segunda-feira, 27 de março de 2017

Não os dons, mas o Doador

 São Gregório de Narek (c. 944-c. 1010), monge, poeta arménio
O Livro das Orações, 12, 1; SC 78, 102

«Se não virdes sinais e prodígios, não acreditareis».


«Todo aquele que invocar o nome do Senhor
será salvo» (Jl 3,5; Rom 10,13).
Quanto a mim, não só O invoco
mas, acima de tudo, creio na sua grandeza.

Não é pelos seus dons
que persevero nas minhas súplicas:
é porque Ele é a vida verdadeira
e é nele que respiro;
sem Ele não há movimento nem progresso.

Não são tanto os laços de esperança,
mas os laços do amor que me atraem.
Não é dos dons,
é do Doador que tenho perpétua nostalgia.
Não é à glória que aspiro,
é ao Senhor glorificado que quero abraçar.
Não é de sede da vida que constantemente me consumo,
é da lembrança daquele que dá a vida.

Não é pelo desejo de felicidade que suspiro,
que do mais profundo do meu coração rompo em soluços;
é porque anelo por Aquele que a prepara.
Não é o repouso que procuro,
é a face daquele que aquietará o meu coração suplicante.
Não é por causa do festim nupcial que feneço,
é pelo anseio do Esposo.

Na expetativa segura do seu poder
apesar do fardo dos meus pecados,
creio, com esperança inabalável,
que, confiando-me na mão do Todo-Poderoso,
não somente obterei o perdão
mas O verei em pessoa,
pela sua misericórdia e a sua piedade
e que, conquanto mereça ser proscrito,
herdarei o Céu.