Vocação
Para ti, a pérola mais
preciosa,
o dom perfeito:
Sofrer as minhas dores,
amar as minhas palavras;
caminhar os meus desertos,
só querer a minha glória.
- Andarás solitário na multidão
e nunca terás consolo
enquanto houver um aflito
no meio do meu povo;
sobre ti, mais pesada a minha mão
e mais evidente a minha graça.
Serás profeta.
Fernando Saboia Vieira
de "Veredas no Deserto", 1995.
Companheiros de Jornada em Busca da Vida Interior,
Quando escrevi esses versos eu não podia entender a profundidade da revelação e da vocação que estava recebendo da parte de Deus. Era jovem demais e inexperiente demais nas lutas e sofrimentos da vida e da causa de Cristo. Mas, ainda que ingenuamente, me dispus a caminhar com Ele e a falar me Seu nome, e Sua graça foi se tornando cada vez mais necessária e evidente na minha vida, a cada dia e a cada desafio. Ainda hoje, pregar em nome do Senhor me enche de temor, de dor, de alegria, de quebrantamento, de graça, de dúvidas e de certezas, tudo ao mesmo tempo. É difícil falar e é, às vezes, impossível calar.
Tantos anos depois, tenho aprendido e recebido uma medida mais intensa de sofrimento e de graça: chamado para ser pastor, ser pai de todos, ter o coração unido a todos, ir à frente nos perigos e incertezas, permanecer ao lado nas dores e nas alegrias e ser o último em tudo o mais. Não se trata de um serviço apenas, mas de uma profunda e muitas vezes dolorosa jornada de transformação pessoal, de amor a Deus, de pertencer apenas a Ele, de ser canal do Seu amor e da Sua misericórdia. Mais necessária ainda Sua suficiente e poderosa graça!
Um fruto inesperado e maravilhoso dessa "Jornada"? Uma inexplicável paz e uma celestial alegria, que surgem da experiência e da consciência da Presença, momento após momento, e que se unem numa poderosa manifestação de Deus na alma humana: o contentamento.
Que a graça de Jesus seja com todos quantos amam a Sua vinda!
Fernando
domingo, 25 de fevereiro de 2018
sábado, 24 de fevereiro de 2018
Esperar em Deus
ESPERAR
EM DEUS POR SUPRIMENTOS
Andrew Murray
“O
Senhor sustém os que vacilam e apruma todos os prostrados. Em ti esperam os
olhos de todos e tu, a seu tempo, lhe dás o alimento”
Salmo
145:14-15
O
Salmo 104 é um Salmo da Criação, e as palavras “esses todos esperam em Ti” são
usadas em referência ao mundo animal. Aqui temos um Salmo do Reino, e as
palavras “em ti esperam os olhos de todos” se referem especificamente às
necessidades dos santos de Deus, de todos os que vacilam e daqueles que se
acham prostrados. Aquilo que o universo e o mundo animal fazem
inconscientemente, o povo de Deus deve fazer inteligente e voluntariamente. O
homem deve ser o intérprete da natureza. Ele deve demonstrar que não existe
nada mais nobre e mais abençoado no exercício de sua livre vontade do que
usá-la para esperar em Deus.
Se
um exército tiver sido enviado para marchar sobre um país inimigo e houver
notícias de que ele não está avançando, logo é feita a pergunta sobre a causa
do atraso. A resposta, frequentemente, será: “esperando por suprimentos”. O
abastecimento de provisões, roupas ou munições não foi completado ainda, sem
isso ele não ousa prosseguir. Não é diferente na vida cristã: dia após dia, a
cada passo, necessitamos dos nossos suprimentos do Alto. E não existe nada tão
necessário quanto cultivar aquele espírito de dependência de Deus e de
confiança n’Ele que se recusa a prosseguir sem o necessário suprimento de graça
e de poder.
Caso
seja feita a pergunta sobre se isso é algo diferente do que fazemos quando
oramos, a resposta é que é possível haver muita oração com pouco esperar em
Deus. Na oração estamos, muitas vezes, ocupados conosco mesmos, com nossas
próprias necessidades e com nossos próprios esforços em apresentá-las. No
esperar em Deus, o primeiro pensamento está no Deus em quem nós esperamos.
Entramos em Sua Presença e sabemos que necessitamos apenas nos aquietar a fim
de que Ele, como Deus, possa nos revestir d’Ele mesmo. Deus quer revelar-se a
Si mesmo, para nos encher d’Ele mesmo. Esperar em Deus dá a Ele tempo para agir
à Sua própria maneira e poder divino para vir até nós.
É
especialmente no tempo de oração que nós devemos nos dedicar a cultivar esse
espírito.
E
quando estiver orando, que haja intervalos de silêncio, de reverente quietude
de alma, em que você se apresenta a Deus disponível para o que Ele tenha a lhe
ensinar ou a trabalhar em você. Esperar
n’Ele se tornará a parte mais abençoada da oração, e as bênçãos assim obtidas
serão duplamente preciosas como o fruto de tal companheirismo com o Santo. Deus
assim dispôs, em harmonia com Sua natureza e com a nossa, que esperar n’Ele
deva ser a honra que devemos lhe prestar. Vamos oferecer esse culto a Ele
alegre e verdadeiramente e Ele vai nos recompensar abundantemente.
“Em
ti esperam os olhos de todos e tu, a seu tempo, lhe dás o alimento”. Cara alma, Deus provê na natureza o
necessário para Suas criaturas, quanto mais Ele não proverá em Graça para
aqueles que Ele redimiu. Aprenda a dizer em cada desejo, em cada fracasso e em
cada carência da graça necessária: esperei muito pouco ainda no Senhor, ou Ele já
teria me dado no tempo devido tudo o que preciso. E a dizer também “Somente em Deus espera, oh minha alma!”
Andrew
Murray, “Waiting on God”, traduzido a partir do texto disponível em domínio público
em www.ccel.org, por Fernando Saboia Vieira, para o www.baudofernando.blogspot.com.
sexta-feira, 26 de janeiro de 2018
Uma Jornada em Busca da Vida Interior - Prefácio
Companheiros de Jornada em Busca da
Vida Interior,
Tenho, finalmente, nos
últimos anos, me aproximado de uma essência vital, de uma nova percepção de
Deus, de uma nova experiência da espiritualidade. Mais expandida e mais
simples, mais abrangente e mais focada, mais pessoal e mais integrada a tudo o
que existe. Mais consciente de mim mesmo e ao mesmo tempo menos centrado em mim
mesmo. Ser, existir e me expressar sempre em relação à Presença que tudo
envolve e que habita dentro de mim. Ser integrado por ela, abrangido por ela,
atravessado por ela, incluído, superado, transformado e, sobretudo, amado. Experimentar
a suficiência da paternidade de Deus momento após momento, em cada instante de
consciência, em cada tarefa, em cada conversa, em cada palavra. Orar e viver se
tornam a mesma coisa. Palavra e silêncio se unem. Ação e quietude não se
separam. A busca dessa vivência e espiritualidade se tornou mais intensa para
mim e mais real. O Espírito tem me conduzido a ela e me instruído nela de
diversas formas, se expressando por diferentes e surpreendentes fontes.
Entre o final de 2016 e o início de
2017 vivi uma crise pessoal mais profunda do que podia esperar a essa altura da
vida e já com tantos anos de caminhada com o Senhor. Foi intensamente íntima e
solitária, foi extremamente dolorosa e obscura, foi desértica e árida e foi
transformadora pelas expressões de graça e de verdade que me confrontaram e me
consolaram. Quando cheguei à experiência de estar “vazio como quem foi
esvaziado pela morte”, Ele me resgatou, tornou minha solidão em solitude, e me
fez experimentar Seu amor e misericórdia de Pai. Me compreendi na minha miséria
e na maravilha de Sua glória manifestada na minha vida. Encontrei o sentido, o
contentamento, a completude e a alegria de minha identidade, de minha existência
e de minha vocação.
Também tenho aprendido a ver as pessoas
de uma maneira diferente, a ler suas almas com outra linguagem, compreendê-las
à luz da verdadeira luz. Tenho percebido a complexidade e profundidade de seus dramas,
dores e enganos, a desconcertante simplicidade das soluções suficientes e necessárias
para restaurá-las e a grande dificuldade que elas podem ter em encontrar esse
centro vital, essa fonte interior de onde jorram os rios de água vida, esse
tabernáculo do coração quebrantado, que é a morada favorita do Deus Altíssimo,
e em aí permanecer e receber o poder da vida.
Vivi, por anos demais, à margem dessa
experiência da consciência constante da Presença de Deus e da Realidade
espiritual que envolve todas as coisas, com uma fé racionalizada, estreitada,
covarde e o coração cheio de sentimentos conflituosos. Sempre que não estamos
recolhidos e alimentados em uma união completa com Deus - intelectual, afetiva,
ativa, contemplativa, de corpo, alma e espírito, em solitude e em comunhão com
as pessoas - segmentamos a vida no tempo e nos trabalhos, fracionamos a alma
nas circunstâncias, sonhos e dores, corrompemos o corpo com carências e
excessos, encolhemos o espírito, limitamos o amor, condicionamos o perdão,
retemos a misericórdia, nos tornamos menos humanos, menos reais e menos filhos
do Pai.
Quero compartilhar sobre isso e, embora
as palavras me pareçam sempre muito inadequadas para expressar essas realidades,
é tempo, creio, de trazer à luz os textos, meditações e poesias que escrevi ao
longo de já mais de década e que registram, quanto a mim, as experiências,
dramas, dores e alegrias de “Uma Jornada em Busca da Vida Interior”, se o
Senhor assim permitir, pois esse caminho, embora muitas vezes pessoal e em
solitude diante de Deus, não pode ser percorrido solitariamente e sem a ajuda
dos companheiros que estão nessa mesma vereda. Que a suficiente graça de Jesus
seja com todos.
Brasília, em 26 de janeiro de 2018.
Fernando Saboia Vieira
terça-feira, 23 de janeiro de 2018
Esperar em Deus
Andrew
Murray
“Somente em Deus, ó minha alma,
espera silenciosa, porque dele vem a minha esperança” Salmos 62:5 (ARA)
Uma questão solene nos ocorre: “O Deus
que eu tenho é um Deus que é para mim acima de todas as circunstâncias, mais
próximo de mim do que pode ser qualquer circunstância? ”. Irmão, você aprendeu
a viver sua vida tendo Deus realmente com você a cada momento, de tal modo que
nas circunstâncias mais difíceis Ele está sempre mais presente e mais próximo a
você do que qualquer coisa à sua volta? Todo nosso conhecimento de Deus será de
pouca valia para nós a menos que essa se torne uma pergunta para a qual temos
resposta.
Qual
seria a razão pela qual tantos filhos amados de Deus continuamente reclamam:
“Minhas circunstâncias me separam de Deus; minhas provações, minhas tentações,
meu caráter, meu temperamento, meus amigos, meus inimigos, qualquer coisa pode
se colocar entre mim e meu Deus”? Deus não é capaz de se apoderar de tal forma
que Ele esteja mais próximo de mim do qualquer outra coisa no mundo? Devem
riqueza ou pobreza, alegria ou tristeza terem um poder sobre mim que meu Deus
não tem? Não. Mas, por que, então, os filhos de Deus tão frequentemente se
queixam que suas circunstâncias os separam d’Ele? Só há uma resposta: “Eles não
conhecem seu Deus”. Se existe perturbação ou fraqueza na Igreja de Deus é por
causa disso. Nós não conhecemos o Deus que temos. É por isso que, em
complemento à promessa “Eu serei vosso Deus”, é tão frequentemente acrescentado
“E vós sabereis que eu sou seu Deus”. Se eu souber disso, não por meio do
ensino de homens, não por minha mente e imaginação, mas se eu souber disso pela
evidência viva que Deus imprime no meu coração, então eu saberei que a presença
divina de Deus é tão maravilhosa e meu Deus, Ele mesmo, tão belo e tão próximo
que eu viverei todos os meus dias e anos como um vencedor por meio d’Aquele que
me amou. Não é essa a vida de que necessitamos?
A
pergunta retorna: Por que o povo de Deus não conhece seu Deus? E a resposta é
essa: As pessoas aceitam receber qualquer coisa, exceto Deus – ministros,
pregações, livros, orações, obras, esforços, qualquer expressão do fazer humano,
em lugar de esperar, e esperar muito, se necessário, até que Deus revele-se a
Si mesmo. Nenhum ensino que recebamos e nenhum esforço que façamos pode nos colocar
na posse dessa abençoada luz de Deus, que é tudo em tudo para nossas almas. Mas
ainda assim ela é atingível, está ao alcance, se Deus revelar-se a Si mesmo.
Essa é a única coisa necessária. Em Deus, eu gostaria que cada um se
perguntasse no coração se já disse e se repete a cada dia: “Eu quero mais de
Deus. Não me fale apenas das belas verdades da Bíblia. Isso não pode me
satisfazer. Eu quero Deus”. Na nossa vida cristã interior, na nossa vivência
cristã, nas nossas igrejas, nos nossos encontros de oração, na nossa comunhão,
tudo deve apontar para isso – que Deus tenha sempre o primeiro lugar, e se isso
for reconhecido a Ele, ele tomará completa posse. Ah, se em nossas vidas como
indivíduos todos os olhos estivessem em Deus, no Deus vivo e cada coração
estivesse clamando “Minha alma tem sede de Deus”, que poder, que bênção e que
presença do Deus eterno não nos seria revelada!
...
Agora,
quero compartilhar uns poucos pensamentos sobre o modo pelo qual podemos
conhecer Deus como esse Deus que é acima de todas as circunstâncias e que enche
meu coração e minha vida cada dia. A coisa essencialmente necessária para isso
é: eu preciso esperar em Deus. No texto original, assim como se lê em nossa
versão alemã, está escrito “minha alma está silenciosa em Deus”. O que seria
esse silêncio da alma diante de Deus? Seria uma alma consciente de sua pequenez,
de sua ignorância, de seus preconceitos e dos seus perigos provenientes das
paixões e de tudo o que é humano e pecaminoso. Uma alma consciente disso e que
diz: “Eu quero que o Deus eterno venha e se apodere de mim e se apodere de mim
de tal forma que eu possa ser guardada na palma de Sua mão por toda a minha
vida; eu quero que Ele se apodere de mim de tal modo que a cada momento Ele
opere tudo em mim”. Isso é inerente à própria natureza de nosso Deus. Ah, como
devemos silenciar diante d’Ele e esperar n’Ele!
Permitam-me
perguntar, com toda reverência: para que existe Deus? Deus existe para isso:
para ser a luz e a vida da criação, a fonte e o poder de toda existência. As belas
árvores, a grama verde, o sol brilhante, Deus os criou para que eles revelem
Sua beleza, Sua sabedoria e Sua glória. Uma árvore centenária, quando foi
plantada, Deus não deu a ela um estoque de vida para que ela usasse durante toda
a sua existência. Não, na verdade Deus veste os lírios novamente a cada ano com
sua beleza e frescor, todos os anos Deus reveste a árvore com sua folhagem e
frutos. Cada dia e a cada hora é Deus quem mantém a vida de toda a natureza. E Deus
nos criou para que sejamos vasos vazios nos quais ele possa trabalhar e
expressar Sua beleza, Sua vontade, Seu amor, e a semelhança de Seu Filho
bendito. É para isso que Deus existe, para operar poderosamente em nós incessantemente.
Quando
eu começo a me apossar disso eu não mais penso que a verdadeira vida cristã
seja uma grande impossibilidade ou algo não natural, mas eu posso dizer: “É a
coisa mais natural na criação que Deus me tenha a cada momento, e que meu Deus
seja mais próximo de mim do que tudo mais”. Pense por um momento o quão tolo é
imaginar que eu não possa esperar que Deus esteja comigo a cada momento. Apenas
olhe para o brilho do sol. Alguma vez, ao trabalhar, estudar ou ler um livro, você
teve problemas com a luz que o sol dá? Alguma vez você disse: “Oh, como eu
posso manter essa luz, como eu posso segurá-la firmemente, como eu posso ter
certeza de vou continuar a tê-la para usar”? Você nunca pensou nisso. Deus
providenciou para que o próprio sol forneça luz a você, e, sem sua participação,
a luz vem sem restrições. E eu lhe pergunto: o que você acha? Deus providenciou
para que a luz daquele sol que um dia se extinguirá venha até você, sem que
você tenha consciência disso, e o abrigue poderosa e abençoadamente, e Deus não
estará desejoso ou não será capaz de fazer que Sua luz e Sua presença brilhem
através de você a fim de que você possa caminhar o dia todo com Deus mais
próximo de você do que qualquer coisa natural? Louve a Deus pela certeza de que
Ele pode fazer isso! E por que Ele não o faz? Por que o faz tão raramente e em
tão pouca medida? Só há uma resposta: porque você não permite que Ele o faça. Você
está tão ocupado e cheio de outras coisas, coisas religiosas, pregar e orar,
estudar e trabalhar, tão ocupado com sua religião que você não dá a Deus o
tempo para que Ele se faça conhecido, para que Ele entre e tome posse. Irmão,
ouça a palavra do homem que conhecia Deus tão bem e comece a dizer: “Espera, oh
minha alma, apenas em Deus”.
...
Andrew
Murray, “The Secret of the Master’s Indwelling”, capítulo III, excerto.
Tradução
de Fernando Saboia Vieira
segunda-feira, 22 de janeiro de 2018
Sobre Meditação - Thomas Merton
ORAÇÃO
MENTAL
Thomas
Merton
A
melhor coisa que os iniciantes na vida espiritual podem fazer, depois de terem
de fato adquirido a disciplina de mente que lhes possibilite se concentrar num
tema espiritual e ir além da superfície de seu significado e incorporá-lo a
suas próprias vidas, é adquirir a agilidade e liberdade de mente que os ajude a
encontrar luz e calor e ideias e amor a Deus em toda parte por onde forem e em
tudo o que fizerem. As pessoas que só conseguem pensar em Deus durante certos
períodos fixos do dia nunca irão muito longe na vida espiritual.
Aprenda
a meditar no papel. Desenhar e escrever são formas de meditação. Aprenda a
contemplar obras de arte. Aprenda a orar nas ruas ou no campo. Aprenda a
meditar não apenas quando tiver um livro nas mãos, mas também quando estiver
esperando um ônibus ou indo num trem.
A
meditação é uma disciplina dupla, que tem uma dupla função. Em primeiro lugar,
ela é capaz de lhe dar suficiente domínio de seu espírito, de sua memória e de
sua vontade para torná-lo capaz de se concentrar e de se desviar das coisas
exteriores, dos afazeres, das ocupações, dos pensamentos e das preocupações de
sua existência temporal; e, em segundo lugar, o que é o verdadeiro objetivo da
meditação, ela lhe ensina a se tornar consciente da Presença de Deus, e,
principalmente, ela tende a levar você a um estado quase constante de amor e de
cuidado por Deus, e de esperança nEle.
Eis
a que se propõe realmente a meditação: ensinar-nos como nos libertarmos das
coisas criadas e das preocupações temporais, nas quais encontramos apenas
inquietação e tristeza, e nos fazer entrar em contato consciente e amoroso com
Deus, contato que nos dispõe a receber dEle o auxílio de que tanto necessitamos
e a tributar a Deus o louvor, a honra, as ações de graça e o ar que agora somos
felizes em Lhe oferecer.
Thomas
Merton, “Seeds of Contemplation”, cap. 20.
Tradução
de Fernando Saboia Vieira.
terça-feira, 16 de janeiro de 2018
Texto sobre Solitude - Merton
SOLITUDE
Thomas Merton
Solitude física, silêncio exterior e
verdadeiro recolhimento todos esses são moralmente necessários para qualquer um
que queira ter uma vida contemplativa, mas, como tudo o mais na criação, eles
não são nada mais do que meios para um fim, e se não entendermos que fim é esse
faremos mal-uso dos meios.
Assim, devemos nos lembrar de que
procuramos a solitude para nela crescer em amor a Deus e aos homens. Não vamos
ao deserto para escapar das pessoas, mas para aprender como encontrá-las: nós
não as deixamos para não ter mais nada a ver com elas, mas para encontrar
maneiras de lhes fazer mais bem. Mas esse é sempre um fim secundário. O fim
único que inclui todos os outros é o amor de Deus.
A verdadeira solitude não é algo
exterior a você, não é a ausência de barulhos à sua volta: ela é um abismo que
se abre no centro da sua alma. E o que criou esse abismo interior foi uma fome
que não será jamais saciada por qualquer ser criado.
O único caminho para encontrar solitude
é pela fome e sede e tristeza e pobreza e desejo, o homem que encontrou a
solitude é vazio, como se tivesse sido esvaziado pela morte. Ele foi além de
todos os horizontes. Não há mais direções em que possa viajar. Esse é um país
cujo centro está em toda parte e cuja circunferência não está em parte alguma.
Você não o encontra viajando, mas permanecendo quieto.
No entanto, é nessa solidão que as
atividades mais profundas começam. É aqui que se descobre ato sem movimento,
trabalho que é profundo repouso, visão na obscuridade, e, superando todo
desejo, um preenchimento cujos limites se estendem ao infinito.
Thomas Merton, “Seeds of Contemplation”, cap. 6.
Tradução
de Fernando Saboia Vieira
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