quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A ORAÇÃO DO CORAÇÃO



        Caros companheiros de jornada em busca da vida interior,

         Quero compartilhar algo sobre uma maneira especial de orar que sempre esteve associada, na vida da igreja, à jornada em busca da vida interior: a oração do coração.
         Essa prática de oração e adoração foi muito desenvolvida pelos Padres do Deserto, entre os séculos III e IV, e por outros movimentos de espiritualidade ao longo da história do povo de Deus.
         A oração do coração é, em verdade, uma das maneiras mais simples de orar. Ela consiste na repetição calma, contínua e meditativa de frases bíblicas, de expressões, de palavras ou mesmo tão somente do nome de Jesus.
         O que a qualifica não é, portanto, sua forma e conteúdo, mas seu ambiente e sentido. Ela pode ser praticada ao longo de todo o dia e em meio às tarefas comuns, sempre em busca de silêncio interior, de companhia, de intimidade, de transformação. Seu propósito e seu objeto é a união consciente com o Senhor que habita dentro de nós.
         Com efeito, pode ocorrer, em alguns momentos da vida, que nossas orações se tornem excessivamente voltadas para o mundo exterior, para as circunstâncias, lutas, temores, desafios e alvos que nos pressionam, atraem ou repelem.
         Nessas ocasiões, nossas orações podem ficar cheias de ansiedades, de emoções conflituosas e agitações, refletindo nossos desejos, expectativas, medos etc. Embora possamos – e devamos – trazer todas essas coisas diante do Pai, temos que cuidar para não orarmos de maneira egoísta, secular, sem foco no mundo espiritual, no Reino de Deus, na eternidade.
         Também pode ocorrer que, em meio às nossas muitas atividades e compromissos, nossas orações se tornem apressadas, mecânicas, descuidadas, dispersas.
         Outras vezes, poderão elas ser muitos formais, conceituais, impessoais. Distantes e nos mantendo distantes do coração do Senhor a quem oramos.
Em todas essas circunstâncias, a oração do coração pode ser de extrema valia, pois representa uma busca de simplicidade, de afetividade, de serenidade, de recolhimento e de intimidade com o Pai.
Principalmente, a oração do coração é uma procura pela Presença interior de Deus, por comunhão com Ele, por revelação e por transformação. É uma maneira de orar que não tem o propósito de produzir efeitos no mundo exterior, mas dentro de quem orar. Não começa no que eu quero, nem em quem eu sou; não nas circunstâncias da vida e nem nas outras pessoas. Ela começa onde também termina: em Deus, em quem Ele é, no Seu propósito e no Seu amor, que me dão identidade, sentido e contentamento.
         Ela não vagueia, não vai de um tema a outro, não elabora argumentos. Não busca abrangência, mas penetração. Persegue calma e consistentemente os fundamentos espirituais de nossa vida que só podem ser encontrados em Deus, na experiência do Seu amor, na certeza de que esse amor é a realidade mais constante e mais segura do universo, de que ele é a causa e o efeito de tudo.
A oração do coração não é a busca de uma experiência emocional, de um êxtase. Muitas vezes, será mesmo o oposto disso, revelando nosso deserto interior e nossos temores mais profundos. Ela é a busca de uma verdadeira experiência da Presença de Deus em todos os momentos da vida. Como ela tem esse único propósito, ela é também uma oração de renúncia, pois significa o abandono de tudo o mais.
Ao longo de todo o dia, e mesmo durante vários dias, posso orar, oral ou mentalmente, repetindo um texto das Escrituras, como “o Senhor é o meu Pastor, e nada desejarei”; ou uma petição, como “Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim”; ou mesmo uma simples palavra: “Jesus, Jesus” e deixar que a verdade essencial e a realidade espiritual contidas nessas expressões produzam em mim a consciência da Presença dAquele que é a Verdade e a Realidade.
Desse modo, posso incluir o Senhor em tudo o que eu esteja fazendo, todo o tempo. Posso estar em Sua companhia, contemplá-lO, admirá-lO, adorá-lO. Não como uma tempestade, não como uma inundação, mas como uma irrigação contínua, como um gotejamento permanente que vai amolecendo a terra, penetrando nela até torná-la propícia à germinação que foi semeado.
A oração do coração é, assim, especialmente, uma oração peregrina, a caminho, sempre em busca do lar, da Presença, da união com o Amado.
Ela se fundamenta na consciência de que Ele está presente e de que Ele deseja esse relacionamento, de que Ele nos ama e de que, assim, não são necessárias muitas palavras, mas estar atento a essa Presença.
Ela é preciosa quando as palavras não dão conta da vida, não podem expressar o que nos vai na alma, quando nossas perplexidades nos emudecem e nos vemos sozinhos e oprimidos. Igualmente, ela é necessária quando somos tomados pela maravilha da existência, pela consciência da Presença divina, pelos mistérios arrebatadores do universo, pelas excelências de Deus e de Suas obras – e também nos faltam palavras.
Menos palavras, mais significado. Menos pensamentos, mais coração. Como uma criança que coloca toda expressão do seu ser numa simples frase, ou mesmo numa só palavra: “Pai!”, “Mãe”!
Finalmente, a oração do coração deve ser perseverante. Continuamente nos distraímos e nos esquecemos da Presença. Buscamos novamente as exterioridades e fugimos da nossa solitude interior onde podemos estar especialmente com o Pai. É necessário, nessas ocasiões, não lutar contra as distrações, não nos fixarmos nelas, mas apenas retornar ao exercício da consciência de que Ele está presente, ainda que O percamos momentaneamente de vista. E Ele manifestará em nossas vidas a Sua Bondade e Sua Graça.

Que a Graça de Jesus seja com todos, cada dia da jornada, nos dias nublamos e nos dias de sol.

Brasília, final de outubro de 2011.

Fernando Sabóia Vieira


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