofensor ou do que qualquer outra pessoa. 

Pelo contrário. Por me reconhecer carente da graça e do perdão de Deus pelos meus próprios pecados e falhas é que sou constrangido a perdoar e a fazê-lo com gratidão e alegria. É algo que decorre, apenas e necessariamente, da minha condição de filho do Pai e de discípulo de Jesus.

Se o meu ofensor não me pede perdão, e se até mesmo persistir em me causar o mal, fazendo-se meu inimigo, ainda assim devo perdoá-lo, amá-lo, fazer-lhe o bem, orar por ele e jamais buscar vingança ou tornar-me seu acusador.

 

Amados e amadas, ao meditarmos no sacrifício de Jesus e ao contemplarmos seu martírio no Calvário, podemos entender que o perdão flui poderosamente da cruz. Nela fomos perdoados, e por ela devemos e podemos perdoar os nossos ofensores.

O perdão não nasce de mim mesmo, de minha virtude ou santidade. Também não decorre das atitudes do ofensor, de seu arrependimento ou compensações. O perdão tem sua fonte exclusiva em Jesus crucificado! 

Só posso perdoar quando deixo de olhar para mim mesmo, deixo de olhar para o outro e contemplo, unicamente, o meu Senhor na cruz.

Na cruz me reconheço como pecador, necessitado de graça e misericórdia a cada momento da minha existência. Nela reconheço o meu ofensor como carente da mesma graça, participante do mesmo pecado, incluído no mesmo perdão.

Na cruz sou recebido como filho, a despeito dos meus pecados e transgressões. Nela recebo o amor misericordioso e bondoso do Pai. Por causa da cruz e do amor de Deus, desejo que também o meu ofensor, como todas as pessoas, seja assim recebido na casa do Pai, porque esse é o desejo do Pai e do Filho.

Não podemos tornar o perdão uma questão de cura ou de conforto pessoal, nem de satisfação emocional ou de senso de justiça humana, nem mesmo de disciplina e ordem na Igreja. Não podemos esperar que nossos sentimentos se inclinem nessa direção.

Precisamos considerar que estamos pisando em terra santa, em terreno misterioso e maravilhoso, onde se manifesta o próprio Deus Altíssimo, Todo Poderoso e Todo Santo.

O perdão não está nas possibilidades do homem natural. Assim como havia uma chama divina que ardia sem consumir aquela planta, também há um fogo com que fomos batizados, o Espírito Santo, capaz de nos falar, de nos purificar, convencer, transformar, de derramar em nosso coração o amor de Deus e de nos conduzir na comunhão com o Filho e no amor ao Pai e aos homens.

Vamos, portanto, tirar nossas sandálias, nos aproximar da chama eterna que arde, e participarmos dessa mais tremenda e poderosa experiência de salvação pelo amor do Pai e do Filho, no poder do Espírito Santo.

Que a suficiente graça de Jesus seja com o espírito de vocês.

 

Seu conservo e companheiro de jornada,

 

Fernando Saboia Vieira

 

         Isn/BsB/Abril/2023, AD




Por andar demais

 

 

Andei tanto até aqui

Tantos lugares 

Coisas demais

Para querer eu vi

 

Com algumas brinquei

Outras nem bem quis

Outras de longe me deram

Adeus

 

De tantas e todas

Só uma me fez

Sempre voltar

Sofrer, sorrir

Querer um lar:

 

Meu mestre no madeiro

Dizendo um perdão puro

Dolorido e inteiro

Para homens,

Homens como eu,

Sem rumo, sem luz

Sem nada de seu

 

 

Fernando

1995?