sábado, 18 de julho de 2020

Salmo 1 - Uma Reflexão Midiática

Salmo 1 – Uma reflexão midiática
(Fernando Saboia Vieira)



Lemos no Salmo 1, verso 1:

“Bem-aventurado o homem que não anda no conselho dos ímpios, não se detém no caminho dos pecadores, nem se assenta na roda dos escarnecedores”


Queridas irmãs e irmãos, companheiros de jornada, talvez devamos nos perguntar quantos dos blogueiros, youtubers, influenciadores, famosos, celebridades e subcelebridades, colunistas, especialistas, artistas, jornalistas, comentaristas, coachs e demais perfis e personagens das redes sociais que acompanhamos, seguimos e de quem buscamos conselhos nas mais diversas áreas da vida e a quem imitamos nas ideias, palavras e estilos de vida são homens e mulheres piedosos, crentes em Deus e que têm a Palavra e vontade de Deus como referência?
Se são pessoas ímpias, descrentes e mesmo inimigas de Deus, devemos ter máxima cautela em levar em consideração suas ideias, métodos, exemplos e conselhos, para não nos achamos, afinal, “andando no conselho dos ímpios”.

Quanto tempo do nosso dia gastamos lendo e assistindo os conteúdos que essas pessoas divulgam das mais diversas maneiras? O quanto ocupamos nossa mente, nosso pensamento e nossas emoções com suas sugestões, testemunhos críticas e propostas? O quanto nos dedicamos a suas campanhas e pregações e consumimos aquilo que nos indicam para o corpo e para a alma? Não seria isso nos “determos no caminho dos pecadores”?

E o que dizer da “roda dos escarnecedores”?Quando vemos, apreciamos e mesmo retransmitimos imagens e palavras ofensivas à imagem e à honra das pessoas, por meio dos memes, hashtags, mensagensagressivas, anedotas, relatos falsos, exposições depreciativas, ridicularizantes, deboches e outras tantas maneiras como nos nossos dias o ódio, a inveja, a intolerância, os preconceitos e os vieses ideológicos se manifestam, muitas vezes sob o pretexto de fazer “humor”, não estamos escarnecendo de pessoas publicamente?

Tudo isso contamina a mente e o coração, adoece e definha a alma. São pecados, e procedimentos que ofendem ao Senhor e nos conduzem para longe de Sua graça e de Sua Vida. Os que procedem assim serão, diz o Salmo, como “palha que o vento dispersa” e serão condenados perante o juízo de Deus.

Os versos 2 e 3 do Salmo apontam para um outro caminho e um outro fruto de vida:

“Antes, seu prazer está na lei do Senhor, e na sua lei medita de dia e de noite. Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas, que, no devido tempo, dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será bem-sucedido”
Para mim, a pergunta confrontadora subjacente a essa Escritura é: o que me dá prazer? O conselho dos ímpios, tão à feição da minha natureza carnal? O caminho dos pecadores, onde já andei em busca de satisfação pessoal? A roda dos escarnecedores, onde minha malícia, inveja e ressentimentos se manifestam?

Feliz o homem cujo prazer está na lei do Senhor! Só pode ter prazer na lei do Senhor quem conhece o Senhor que a inspirou, Sua sabedoria, Sua graça e misericórdia, a beleza da Sua Santidade, Seus feitos poderosos, o Ser tremendo infinito e eterno que Ele é, Seu amor manifestado por nós desde a Criação e em Cristo. Nele encontramos descanso e refrigério para nossa alma, sob o seu jugo suave e leve, consolados por sua vara e seu cajado, conduzidos para nossa morada eterna.

Qual o segredo para uma vida plena e frutífera neste mundo tão cheio de aridezes, fadigas e oposições? Ter prazer na lei do Senhor e nela meditar dia e noite, para daí sorver a seiva da Vida que vai nos dar sustento, alento e sucesso na busca da plenitude de Seu propósito para nós.
Queridos companheiros e companheiras de jornada, o Verbo de Deus está disponível em toda parte. Ele se revela sem palavras na Criação e com palavras nas Escrituras. Sua vida flui por meio das vidas daqueles que o conhecem e fazem parte do Seu Corpo, por seus testemunhos e dons, pela graça manifestada em suas vidas. 


Isso também está nas redes sociais, blogs, posts, hashtags, vídeos, sites e tantos outros meios de comunicação da modernidade. Do que precisamos é de sabedoria para discernir e escolher o que pode alimentar nossa alma e nos conduzir para a comunhão com o Senhor e com os Seus santos.

Nesse grande mercado midiático, e não devemos jamais nos esquecer que se trata de um mercado, onde tudo é vendido por preço e oferecido com interesse, há toda sorte de produtos em oferta, alimento e veneno, preciosidades e fraudes, verdades e mentiras, o céu e o inferno.

Especialmente quando nos deparamos com algo que não seja a pura Palavra inspirada de Deus, ou que venha de uma fonte descomprometida com Ele, precisamos de redobrados cuidados e critérios. 

Essa pessoa, perfil, organização, movimento, empresa, influenciador, político, cientista, especialista, pensador ou qualquer outro que se expõe nesse mercadovirtual, que está a oferecer conselhos, sugerir, influenciar,espalhar ideias e conceitos, ditar modas e comportamentos, é ímpio, sem compromisso com o Senhor? Seu conselho procede da verdade de Deus, está de acordo com o que cremos como discípulos, ou tem fundamento e motivação apenas na impiedade dos homens, na sabedoria estéril deste século?

Esse caminho que me é apontado, quem serão meus companheiros de jornada se eu andar por ele? Pessoas dignas, que buscam a verdade, a honestidade nos relacionamentos e procedimentos, ou serãoaproveitadores, desonestos, exibicionistas, predadores em busca de fama, de dinheiro, de prazer e de sucesso pessoala qualquer custo?

Como as pessoas são tratadas nas rodas sociais midiáticas que frequento? Com escárnio e deboche? São respeitadas em sua imagem, dignidade, opiniões e posturas, ou são ridicularizadas, agredidas, execradas, tornadas objetos de riso e humilhadas?

Que a suficiente graça de Jesus seja com cada um de vocês.

Seu conservo e companheiro de jornada,

Fernando

Brasília, em julho de 2020, AD.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Pai Nosso


“Vós orareis assim: Pai Nosso...”

O Sermão do Monte na Pandemia
(Fernando Saboia Vieira)



Queridos companheiros e companheiras de jornada,

Tempos difíceis podem tornar difícil a prática da oração quando ela é ainda mais necessária. O sofrimento, a enfermidade, a ansiedade, as necessidades materiais, as incertezas, tudo isso pode nos levar a uma paralisia nas nossas orações ou a que elas se tornem confusas, contaminadas por nossos sentimentos e dúvidas.
É, pois, de todo conveniente que nos voltemos à lição máxima de Jesus sobre oração, para que possamos nos colocarmos diante de Deus de uma maneira que nos possibilite receber Seu socorro, consolo, ajuda, direção e esperança.
Convido, assim, vocês a uma reflexão sobre a oração que o Senhor nos ensinou. De minha parte, quero destacar seis aspectos desse ensino de Jesus que têm me chamado atenção ao longo dos anos e nesses dias.

Primeiro, trata-se de uma oração filial. Ao longo de todo o Sermão do Monte, o Senhor nos ensina sobre nossa condição de filhos do nosso Pai que está nos céus. Sermos filhos do Pai deve definir a essência do nosso caráter e de nossas atitudes. Também deve nos levar a uma vida de confiança e sem ansiedades. 
No momento de orarmos, devemos nos lembrar que não oramos como os gentios, que não têm Deus como Pai, mas orarmos ao “pai nosso”, que nos ama, acolhe, supre e conhece todas as nossas necessidades antes mesmo que as expressemos diante d’Ele.

Depois, um segundo aspecto é o de que além de ser uma oração filial, ela é também uma oração familiar, comunitária. Mesmo quando estamos sozinhos e em secreto diante do Pai, Ele nos recebe como filhos de uma grande família, como membros de um corpo, como partes da comunidade que é a Igreja. Jesus nos ensina a orarmos e pedirmos inclusivamente, coletivamente, no plural. Em tudo incluímos e somos incluídos. Não estamos sozinhos em nossas lutas, necessidades e provações, assim como repartimos as vitórias, bênçãos e alegrias. 
Quando oramos ao “pai nosso”, Jesus também está incluído e participa da nossa oração, orando conosco e intercedendo. Ele é nosso irmão, filho do mesmo Pai.

Terceiro, o “Pai nosso” é essencialmente uma oração do Reino dos céus, do Reino de Deus. Exaltamos, de princípio, a Deus em Sua santidade e nos sujeitamos ao Seu Reino e a Sua vontade. Reconhecemos Seu Senhorio e expressamos nosso compromisso de buscar viver Seupropósito. Assim, entendemos que toda oração deve nascer no Deus Santo e Eterno, naquele que é nossa origem e nosso destino, o princípio e o fim, de onde viemos e para onde vamos. 
Ao orarmos dessa maneira, abrimos nosso ser e nossa vida para que a eternidade e a realidade celestial se tornem nossa experiência de cada dia na nossa jornada terrena. 

Mencionamos em quarto que o “Pai nosso” é também uma oração de simplicidadeQuando estamos diante do Senhor Altíssimo, nosso Pai que conhece todas as nossas carências, circunstâncias, debilidades e necessidades, quando consideramos Seu Reino e Vontade eternos e santos, quando somos revestidos pela suficiência de Sua Presença, nossa alma se despe de suas fantasias, medos e extravagâncias, e nosso coração percebe, afinal,que “poucas coisas são necessárias, na verdade uma só”
Assim, pedimos pão e perdão, porque são essenciais para nossa subsistência física e espiritual e não podemos nos suprir disso a nós mesmos; pedimos socorro nas tentações, porque somos débeis em nossas virtudes e forças para enfrentarmos as provações; e pedimos livramento do mal, porque dependemos da intervenção e do poder de Deus para sermos salvos do pecado, da maldade do mundo e do Inimigo.

Em quinto lugar, quero destacar que essa é também uma oração de dependência. Jesus nos ensina a pedirmos o necessário para “cada dia”. Não devemos colocar nossa segurança no depósito e no acúmulo de bens e de recursos, mas, sim, no suprimento diário do Pai. É a cada dia, momento após momento, que o Senhor sustenta toda a Criação com Sua Vida e Poder, e também a nós, nos comunicando Seu Espírito e nos vivificando. Jesus disse que não devemos nos inquietar inutilmente com o dia de amanhã. 
Olhamos para o futuro com a fé e a esperança geradas no nosso coração pela nossa experiência cotidiana com a suficiência de Deus no tempo presente.


Finalmente, um sexto aspecto é que o “Pai nosso” éuma oração de proclamação e de esperançaAqui, ao final, voltamos ao início e contemplamos Deus em Seu Reino, Poder e Glória eternos, dos quais somos chamados a participar, com todos os Santos e todos os seres celestiais que o adoram continuamente. É esse sentido, valor e significado espirituais que dão realidade a cada momento do nosso dia e a cada fase da nossa vida.

Como podemos nos beneficiar desse ensino de Jesus sobre oração? Penso que pelo menos de três maneiras.

Primeiro, como tema de meditaçãoDevemos considerar e meditar em cada uma das declarações da oração que o Senhor nos ensinou, o contexto, o significado, a maravilha e a profundidade desse ensino. Vamos lembrar que meditar não é apenas buscar o significado das palavras e coisas, mas nos unirmos de coração com sua verdade e essência. Não apenas conhecer a verdade, mas, principalmente, amar a verdade, porque na verdade encontramos a Pessoa que é a Verdade.

Segundopodemos usá-la como como oração do coração e recitá-la frequentemente ao longo do dia, especialmente quando nos faltarem palavras adequadas e quando necessitarmos sossegar a alma na certeza de que temos um Pai que nos sustenta a todo momento.

Terceiro, usá-la como modelo e preenchê-la com nossa vida: com nossa adoração e louvor, com nossos pedidos e súplicas, com nossa confissão e arrependimento, com nossa intercessão em favor das pessoas, com nosso compromisso cotidiano com Seu Reino e com Sua vontade e com nossa proclamação de fé e de esperança.

Irmãs e irmãos queridos, companheiros de jornada, que a suficiente graça de Jesus, o amor de Deus, nosso Pai, e as eternas consolações do Espírito Santo sejam com cada um de vocês, hoje e para sempre.

Fernando

Brasília, em julho de 2020, AD.

sexta-feira, 10 de julho de 2020

Sossegar a alma

SALMO 131

“Fiz sossegar a minha alma”

(Fernando Saboia Vieira)



Queridas irmãos e irmãos, companheiros de jornada,


Nesses dias de luta contra essa enfermidade que atinge a humanidade em escala global não tem sido fácil encontrar sossego de alma. E, assim mesmo, nada mais parece tão necessário em tais circunstâncias.
Sossegar a alma não é fácil em nenhuma situação. Desde a Queda, cada pessoa nascida de Adão e Eva encontra-se acometida de um desequilíbrio interno e de um desencaixe externo que tornam a paz interior uma experiência extremamente rara. A angústia existencial, marca inescapável da condição humana, e os conflitos interpessoais e com o próprio meio ambiente nos colocam a todos numa precária condição emocional e espiritual no que diz respeito à possibilidade de ter tranquilidade de coração.
No entanto, são grandes os perigos do desassossego interior, amplificados ainda mais nesses dias de pandemia: a ansiedade, o medo, a depressão, o desespero e todas as demais patologias da alma já endêmicas na modernidade.
Em tal cenário, são oferecidos, infelizmente, um número cada vez mais elevado de enganosos caminhos de autoajuda humanista ou religiosa, como as reprogramações mentais e os treinamentos emocionais, promovidos por coachs, facilitadores, pastores e diversos “gestores de alma”, os quais preconizam desde exercícios, relaxamentos e truques psicológicos até mesmo drogas, ideologias e estilos de vida.
O grande problema dessas abordagens é elas ficam na superficialidade e exterioridade do drama da alma humana e não produzem efeitos transformadores permanentes, exatamente por não preencherem a necessidade mais profunda do nosso ser. Nas palavras de Santo Agostinho, 

“Fizeste-nos, ó Deus, para Ti mesmo, e nosso coração permanece desassossegado até encontrar sossego em Ti”.

Mais ainda, com sua ênfase no fortalecimento da vida do self – do ego, do eu voltado para si mesmo – essas alternativas apresentadas nos afastam do caminho do recolhimentoesse, sim, capaz de nos levar à experiência do encontro pessoal e íntimo com o Pai, nossa única possibilidade de realmente aquietarmos e sossegarmos a alma, enchendo-nos de confiança e esperança.
O que é, todavia, esse recolhimento a que nos referimos? Para os Pais da Igreja e mestres da espiritualidade cristã, o recolhimento é a busca conscientee contínua da percepção da Presença íntima de Deus que habita dentro de nós, a busca de uma constante atenção a essa Presença interior e a busca, finalmente, de união ao Pai num vínculo de amor.
É, pois, recolhimentouma mudança de foco, de atenção, do exterior – do mundo que nos cerca, das circunstâncias que nos acometem, das preocupações e medos que nos assaltam, dos encantos e prazeres que nos atraem – para o interior do nosso ser, onde Deus habita no santuário do nosso coração. É a busca de uma sintonia com a dimensão espiritual da nossa pessoa, dos outros, da nossa existência e da realidade.
Para caminharmos no sentido desse recolhimento, é necessário, inicialmente, que nos desprendamos de coração do mundo e das coisas que nele há, tanto as boas e alegres, quanto as más e tristes, atentando para o caráter efêmero e para a natureza transitória delas. Encontramos a seguinte exortação da parte do Apóstolo Paulo sobre esse necessário desprendimento:

“Isto, porém, vos digo, irmãos: o tempo de abrevia; o que resta é que não só os casados sejam como se não o fossem; mas também que os que choram, como se não chorassem; e os que se alegram, como não se alegrassem; e os que compram, como se nada possuíssem; e os que se utilizam do mundo, como se dele não usassem, porque a aparência deste mundo passa”

E na 1ª Carta de João:

“Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. Ora, o mundo passa, bem como a sua concupiscência; aquele, porém, que faz a vontade do Pai permanece eternamente”


Jesus declarou a nós, seus discípulos:

“Não acumuleis para vós outros tesouros sobre a terra, onde a traça e a ferrugem corroem e onde ladrões escavam e roubam; mas acumulai para vós outros tesouros no céu, onde traça nem ferrugem corrói, e onde ladrões não escavam nem roubam; porque, onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração”

Esse desprendimento do mundo e de sua aparência nos inicia na jornada até o encontro com a Presença, que vai ordenar nossa vida interior e, a partir desse centro vital dinâmico do Espírito Santo transmitindo a vida de Deus ao nosso espírito, também vai ordenar e dar sentido ao mundo exterior e à nossa vida nele.
Essa experiência de desprendimento, de recolhimentoe de encontro com a Presença vai nos possibilitar ver as coisas do mundo e da vida como elas são, perceber qual o valor que porventura tenham dentro do propósito de Deuse aprender a nos relacionarmos com elas segundo a vontade do Pai para nós .
 
Caros irmãos e irmãs, a proposta deste exercício de meditação que compartilho com vocês é usarmos o Salmo 131 como um caminho de desprendimento recolhimentoaté encontrarmos o silêncio, o sossego de alma e a esperança, por meio da comunhão consciente da presença de Deus dentro de nós.
Davi começa o Salmo descrevendo uma atitude de humildade, que é a condição inicial necessária e imprescindível para se desprender de si mesmo e do mundo e para se aproximar do Deus vivo. Humildade que é a consciência de nossa condição de criaturas diante do Deus criador de quem flui momento após momento nossa própria vida e existência.
Depois, ele nos leva a uma busca do silêncio e da solitude do recolhimento por meio de um diálogo íntimo do nosso espírito com nossa alma que comunica ao nosso mundo interior o Verbo eterno, a Presença vida e amorosa do Pai.
Finalmente, somos conduzidos ao descanso e confiança de quem espera no Senhor, de quem coloca n’Ele toda a sua esperança.

O que proponho aqui é refletirmos sobre cada declaração do Salmo como um caminho em busca do recolhimento e da união da alma com o Criador. O mais importante é que cada um de nós possa fazer isso de forma íntima e pessoal com o Senhor, tornando nossas as declaração de Davi nessa oração.


SALMO 131


v. 1. Senhor, não é soberbo o meu coração, nem altivo o meu olhar; não ando à procura de grandes coisas, nem de coisas maravilhosas demais para mim.
Logo ao início do Salmo, Davi nos traz uma declaração sobre a necessidade de humildade do coração, do olhar e da procura.

Um coração humilde. 

Só podemos aprender verdadeiramente a humildadeolhando e imitando Jesus, seu esvaziamento, serviço e sujeição até a morte na cruz, Ele que subsistia na forma de Deus!
Queridos, para encontrarmos o caminho do recolhimento e da união com Deus é necessário, absolutamente imprescindível, que renunciemos ao orgulho, à soberba, à própria imagem, opiniões, posições, demandas, direitos. 
Devemos considerar, em oração diante do Senhor, quanta soberba há no nosso coração e quanto orgulho revelamos nas nossas palavras, sentimentos e relacionamentos.
Jesus disse que o Reino dos Céus é dos pobres em espírito. As Escrituras afirmam que Deus resiste aos soberbos, mas aos humildes concede graça.

Um olhar humilde.

Muitas vezes a maneira como olhamos para as pessoas , como nos postamos diante das circunstâncias da vida e como percebemos as coisas que nos acontecem ou não acontecem revelam nossa altivez e arrogância.
Somos também vítimas, não raro, da “concupiscência dos olhos”, cobiçando e medindo as coisas e pessoas pelo bem e prazer que elas podem nos proporcionar.
Jesus disse que os olhos são as lâmpadas do corpo. Se nosso olhar for mau, todo nosso ser estará em trevas. 
No caminho do recolhimento é imprescindível que aprendamos a ter um olhar humilde para com a vida, com as pessoas e até conosco mesmos.




Uma procura humilde.

Vivemos um tempo em que todos querem grandes projetos e realizações. A “soberba da vida está apregoada por todas as partes como condição de felicidade e sucesso. Soberba das riquezas, soberba do conhecimento, soberba do poder, soberba dos estilos de vida.
Nunca tivemos tantas pessoas se arvorando na condição de especialistas e dando conselhos de todos os tipos, fazendo “ousadas asseverações” sobre assuntos que absolutamente desconhecem!
Queridos companheiros e companheiras, se queremos seguir adiante nesse caminho do recolhimento e da união com Deus precisamos renunciar às coisas “grandes e maravilhosas demais” para nós.
Vamos nos lembrar que a oração desse Salmo foi feita por um homem que foi um grande guerreiro, rei, profeta, artista... Mas que almejava algo ainda mais imenso e maravilhoso: o sossego da alma e a esperança do coração em Deus.


v. 2. Pelo contrário, fiz calar e sossegar a minha alma; como a criança desmamada se aquieta nos braços de sua mãe, como essa criança é a minha alma para comigo.

Seguimos agora a jornada em busca do recolhimento, do silêncio e da solitude.

“Eu fiz”. Para buscarmos o recolhimento e a união com Deus, é necessário desenvolver uma conversa íntima consigo mesmo. O Espírito de Deus fala com nosso espírito; e nosso espírito deve dialogar com a alma, fazendo com que o Logos divino flua e atinja todo nosso ser interior.
Encontramos essa linguagem no Salmo 42, que expressa o mais profundo desejo da alma sedenta por Deus: 

“Por que estás abatida, ó minha alma? Por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda o louvarei, a ele, meu auxílio e Deus meu”

Amados, devemos constantemente fazer calar e sossegar nossa alma falando a ela as palavras divinas que o Espírito comunica ao nosso espírito, pois essas palavras carregam sentido, significado e poder para restaurar e transmitir vida ao homem por inteiro, corpo, alma, mente, coração, vontades, propósitos, inteligência, ânimo.

“Eu fiz calar”. Muitas vozes falam o tempo todo em nossa alma: pessoas do presente e do passado, memórias, amigos e inimigos, professores e influências, livros e experiências, o ambiente, as redes sociais e mídias etc. Também vozes do mundo espiritual, conceitos, ideias, ideologias, propagandas. Vivemos numa geração em que somos a todo momento literalmente atingidos por um sem número de imagens e informações que tornam muito difícil encontrar o sossego e a quietude interior, na insanidade de um mundo conectado globalmente todas as horas do dia.
Todavia, precisamos buscar o silêncio interior e a solitude para que possamos ouvir a Voz que fala continuamente sem sons e sem palavras, mas que em todas as linguagens da Criação transmite sua mensagem e Sua Vida.
Não podemos sossegar a alma dialogando, discutindo, debatendo, argumentando com todas as vozes angustiadas, assustadas, sedutoras ou confrontadoras que falam dentro de nós o tempo todo.
É necessário trazer constantemente à consciência a Presença do Deus Todo Santo e Todo Poderosos, perante o qual o temor e a fascinação da Sua manifestação devem preencher nossa alma com silêncio e adoração.
Não se trata de um truque psicológico ou de uma reprogramação mental. Não é uma questão de estilo de vida ou de treinamento emocional ou comportamental. É uma experiência espiritual que transcende nossa emoção e nossa razão, o que fazemos e não fazemos, para atingir a essência do nosso ser e da nossa existência.

“Eu fiz sossegar a minha alma”. Muitos sentimentos e emoções nos atravessam a alma a cada instante da existência, produzindo ansiedades, expectativas, temores, alegrias, desejos, frustração. 
Se nos permitirmos seguirmos o curso de nossa natureza humana caída, vamos deixar que nossa alma se canse e se desgaste viajando para lugares distantes, no mundo das possibilidades, nas lembranças de passados e expectativas de futuros, alegres ou tristes, em conflitos reais ou imaginados, em perigos presentes ou ausentes e que ela se quebre e adoeça vítima do caos de uma existência, distante do centro dinâmico que move todo o universo, que é a vontade e o amor de Deus.
Davi usa uma expressão cheia de significado e de ternura para descrever como ele tratava sua alma: recolhida, alimentada e sossegada, como uma criança que acaba de ser amamentada e adormece nos braços de sua mãe!


Ele diz, “como essa criança para com sua mãe, tal é minha alma para comigo”. Temos que sossegar nossa alma para conosco mesmos. É pessoal, é íntimo, é uma experiência vivida no nosso ser interior que se conecta diretamente com Deus, pois fomos animados pelo sopro do Seu Espírito na Criação exatamente para sermos capazes de ter com o Pai essa conexão que nos comunica, momento após momento, a Sua Vida e Natureza, produzindo em nós a Sua Imagem.
Muitas vezes tratamos dura e mesmo cruelmente nossa alma, exigindo dela atitudes, posturas, disposições, convicções, pensamentos, emoções, reações e atitudes perante a existência que ela não é absolutamente capaz de prover, a não ser que esteja alimentada e sossegada na Fonte da Vida, que flui do interior daqueles que foram enchidos pelo Espírito Santo!

Queridos irmãos e irmãs, vivemos numa geração absolutamente obcecada pelo corpo, pela aparência e pela saúde física. E absolutamente ignorante e displicente quanto os cuidados com alma. Não me refiro aqui à busca de bem-estar emocional e psicológico, que tem conduzido muitos aos enganos da religião humanista deste século, mas a um encontro com o Deus que nos criou e com o propósito para o qual fomos chamados à existência.
E é precisamente esse o desfecho do Salmo, o ponto de chegada dessa jornada em busca do recolhimento e da união com Deus.


v. 3. Espera, ó Israel, no Senhor, desde agora e para sempre.

Por meio da jornada do recolhimento criamos o ambiente de silêncio e solitude propício à experiência do encontro com o Senhor, à atenção consciente e contínua a Sua Presença dentro de nós.
Agora podemos experimentar o sossego e a paz de quem espera no Senhor, de quem se entrega completamente ao Seu cuidado.
Acerca dessa esperança, escreveu Thomas Merton:

“Sem esperança, nossa fé nos proporciona apenas uma aproximação com Deus. Sem amor e esperança, a fé apenas O conhece de longe, como a um estranho. Porque a esperança nos lança nos braços de Sua misericórdia e de Sua providência. Se esperamos n’Ele, não apenas saberemos que Ele é misericordioso, mas nós experimentaremos em nossa vida a Sua misericórdia”

Devemos, no entanto, estarmos atentos para o fato de que essa não será, na maioria das vezes, uma experiência de grandes emoções ou de êxtase espiritual. Mais comumente, o fortalecimento de nossa fé e confiança em Deus por meio da comunhão íntima com Ele e da percepção contínua de Sua Presença interior e de Sua açãoem todos os momentos do nosso dia nos levará a viver de uma maneira mais tranquila, sóbria, paciente, humilde, generosa, misericordiosa, operosa e frutífera no desempenho de nossas atividades comuns, nos nossos relacionamentos, nas circunstâncias favoráveis ou adversas que se nos apresentarem.
Que a suficiente graça de Jesus seja com todos vocês.

Seu conservo e companheiro de jornada,

Fernando Saboia

Brasília, julho de 2020, AD.