sábado, 16 de julho de 2022

 Os Evangélicos e a Luta pelo Poder Político no Brasil

 

Fernando Saboia Vieira

Bel. em Relações Internacionais

Advogado

Mestre e Doutor em Ciência Política

 

Brasília, julho de 2022, AD.

 

 

         Na nossa percepção, a participação dos evangélicos na política no Brasil evoluiu, nas últimas décadas, de um propósito inicial de apenas influenciar as decisões legislativas e governamentais com a perspectiva e valores do crescente número de evangélicos no País para se tornar um projeto de poder de alguns segmentos e líderes desse contingente.

         A reflexão que aqui propomos considera elementos colhidos a partir da observação pessoal e direta do comportamento dos Deputados Federais evangélicos e de seus partidos na Câmara dos Deputados, desde a Assembleia Nacional Constituinte.

         É uma perspectiva assumidamente impressionista, que busca, inicialmente, tão somente, levantar hipóteses que deverão, oportunamente, se tornar, em algum momento, problemas de pesquisa e de teorização, apesar da forma assertiva que o texto assume em alguns momentos.

         Ao que nos parece, esse movimento de mudança na postura dos evangélicos teve três fases: a primeira na Assembleia Constituinte e nos anos seguintes; a segunda com o surgimento de projetos de poder voltados para a tentativa de conquistar o Governo e a terceira quando essa estratégia muda para focar o Legislativo.

 

         A eleição de trinta e dois parlamentares evangélicos para a Assembleia Nacional Constituinte foi considerada surpreendente naquele momento. Esse êxito eleitoral talvez possa ser parcialmente explicado pelo fato de as igrejas evangélicas terem crescido e se fortalecido institucionalmente durante o regime militar, especialmente no meio urbano, em vários estratos sociais, se tornando estuário de demandas e centros de vida comunitária.

Acresce-se a isso a forte influência de seus pastores e líderes sobre os respectivos rebanhos, conferindo-lhes expressivo capital político eleitoral.

         Os evangélicos eleitos para a Assembleia Constituinte eram oriundos, principalmente, de denominações tradicionais, filiados a diferentes partidos, à direita, ao centro e à esquerda do espectro político ideológico.

         Eles atuaram em boa medida como bancada suprapartidária, defendendo pautas ligadas a valores morais e corporativistas, destacando-se, neste último caso, isenções fiscais e a busca de concessões de rádio e televisão, em expansão na época e vistas como instrumento para propagação da fé e fortalecimento das igrejas e ministérios.

         No entanto, divergências quanto a questões econômicas e sociais fizeram com que os parlamentares mais esquerdistas abandonassem o grupo e passassem a atuar de forma partidária ou independente. Deve-se lembrar que era esse o momento de forte influência marxista em alguns segmentos cristãos, católicos e evangélicos, inspirados por doutrinas como a chamada Teologia da Libertação

         Nesse etapa marcante da vida política brasileira o propósito predominante dos parlamentares evangélicos era influenciar a redação da nova Constituição e das novas leis dela decorrentes para fazer presentes princípios e valores coerentes com essa fé crescente no País.

         Havia também e crescentemente a busca de vantagens corporativas para as denominações evangélicas, como isenções tributárias, acesso a fundos e a concessões públicas, mas não havia, até então, um projeto de poder no sentido de lutar para assumir o protagonismo na arena eleitoral com vistas à conquista dos governos nacional e subnacionais.

         Os anos que se seguiram à edição da Constituição foram marcados por sucessivas crises econômica e instabilidades no cenário social e político.

Nesse contexto, observou-se expressivo crescimento dos grupos evangélicos neopentecostais, os quais, diferentemente das denominações tradicionais, se caracterizavam por fortes lideranças carismáticas, baixa institucionalização das igrejas e fluidez doutrinária. 

         Sob a inspiração da Teologia da Prosperidade, com promessas de sucesso financeiro, ascensão social e bem-estar, muitos desses grupos e movimentos embarcaram num tipo de populismo religioso à captura dos socialmente emergentes, sem apelo a ideologias de esquerda, e com crescente uso dos meios de comunicação.

         Com a fé vista como negócio lucrativo à procura de facilidades, incentivos e mercados, e a constatação do grande capital eleitoral dos seus líderes, o crescimento da representação e da influência na Câmara dos Deputados dos evangélicos, especialmente os neopentecostais, foi a consequência esperada. 

         Assim, ao final dessa primeira face, a crescente bancada evangélica se dedicava, principalmente, a uma pauta corporativa, sem grande ênfase nas questões e de valores, e sem preocupação com a corrupção ou problemas sociais estruturais. 

Seus integrantes buscavam, basicamente, garantir espaços e vantagens para os negócios, numa clara postura distributivista e paroquial.

 

         Esse cenário viria a mudar a partir de uma nova postura assumida pela Igreja Universal do Reino de Deus e, com menor expressão, pela Igreja Sara Nossa Terra.

         A Igreja Universal do Reino de Deus criou um braço partidário próprio e se infiltrou com candidatos em diversas legendas, em vários Estados, com o objetivo de formar uma grande bancada parlamentar, de intensificar as demandas corporativas face ao Governo, de promover o crescimento e o fortalecimento econômico da denominação e, em alguns anos, eleger seu líder nacional Presidente da República.

         A Sara Nossa Terra, com menor projeção nacional, tinha, basicamente os mesmos propósitos e estratégias, inclusive quanto à Presidência da República.

         Ambos os projetos, todavia, foram abortados por dissidências internas nas respectivas instituições e, principalmente, pelo envolvimento de alguns de seus líderes em escândalos de corrupção.

 

A participação no jogo político parlamentar na dinâmica do chamado presidencialismo de coalização abriu uma nova perspectiva para os projetos evangélicos de poder político, agora focados no controle do Legislativo.

Alguns parlamentares evangélicos se especializaram no exercício de cargos de liderança no Congresso e no comando de bancadas suprapartidárias em busca de vantagens junto ao Governo e em defesa de seus interesses pessoais e corporativos. 

Especialmente, a Presidência da Câmara dos Deputados passa a ser objeto de disputa, considerados os excepcionais poderes que seu ocupante detém nas barganhas com o Governo e no controle da agenda legislativa. E nada como um impeachment para deixar claro esse ponto!

Nesse momento, os governos petistas intensificavam a ênfase na agenda de costumes, utilizando os meios do Estado e políticas públicas com fins marcadamente ideológicos na promoção de teses que contrariavam os valores morais de grande parte da população brasileira.

Ao mesmo tempo, a crise econômica se agravava produzindo descontrole das contas públicas e gerando críticas à atuação do Governo nessa área, especialmente a falta de contenção de gastos.

Os problemas sociais se agravavam, como violência e a criminalidade. 

Esse cenário favoreceu o crescimento de uma enorme onda neoconservadora nos costumes e liberal na economia, surfada por políticos de diversas tendências de centro e de direita, inclusive evangélicos, tendo como ator principal um candidato à Presidência da República que se apresentava como “cristão e conservador”.

O que nos trouxe à atual Legislatura e mandato presidencial.

As contradições da aliança entre evangélicos, conservadores e direitistas não demoraram a transparecer, apesar dos esforços feitos nos últimos meses para reforçá-la às vésperas das próximas eleições. 

Na prática, os evangélicos que apoiaram o atual Presidente da República pouco espaço tiveram na ocupação de funções importantes, e passaram a intensificar sua atuação na trincheira legislativa, barganhando, a partir daí, sua agenda com o Governo, em troca de apoio em outras matérias de interesse do Executivo.

A agenda de segurança pública e de combate à corrupção não evoluiu. Áreas ideologicamente importantes como educação, cultura e relações exteriores foram sabotadas pela disputa interna entre grupos de apoio ao Governo e pela falta de consistência do chamado “olavismo”.

O sucesso relativo na agenda de costumes no sentido de mudar o viés ideológico das políticas públicas nessa área e de conter as ofensivas legislativas esquerdistas foi, em alguma medida, relativizado pelo ativismo judicial.


A avaliação da população brasileira quanto a essa aliança “cristã conservadora”, e dos próprios eleitores evangélicos, será conhecida no próximo pleito.

O que nos parece até aqui é que muitos líderes e instituições evangélicas no Brasil se deixaram seduzir pela busca do poder temporal, politizaram a fé, “cristianizaram” a política e contribuíram para a confusão no debate público acerca do que é ser cristão e de como, nessa condição, se inserir na sociedade e participar da solução dos problemas coletivos.

 

Soli Deo Gloria.

 

Fernando

 

 

 

 

         

sexta-feira, 15 de julho de 2022

 Cristianismo e Conservadorismo na Arena Pública de Debate

 

 

Fernando Saboia Vieira

Bel. em Relações Internacionais

Advogado

Mestre e Doutor em Ciência Política

 

Brasília, julho de 2022, AD.

 

 

 

         O propósito deste texto não é discutir “cristianismo” e “conservadorismo” do ponto de vista acadêmico, mas, sim, propor uma reflexão sobre como esses termos, e seus adjetivos cognatos, “cristão” e “conservador”, têm sido utilizados no debate público sobre sociedade e política no Brasil de hoje.

         Mais especificamente, queremos pensar sobre o que a rotulagem “cristão conservador” transmite como conceito e mensagem nas mídias e redes sociais, públicas ou privadas. 

Acreditamos que muitos que professam uma fé genuína no Evangelho de Jesus, e que têm um autêntico compromisso com o Reino de Deus, possam estar utilizando, ou permitindo o uso dessa adjetivação em relação a si próprios, de maneira inadvertida e, com isso, produzindo uma comunicação deficiente.

         O conservadorismo, ou neoconservadorismo, como alguns analistas preferem, está associado, no debate público, à afirmação e à defesa de um conjunto de valores morais relativos a comportamentos e estruturas sociais, como casamento e família, educação, o uso de drogas, a prática de aborto, segurança pública, emprego de armas de fogo e sexualidade, principalmente, valores que se pretende ver implantados na sociedade, inclusive por meio da ação política e da lei.

         Esses temas têm sido levados a debate nas arenas sociais por pessoas que muitas vezes se identificam, ou são identificadas, como “cristãs” e “conservadoras”, se alinhando à direita no espectro político e se colocando em oposição aos “comunistas”, “socialistas” e esquerdistas.

         Nesse sentido, seria anacrônico e incorreto considerar Jesus Cristo um “conservador”, já que o conteúdo de sua mensagem acerca do Reino de Deus não era, essencialmente, um conjunto de regras ou valores morais aceitos pela tradição, sociedade e cultura de seu tempo, e Seu propósito não era promover uma reforma social, legal ou política no sentido da implementação de tais valores, mas, sim, levar pessoas ao arrependimento e à conversão ao Reino dos Céus. 

Em verdade, Ele foi fortemente combatido e perseguido por grupos que, sob alguns aspectos, se aproximariam dos “conservadores” atuais, os fariseus, escribas e saduceus, esses, sim, especialmente os primeiros, dedicados à defesa de padrões morais e de costumes de sua religião. 

         Embora o ensino de Jesus tenha implicações morais, sociais e mesmo políticas, Ele sempre deixou claro que o Reino que anunciava era espiritual, e não deste mundo, significando o restabelecimento do governo de Deus sobre as pessoas, perdido desde a desobediência de nossos primeiros pais, no Éden. Isso está na essência da fé cristã.

         Assim, uma vinculação direta e unívoca do cristianismo ao conservadorismo encerra, a nosso ver, contradições conceituais, do ponto de vista neotestamentário, e pode levar a distorções na participação social e política das pessoas que assim se rotulam.

         O Evangelho de Jesus não consiste na imposição de um código de conduta, ainda que tenha, de fato, elevadas exigências éticas e morais. O caso é que sem uma experiência de conversão, transformação pessoal e de regeneração por meio do Espírito Santo, não há como alguém viver e expressar a santidade requerida pelo Senhor, que é nada menos do que a conformação com o Seu caráter, com Sua Imagem. 

O centro da mensagem do Novo Testamento é a convocação a uma transformação pessoal, e não a imposição de um sistema legal ou de um padrão de comportamento. Isso o judaísmo já tinha de sobra. A mudança nos valores e nas condutas das pessoas devem ser consequências de sua adesão à fé e ao Reino de Deus.

         Cristãos devem ser mansos, humildes, misericordiosos, pacificadores. Quando injuriados ou agredidos, devem retribuir o mal com o bem. Seus relacionamentos e sua participação na sociedade devem ser marcados por serviço e amor, mesmo em relação àqueles que, porventura, se apresentem como seus inimigos. 

         Essas virtudes e atitudes são decorrentes de uma experiência pessoal de conversão e de entrega a Deus, e não da adesão a uma religião, grupo, classe ou movimento.

Desse modo, incorre em contradição alguém se considerar discípulo de Jesus e se associar com atitudes agressivas, impiedosas e violentas em relação às pessoas pelas quais o Senhor se entregou na cruz, não importa que propósitos, valores, ideologias ou posicionamentos políticos inspirem tais posturas. 

         Os chamados conservadores, por sua vez, defendem alguns valores que coincidem com os assumidos pelos cristãos, mas também outros que não decorrem do Evangelho, e que podem mesmo estar em desacordo com a fé do Novo Testamento, a exemplo da legitimação da violência, do emprego de armas e da supressão de direitos individuais.

         Além disso, muitas das estratégias de participação social e de ação política dos grupos e movimentos conservadores são formuladas na lógica da disputa, do jogo e da guerra, segundo a qual os opositores devem ser derrotados e os vencedores podem impor seus pontos de vista e preferências. Diferentemente disso, o Evangelho de Jesus requer que os cristãos estejam dispostos a renunciar a si mesmos e a seus direitos em favor das pessoas e em prol do Reino de Deus.

         Assim, quando alguém, no debate público, se apresenta como conservador está, intencionalmente ou não, se associando, diante da coletividade, a um movimento ou a um conjunto de crenças e de atitudes que não têm total respaldo nos ensinos de Jesus e do Novo, ou até os contrariam.

Há, certamente, diferentes tipos de cristãos e vários tipos de conservadores, uma vez que nem um nem o outro grupo se caracteriza por homogeneidade de ideias, de posturas, de estratégias e de lideranças.

Mas, o que estamos querendo argumentar aqui é que, para efeito de testemunho, de imagem pública e de inserção na sociedade e na arena política, as rotulagens “cristão” ou “conservador” assumem significados simbólicos próprios, a despeito de posições e de nuances individuais ou de grupos.

         Dessa maneira, na nossa opinião, quem se apresenta publicamente, para o debate e participação social e política, como “cristão conservador” não tem como se eximir da identificação com tudo o que carrega cada um desses termos, uma vez que as pessoas os tomarão nas acepções que essas palavras têm assumido discursivamente. 

E cairá, fatalmente, em dilemas: ou deixará dúvidas sobre o que significa ser um verdadeiro cristão, ou não estará totalmente alinhado com o conservadorismo. Pior ainda, poderá tentar criar identificações entre os dois, com o risco de interpretar ideologicamente as Escrituras ou de tergiversar sobre as ideias e posturas dos conservadores.

Não é possível, biblicamente falando, ungir o conservadorismo, ou qualquer outra doutrina social, como a ideologia política cristã, uma vez que nem Jesus Cristo nem os Apóstolos jamais propuseram qualquer coisa nesse sentido.

É certo que as nefastas consequências que sucessivos governos de esquerda trouxeram a nosso País, do ponto de vista econômico, social e moral, inspirados por ideologias assumidamente anticristãs, como o comunismo, levaram muitos de nós, cristãos, a nos posicionarmos publicamente em defesa dos valores que consideramos fundamentais para a sociedade brasileira. E devemos continuar corajosamente com essa postura. 

 No entanto, cremos que a associação explícita e comprometida do cristianismo com o conservadorismo, em conceitos e em práticas, ainda que possa trazer benefícios eventuais na arena política e eleitoral, não se coaduna com o Evangelho de Jesus.

Nós, cristãos, não devemos jamais assumir rótulos ou adjetivos à nossa fé, sob pena de comprometermos o nome do Senhor e Sua mensagem. Esse tem sido, infelizmente, um erro recorrente na história da Igreja. Se as pessoas, os participantes do debate público ou os analistas sociais os nos atribuem, segundo seus próprios conceitos e para seus próprios fins, devemos apenas buscar manter o mais possível clara e evidente a mensagem de Jesus e do Reino de Deus.

São tempos confusos esses em que vivemos e, por isso, acreditamos ser oportuno refletir sobre conceitos, palavras, posturas e ideias que têm povoado os meios de comunicação, as redes sociais, as análises e as conversas, a fim de discernirmos posições e estratégias de influência social e de luta pelo poder.

Os cristãos devem, acima de tudo, proclamar o Reino de Deus, anunciado por Jesus Cristo, fiéis a Seus ensinos e propósitos, em cada geração e em cada época, até que Ele venha.

 

Finalmente, devo deixar claro que este texto expressa, estritamente, meu entendimento pessoal, não representando aqui o pensamento de qualquer grupo ou movimento.

 

 

Soli Deo Gloria.

 

Fernando

quinta-feira, 7 de julho de 2022

 A Politização do Evangelho e a “Cristianização” da Política

 

Fernando Saboia Vieira

Bel. em Relações Internacionais

Advogado

Mestre e Doutor em Ciência Política

 

Brasília, julho de 2022, AD.

 

 

         Por politização do Evangelho, queremos nos referir à tentativa de extrair do Novo Testamento um modelo institucional “cristão” de sociedade e de governo, ao esforço interpretativo das Escrituras no sentido de legitimar ou prescrever, do ponto de vista bíblico, uma forma específica de ordenamento social, econômico ou político. 

Em releituras “modernas” das Escrituras, em geral anacrônicas e orientadas por interesses seculares e ideologias, buscam-se nas palavras de Jesus e dos Apóstolos prescrições normativas quanto a estruturas e classes sociais, instituições políticas, modelos econômicos, formas de organização da sociedade, do estado e do exercício poder. 

Trata-se, em verdade, de uma abordagem tão antiga quanto o próprio Evangelho. Esse foi, no entanto, um caminho que Jesus recusou expressamente, o de reformar a sociedade e o estado por meio da restauração do trono de Davi, da libertação política de Israel e da recomposição da estrutura social do Antigo Testamento, ou da instauração de qualquer outra considerada adequada a Seus ensinos sobre o Reino de Deus, ou deles decorrente.

         Não há nas palavras de Jesus, nem nos ensinos dos Apóstolos, qualquer prescrição, orientação, conselho ou princípio no sentido de recomendar um modelo ou desenho institucional de sociedade, de governo ou de ordenação política.

         Chega a ser embaraçoso para os leitores contemporâneos o silêncio do Novo Testamento quanto ao imperialismo romano, à brutalidade de suas guerras de conquista, à escravidão e à exploração econômica dos povos dominados, por exemplo. E quase escandaloso o mandamento de sujeição às autoridades civis e políticas num momento histórico em que quem governava o Império era Nero, o maior perseguidor e assassino de cristãos.

         Na Idade Média, a Igreja Católica Romana, institucionalizada e secularizada, buscou legitimar a autoridade e o poder dos reis e governantes políticos, ou mesmo exercê-los diretamente, combinando elementos do Antigo Testamento com fórmulas oriundas de teocracias não cristãs, como a islâmica, à falta de qualquer base para tanto no Novo Testamento.         

 

         Ainda na modernidade não cessaram as tentativas de ver em Jesus Cristo um reformador social e de fazer, a partir de leituras descontextualizadas e ideologicamente enviesadas de seus ensinos, ilações e prescrições sobre formas e estruturas de sociedade, de governo e de instituições políticas.

         Há, até mesmo, quem espere, ainda hoje, a restauração política do trono de Davi e de Israel como nação escolhida de Deus!

         Na segunda metade do século passado, diversas formulações teológicas foram produzidas com o objetivo de tentar fazer derivar um modelo institucional de organização social e política a partir do Evangelho e do Novo Testamento, e de inserir a Igreja nos embates pelo poder secular a fim de implementá-lo.

Partindo da correta percepção de que os cristãos não podem ser insensíveis nem omissos diante do sofrimento dos desvalidos e socialmente oprimidos, transitou-se de propostas de participação e atuação na sociedade, com vistas à proclamação do Reino, como os movimentos do Evangelho Social e da Missão Integral, para doutrinas e práticas de enfrentamento aberto das estruturas sociais tidas como injustas, culminando por se chegar à busca  efetiva pelo poder a fim transformá-las por essa via, tanto na esfera da disputa política, quanto, até mesmo, em combates armados, a exemplo do defendido pelas chamadas Teologias da Libertação, de viés marxista.

         Nos últimos anos, temos presenciado uma nova vertente dessa tentativa de politizar o Evangelho, utilizando-se a ponte conceitual e ideológica do que se tem denominado de neoconservadorismo. Diz-se novo porque, entre outras características, diferentemente do conservadorismo clássico, essa versão atual foca, do ponto de vista discursivo e de estratégia de ação, principalmente, em valores morais, e não diretamente nas estruturas sociais. 

No entanto, cada vez mais, os movimentos conservadores hodiernos têm buscado expressão política e atuado para obter e exercer o poder e, por esse caminho, tentar mudar as leis, as instituições e as estruturas sociais na direção do que consideram ser um modelo de sociedade e de governo mais de acordo com seus valores, em grande parte qualificados como valores “cristãos”.

Ou seja, trata-se de obter o poder político para implementar um tipo de sociedade que se pretende estar em consonância com o Evangelho de Jesus e o Novo Testamento, e por eles legitimado ou mesmo requerido.

         Consideramos importante e necessário, nesse passo, distinguir participação e atuação social de politização do Evangelho.

Cristãos devem ser sal e luz, devem agir para tornar a sociedade mais justa, para que haja paz e prosperidade para todos, inclusive na esfera política. Devem fazer o bem e proclamar o Reino de Deus tanto em palavras quanto em obras, seguindo o exemplo de Jesus.

Cristãos devem, quando necessário, assumir posturas de denúncia profética quanto à imoralidade, à corrupção, à opressão e às injustiças na sociedade, principalmente aquelas promovidas ou toleradas pelas autoridades às quais caberia a administração da paz e da justiça. Isso pode levar, e, de fato, levou ao longo da história, a confrontos com pessoas poderosas e regimes políticos iníquos, ao ponto da perseguição e retaliação por parte desses.

Todavia, os cristãos não têm um modelo institucional de sociedade para oferecer e, menos ainda, de organização política, simplesmente porque Jesus Cristo não os tinha, nem os Apóstolos.

         A politização do Evangelho tem como inferência lógica e como sua necessária contraface o que estamos chamando de “cristianização” da política: não apenas influenciar, mas assumir o poder político para usá-lo como meio adequado e legítimo para a implementação de um modelo “cristão” de sociedade.

         A “cristianização” da política, então, seria a estratégia de usar o poder secular e político, seus recursos, influências, métodos e capacidade de pressão para “cristianizar” a sociedade a partir da transformação de suas estruturas institucionais e políticas.

         Dessa maneira, o neoconservadorismo se apresenta como expressão necessária do cristianismo para implementação do Reino de Deus na sociedade, e se arvora na condição de ideologia política “cristã”, inspiradora, orientadora e motivadora de seus agentes na luta pelo poder, por meio de seus mestres, filósofos e doutrinadores.

         No entanto, qualquer leitura honesta do Novo Testamento, sob a ótica da fé nas Escrituras, não pode deixar de reconhecer que a política é um meio completamente inadequado para a proclamação e propagação do Reino de Deus. Esse caminho também foi expressamente recusado por Jesus e pelos Apóstolos.

         O Reino que o Senhor pregava não é deste mundo e o poder para implementá-lo é espiritual, e não natural. Estruturas sociais, por melhores que sejam, não podem produzir conversão ou santidade. Não existem países, nações ou governos “cristãos”, no sentido bíblico desse termo. Existem, sim, homens e mulheres convertidos ao Evangelho de Jesus Cristo, oriundos de todos os povos, culturas e nações, ao longo dos séculos e em todos os lugares do planeta, em sociedades organizadas politicamente das mais diferentes maneiras.

 

         Essa estratégia, a de tentar “cristianizar” a política, foi utilizada nos séculos seguintes à vinda de Jesus, e é até hoje, desde a aliança da Igreja Católica Romana com o Imperador Constantino, com nefastas e tristes consequências para a causa do Reino de Deus. 

Infelizmente, ao longo desses dois milênios, em diversas ocasiões, a Igreja institucionalizada deixou de lado as palavras de Seu Senhor: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus” (Mateus 22:21), e se envolveu em alianças e negócios espúrios deste mundo.

         É com espanto e tristeza que vemos, nos nossos dias, postulantes ao poder político serem “ungidos” por líderes de instituições identificadas com a Igreja, como se fossem esses disputantes os escolhidos de Deus para a transformação da sociedade e implementação dos chamados valores “cristãos”.

         A politização da interpretação e do ensino das Escrituras, das pregações e mensagens dos púlpitos presenciais e virtuais, das ditas profecias, dos ministérios, dos movimentos, das manifestações feitas em nome do cristianismo, assim como a tentativa de legitimar lideranças e práticas políticas como instrumentos de implementação do Reino, por vezes a despeito de suas evidentes contrariedades com os ensinos de Jesus, nos lembram, tragicamente, as palavras do profeta Ezequiel:

 

         “Os seus sacerdotes transgridem a minha lei e profanam as minhas coisas santas; entre o santo e o profano, não fazem diferença ... Os seus príncipes no meio dela são como lobos que arrebatam a presa para derramarem o sangue, para destruírem as almas e ganharem lucro desonesto. Os seus profetas lhes encobrem isto com cal por visões falsas, predizendo mentiras e dizendo: Assim diz o Senhor, sem que o Senhor tenha falado” (Ezequiel 22:26-28).

 

 

         Soli Deo Gloria

 

         Fernando