segunda-feira, 22 de junho de 2026

 

A Imagem Recomposta: O Perdão de Deus e a Restauração da Alma

Fernando Saboia Vieira

 

Introdução: O Sonho da Imagem Fragmentada

Recentemente, tive um sonho. Há uma parte dele que considero importante compartilhar com vocês, pois Deus me comunicava algo muito específico. Digo “comunicava” porque não eram exatamente palavras, mas sim uma forte percepção associada a uma imagem.

No sonho, eu via a imagem de uma pessoa totalmente quebrada em pequenos pedaços, como se estivesse fragmentada. Lembrava uma fotografia recortada ou um arquivo digital corrompido cujos fragmentos se espalham pela tela. Aqueles que são mais inclinados à ficção científica talvez pensem em transportadores trans dimensionais que desfazem as moléculas de um corpo em um lugar para refazê-las em outra galáxia. A imagem aparecia exatamente assim: dispersa. Dava para notar que era a figura de um ser humano, mas totalmente despedaçada.

Gradualmente, aquela imagem começava a se recompor. Os pedaços iam se reunindo novamente até que a silhueta humana se tornasse visível e clara. E o que o Senhor me dizia em meio a isso era sobre a necessidade do perdão de Deus para que essa imagem pudesse ser recomposta.

 

O Contexto do Sonho

Nesse sonho, eu estava em um retiro. Costumo sonhar que estou em retiros — curiosamente, nunca da nossa própria congregação, e muitas vezes cercado por pessoas desconhecidas. Nesse em particular, havia alguns conhecidos. A ideia no sonho era que eu já havia pregado e estava tranquilo, aproveitando os momentos de comunhão, certo de que minha parte já estava cumprida.

De repente, o Maurício passava por mim e dizia: “A programação mudou. Você vai pregar agora, daqui a cinco minutos.”

 

Eu ficava surpreso e apreensivo. No entanto, em meu coração, surgiu imediatamente uma certeza: eu precisava compartilhar sobre a necessidade do perdão de Deus para que as pessoas fossem recompostas e para que seus pedaços dispersos pudessem ser reunidos outra vez.

O Salmo 103, lido no início deste nosso encontro de hoje, fala exatamente sobre isso:

 

Salmo 103:2-5

 Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e não te esqueças de nenhum de seus benefícios. É ele quem perdoa todas as tuas iniquidades e sara todas as tuas enfermidades; quem da cova redime a tua vida e te coroa de graça e misericórdia; quem te supre de todo bem, de sorte que a tua mocidade se renova como a da águia. 

 

Essa é a grande realidade: as pessoas estão quebradas e fragmentadas pelo pecado, e suas partes ficam espalhadas. O perdão de Deus é o elemento indispensável para recolher esses fragmentos e restaurar a imagem original.

Talvez o Espírito Santo queira ministrar à nossa intimidade hoje, pois muitas vezes nos sentimos incompletos, quebrados. Percebemos que há partes de nossas vidas e de nós mesmos que não estão bem encaixadas, que parecem soltas. 

Essa fragmentação gera conflitos interiores e nos faz perceber que não estamos funcionando como deveríamos. Nossas reações e respostas diante da vida deixam a desejar porque há pedaços nossos perdidos por aí, ou porque insistimos em incluir em nossa alma peças que não pertencem ao projeto de Deus para nós.

 

1. O Pecado como Fragmentação da Alma

A verdade fundamental é que o pecado fragmenta e quebra o ser humano. Meditando sobre como expressar essa realidade, lembrei-me do texto de 2 Pedro, que estudamos no retiro:

2 Pedro 1:4

 …pelas quais ele nos tem dado suas preciosas e mui grandes promessas, para que por elas vos torneis coparticipantes da natureza divina, havendo escapado da corrupção das paixões que há no mundo. 

 

Participar da natureza divina e escapar da corrupção que há no mundo pela concupiscência. A palavra concupiscência refere-se ao desejo descontrolado, à cobiça fora de limites. Pode ter origem em desejos inicialmente legítimos, mas que saíram do controle e se tornaram desordenados. Às vezes, é uma ideia, um sentimento, um impulso a que nos apegamos obsessivamente, mas que não se alinha com o que conhecemos de Deus e com sua vontade para nós.

Esse desejo desordenado gera corrupção — que significa decomposição, decadência e ruína. O pecado nos divide por dentro, arranca pedaços da nossa alma e do nosso corpo, desconectando-nos da fonte e tornando-nos incompletos, insatisfeitos, incoerentes, desajustados.

 

A Divisão do Amor

A cobiça fragmenta, essencialmente, a nossa capacidade de amar. Primeiro, ela divide o nosso amor a Deus: o maior mandamento é amar a Deus de todo o coração, alma e forças. Assim, todo pecado, no fundo, é uma cobiça contra Deus, pois retira uma porção do amor que deveria ser exclusivo Dele para dedicá-lo a pensamentos, pessoas ou coisas alheias à sua vontade.

Depois, a cobiça divide o nosso amor ao próximo: como disse Jesus, o segundo mandamento é semelhante ao primeiro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”. Quando a cobiça e o egoísmo nos dominam, passamos a cobiçar contra nossos irmãos, negando-lhes o amor e a consideração que lhes são devidos.

Isso divide, fragmenta a nossa vida. Tomamos decisões com o coração quebrado e nos relacionamos de forma fragmentada. Podemos identificar essas divisões em áreas muito específicas: um perdão não concedido, uma mágoa guardada, um hábito oculto, um desejo desordenado. 

Cada pedaço arrancado do nosso amor a Deus ou às pessoas nos torna incoerentes, incompletos e não funcionais.

Poe que não ser funcionais? Porque, embora essa fragmentação pareça localizada em apenas uma área, ela acaba sabotando a vida inteira. Como somos seres integrais, uma quebra espiritual suga nossa energia, bloqueia nossa comunhão com Deus e incapazes de amar e de viver como discípulos de Jesus

 

2. A Luta Interior

Para aprofundar essa reflexão, sugiro o livro A Verdadeira Espiritualidade, de Francis Schaeffer. Embora Schaeffer seja amplamente conhecido por suas obras de análise cultural e apologética — como em O Deus que IntervémA Morte da Razão e O Deus se Revela —, ele considerava A Verdadeira Espiritualidade o livro mais importante de sua vida. Foi o fruto de uma profunda crise espiritual que o reconectou de forma viva e prática com Deus.

Nessa obra, ele discute o testemunho do apóstolo Paulo em Romanos 7:

Romanos 7:7-8

 Que diremos, pois? É a lei pecado? De modo nenhum! Mas eu não teria conhecido o pecado, senão por intermédio da lei; pois não teria eu conhecido a cobiça, se a lei não dissera: Não cobiçarás. Mas o pecado, tomando ocasião pelo mandamento, despertou em mim toda sorte de concupiscência… 

 

Paulo, com toda a sua bagagem teológica e zelo farisaico, caminhava muito bem no cumprimento externo das leis. Ele conseguia não roubar, não matar e cumprir os rituais. Porém, o seu castelo de autossuficiência ruiu quando ele confrontou o décimo mandamento: “Não cobiçarás”.

Evitar o roubo externo é viável através de esforço e disciplina; porém, refrear a cobiça interior é algo que escapa ao controle puramente humano.

Jesus nos confronta dessa maneira no Sermão do Monte: Ele levou a Lei para o íntimo do coração, mostrando que o adultério e o homicídio começam na intenção e no olhar. 

Ao perceber a guerra interna travada pela cobiça, que roubava a pureza do seu amor a Deus, Paulo clamou: “Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (Romanos 7:24).

O apóstolo João também nos adverte sobre isso:

 

1 João 2:15-16

 Não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo. Se alguém amar o mundo, o amor do Pai não está nele; porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida, não procede do Pai, mas procede do mundo. 

 

Essas passagens não tratam de pecados puramente externos; referem-se a quebras que ocorrem no recôndito da nossa alma.

Francis Schaeffer enfatiza que a vida cristã não se resume a uma lista moralista de “pode e não pode”. O foco está no amor integral. Viver sob o julgo de listas externas apenas mascara nossa fragmentação. O pecado quebra nossa existência porque nos desconecta do centro espiritual de nossa origem e destino, que é Deus. Sem essa conexão, a vida perde o sentido, e nos esquecemos de que nossa jornada é para a eternidade.

 

3. A Parábola do Quebra-Cabeça

Pensei em uma analogia simples que talvez nos ajude a compreender esse estado de nossa alma.

Imagine que você encontra em sua casa uma sacola contendo peças soltas de um quebra-cabeça. A caixa original se perdeu e ninguém mais sabe qual era a imagem a ser formada. 

Você começa a tentar montar as peças aleatoriamente, sem um modelo guia. Alguém menciona que a imagem final representa uma pessoa em um belo cenário. Você continua tentando, separando as cores, mas logo percebe que há peças faltando. Outras estão danificadas, com as bordas gastas e desbotadas, dificultando o encaixe. Para piorar, você começa a suspeitar que há peças misturadas de outro jogo, que simplesmente não pertencem àquela imagem.

Você gasta tempo tentando encaixar peças incompatíveis e buscando pedaços que não existem. Até que, finalmente, o Criador lhe revela: “Essa figura que você está tentando montar é você mesmo. É o retrato da sua própria vida.”

Ao perceber isso, você sente uma urgência em reorganizar o quadro. Contudo, as limitações permanecem: peças continuam faltando, outras pertencem a caminhos e experiências alheias, e várias estão machucadas e não se unem adequadamente.

Podemos comparar esse cenário ao processo de conversão. Inicialmente, tateamos no escuro sem saber quem somos. Então, Deus nos revela seu propósito original: fomos criados, cada um de nós, à sua imagem e semelhança. Embora as possibilidades de expressar essa semelhança sejam infinitas, porque Deus é infinito, a nossa identidade nele é única. 

O processo de restauração consiste em buscar e encaixar as peças que correspondem à imagem que Deus tem de nós e excluir as que não pertencem a esse quadro.

Muitas vezes, mesmo após a conversão, deixamos o quebra-cabeça de lado e, quando retornamos, percebemos que algumas peças se perderam novamente ou foram movidas por influências externas. Sentimo-nos, então, quebrados e distantes da plenitude de Cristo que sabemos que deveríamos refletir.

 

4. A Analogia do Motor Danificado

Quando nossa vida não funciona bem, podemos compará-la ao motor de um carro que começa a apresentar falhas, ruídos e travamentos. Há uma peça específica desgastada que compromete o desempenho de todo o veículo. Por mais que o restante das engrenagens esteja em perfeito estado, o carro não rende o esperado.

Espiritualmente, passamos por isso. Sentimos desânimo, ansiedade inexplicável e um desgaste constante. Sabemos que o alvo é que “todos cheguemos à plenitude da estatura de Cristo”, mas percebemos os ruídos e os travamentos internos.

 

Deveríamos proferir palavras de vida, mansidão e edificação; no entanto, quando a engrenagem está quebrada, saem palavras duras, críticas e destrutivas. É aquela situação comum em que brincamos dizendo: “irmão, por favor, coloque amor nas minhas palavras, porque eu mesmo não estou conseguindo colocar.” Esse ruído revela peças danificadas, sentimentos perdidos no passado ou expectativas frustradas sobre um futuro que nunca chega.

A raiz dessa quebra está no pecado que obstrui o fluxo do amor, do perdão e da graça divina. É como colocar o combustível mais refinado em um motor que está com as peças quebradas: o carro ainda assim não funcionará. Precisamos do perdão de Deus para que o Seu amor flua e restaure o nosso funcionamento.

 

5. Esclarecimento Importante: Nem Toda Fragmentação Decorre de Pecado Pessoal

Quero fazer uma observação essencial e pedir que prestem muita atenção: nem toda quebra ou fragmentação que sofremos na alma é consequência direta de um pecado pessoal.

Existe um caos inerente à vida neste mundo caído. Há circunstâncias, tragédias e sofrimentos que não são frutos de nossas transgressões, mas que nos ferem profundamente. Podem ser reflexos dos pecados de terceiros contra nós, ou simplesmente contingências da existência humana. Às vezes, são resultados de escolhas ruins ou erros de julgamento que cometemos, mas que não configuram uma rebelião moral contra Deus.

A fragmentação da sociedade e da própria criação (que geme aguardando a redenção) nos atinge. Pessoas nascem com limitações genéticas ou são acometidas por vírus e enfermidades físicas e emocionais. Isso faz parte de um ambiente corrompido pela queda.

No entanto, há uma verdade absoluta que se aplica a todos os cenários: em qualquer caso, o caminho da cura e da restauração reside única e exclusivamente no amor e na graça de Deus.

O tratamento, contudo, varia conforme a causa: - Se a quebra decorre de pecado pessoal, há uma dimensão moral envolvida. Há necessidade de arrependimento sincero, confissão e reparação moral. 

Essa ferida não cicatrizará sozinha, pois o pecado é uma desordem de natureza moral contra um Deus pessoal e santo. 

Se a quebra decorre de sofrimento imposto pelas circunstâncias, Deus derrama seu consolo e bálsamo terapêutico para curar a dor, sem a necessidade de uma atitude penitencial, mas exigindo de nós a entrega das nossas dores a Ele.

Independentemente da origem da dor, a restauração da alma pode exigir de nós uma renúncia profunda dos nossos supostos direitos, da nossa autoimagem e dos nossos projetos pessoais. Não se trata de uma cirurgia simples, por “robótica”; frequentemente, é uma intervenção espiritual “a peito aberto”, onde o Espírito Santo esquadrinha as profundezas do nosso ser para extirpar o que está oculto e corrompido.

 

6. O Perigo da Negligência com a Alma

Vivemos em uma época extremamente preocupada com a estética e o bom funcionamento do corpo. A medicina avançou extraordinariamente em exames e diagnósticos. Quando vamos ao médico, coletamos amostras e recebemos laudos laboratoriais extensos, com dezenas de páginas detalhando cada índice e taxa do nosso organismo. Preocupamo-nos legitimamente com a saúde física, e devemos continuar fazendo isso por amor a nós mesmos e às pessoas que nos cercam e que cuidariam de nós na doença.

No entanto, frequentemente manifestamos uma negligência alarmante para com a nossa alma. Não a submetemos ao mesmo rigor de avaliação. Toleramos disfunções emocionais e espirituais crônicas ou simplesmente evitamos olhar para elas.

Muitos agem como os donos de carros antigos: evitam levar o veículo à oficina com medo do diagnóstico e do orçamento. Preferem rodar com o carro fazendo barulho até que ele pare de vez no meio da estrada. Da mesma forma, por vezes, quando sentimos um desconforto na alma, preferimos ignorá-lo, esperando que o tempo o cure.

Quando ignoramos os sintomas da alma — as travas emocionais, a incapacidade de liberar perdão, a relutância em exercer misericórdia —, impedimos a manifestação da vida de Cristo em nós. 

Muitas vezes, esse silêncio se deve ao medo de encarar a realidade e admitir: “Estou amargurado, sinto inveja, carrego ressentimento por aquilo que me aconteceu ou não aceito a soberania de Deus sobre a minha história.”

 

7. A Verdadeira Plenitude e o Perseguidor de Sombras

A palavra “plenitude” é profundamente bíblica, mas a cultura contemporânea distorceu o seu significado. Hoje, a expressão “estou pleno(a)” é frequentemente usada como sinônimo de um bem-estar superficial e estático, um ideal de perfeição humana que só existe em fotografias tratadas com filtros, jamais na dinâmica real da vida cotidiana.

A verdadeira plenitude de Deus não é um estado estático; é uma construção contínua e dinâmica da graça em nossas vidas. É um caminhar diário no qual Deus nos mostra as peças incompatíveis, restaura as danificadas e recolhe as perdidas.

 

A Ilusão das Sombras e a Distorção da Identidade

Santo Agostinho afirmava que o mal não possui substância ou essência própria; ele é sempre a privação ou a corrupção do bem. Não existe “o podre” em si; o que existe é a maçã que apodreceu. O mal só existe na medida em que corrompe o bem que Deus criou. O pecado tomou o ser humano — a obra-prima da criação de Deus — e o distorceu.

Essa distorção reflete-se na busca humana por identidades artificiais. Vemos isso de forma acentuada em debates contemporâneos sobre a identidade e a sexualidade. Quando alguém tenta construir uma identidade desalinhada do propósito do Criador, busca uma versão impossível de si mesmo. O resultado interno será inevitavelmente de conflito, deformação e vazio, pois tenta-se alterar a realidade essencial por meio de intervenções externas.

Agostinho definiu o pecador como “um caçador (ou perseguidor) de sombras”: alguém que despende sua vida correndo atrás de ilusões intangíveis, buscando preenchimento em coisas que não possuem substância eterna.

 

Não podemos nos dar ao luxo de viver na ilusão de nossa própria suficiência, caindo na advertência bíblica de Apocalipse:

 

Apocalipse 3:17

 Pois dizes: Estou rico e abastado e não preciso de coisa alguma, e nem sabes que tu és infeliz, sim, miserável, pobre, cego e nu. 

 

A vaidade nos faz focar na aparência externa, enquanto nossa alma definha na cegueira espiritual.

 

8. A Missão de Recompor e o Sonho do Rejuvenescimento

Diante de um mundo repleto de pessoas fragmentadas, que expressam sua dor por meio da agressividade, do vício, da alienação e da construção de personagens falsos, reside a nossa missão. Jesus Cristo veio exatamente para buscar e salvar o que estava perdido e quebrado.

Reconheço que eu mesmo já estive nessa condição de fragmentação e, em muitos momentos, ainda me percebo necessitado dessa restauração divina. Por isso, a nossa missão como igreja é apresentar a essas pessoas a imagem restaurada que Deus projetou para elas: uma identidade bela, completa e gloriosa. Devemos despertar a fé, conduzir ao arrependimento e apontar para o amor do Pai, caminhando com esperança até o Dia em que o Senhor completará Sua obra em nós. 

 

O Sonho da Restauração

Recordei-me de um sonho antigo que se conecta perfeitamente a esta mensagem. No sonho, chamavam-me para orar por uma senhora que estava prostrada no chão. Ela parecia extremamente idosa, debilitada e consumida pela doença. Ajoelhei-me ao seu lado e impus as mãos sobre ela, acompanhado por outros que também intercediam. 

Enquanto orávamos, o rosto daquela mulher começou a mudar diante de nossos olhos. As marcas de velhice e sofrimento foram desaparecendo, e sua pele rejuvenesceu. Ao final da oração, quem estava ali não era mais uma idosa enferma, mas sim uma jovem cheia de vigor. 

Ela não era, na verdade, uma velha; estava apenas gasta, corrompida e marcada pelas intempéries da vida, mas a oração da fé restaurou sua imagem original.

Essa é a obra que Deus realiza. Embora diariamente nos confrontemos com nossas debilidades e vejamos como nossas falhas deformam o caráter de Cristo em nós, devemos nos lembrar de que a força mais poderosa do universo não é a gravidade ou a energia nuclear, mas sim o amor de Deus, que converge todas as coisas em Cristo.

 

Conclusão: Vitrines do Infinito

 

Gostaria de concluir a nossa reflexão com a leitura de um poema intitulado Vitrines, que sintetiza esta jornada de contemplação e transformação:

 

Vitrines

 

Deus suavemente me conduz

ao encontro de mim mesmo

onde Ele me espera 

e me espelha

para revelar

refletida em sua iluminada face

minha opaca ilusão 

de ser eu mesmo

 

Vejo-me no reflexo 

dos meus olhos espelhados 

no seu olhar eterno

como vitrines do infinito

e afinal compreendo-me

componho-me

sou transformado 

na imagem daquele 

a quem contemplo


(Fernando Saboia Vieira, de “intimista, poesia da alma”)

 

Oração Final

Senhor Deus e nosso Pai,

Queremos Te agradecer nesta manhã. Agradecemos porque o teu Espírito Santo nos recorda não apenas da nossa profunda necessidade do teu perdão para sermos recompostos e restaurados, mas também de que esse perdão está plenamente disponível a cada um de nós. O teu amor foi derramado em nossos corações por meio do Espírito de adoção, que nos permite clamar: “Aba, Pai”.

Pedimos, Senhor, em nome de Jesus, que nos concedas coragem e confiança para permitir que o teu Espírito esquadrinhe o nosso ser. Revela-nos o que está quebrado, o que está desalinhado e o que nos falta, não apenas para um conserto superficial, mas para que possamos refletir a plenitude da tua glória. Que o desejo mais profundo do nosso coração seja que as nossas vidas reflitam nitidamente a imagem do Teu Filho.

Dá-nos também, Pai, um olhar de graça e misericórdia para com aqueles que estão quebrados ao nosso redor. Tira de nós o julgamento e a impaciência para com os erros alheios. Que possamos ser canais do teu amor restaurador para a nossa geração.

Que a graça restauradora e plenificadora de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor misericordioso de Deus Pai, e a comunhão consoladora e santificadora do Espírito Santo sejam com cada um de vocês hoje e com todo o povo de Deus que caminha sobre a terra, até o dia em que o Senhor virá. E todos dizemos: Maranata! Vem, Senhor Jesus! Amém.

Seu conservo e companheiro de jornada,

 

Fernando Saboia Vieira – Brasília, em maio de 2026, AD

sábado, 6 de junho de 2026

 Marcha para quem?

 Fernando Saboia Vieira

   Pastor em Brasília

   Advogado

  Doutor em Ciência Política

 

 

         Aconteceu em São Paulo, no último dia 4 de junho, reunindo mais de 1,5 milhão de pessoas, a Marcha para Jesus, evento que ocorre em diversas cidades do Brasil e do mundo, com o objetivo de testemunhar e proclamar a fé evangélica.

         No nosso País, no entanto, essa manifestação vem assumindo algumas características preocupantes, no meu modo de ver.

         Por um lado, verificamos, a cada ano, uma diluição da mensagem do Evangelho de Jesus, com seu chamado ao arrependimento e conversão, por conta de um crescente sincretismo religioso e cultural.

         As práticas religiosas, as manifestações artísticas, a participação de “famosos” pregadores e expoentes da chamada cultura gospel, amortecem a proclamação do Reino de Deus ao ponto de a tornarem quase ineficaz, validando, inclusive, estilos de vida incompatíveis com o Evangelho de Jesus, para quem, supostamente, seria a “marcha”!

         Neste ano, um outro aspecto preocupante, também já presente em edições anteriores, ganhou destaque, ofuscando o testemunho da fé bíblica: o evidente uso político do evento por seus organizadores ao trazerem, como convidados de honra, políticos incrédulos de direita em busca de votos nas próximas eleições, representante evangélico do governo, com a missão de promover aproximação política da esquerda com esse segmento religioso, e, até mesmo, inexplicavelmente, um ministro da suprema corte, também evangélico, que figurou próximo a pessoas não convertidas e associadas publicamente a fatos identificados em procedimentos legais sob a sua jurisdição.

 

         Daí a minha pergunta: marcha para quem?

 

         Creio que a maioria dos irmãos e irmãs que participaram do evento tinham um propósito legítimo de manifestação de sua fé, de testemunho do Evangelho de Jesus e de proclamação do Reino de Deus.

         Mas confesso que me causa indignação a maneira como essas pessoas estão sendo mobilizadas e usadas com objetivos outros, por líderes religiosos e políticos que querem tornar os evangélicos no Brasil um movimento social com fins de poder, a ser capturado e explorado por uma ou outra ideologia ou segmento partidário.

         Jesus se recusou, expressa e terminantemente, a usar as multidões que o apoiavam em certo momento de seu ministério com objetivos políticos ou para angariar prestígio, uma vez que, em suas palavras, a porta do seu Reino, que não pertence a este mundo, é estreita e passar por ela depende uma conversão pessoal, arrependimento, renúncia a si mesmo e ao pecado e obediência a Deus e a seus mandamentos em todas as áreas da vida.

         Sou a favor da participação dos cristãos evangélicos na política. Acho mesmo que faz parte de nossas obrigações como cidadãos, e do testemunho da nossa fé.

         No entanto, o preceito de Jesus sobre esse tema é separar o que é “de César” do que pertence a Deus. Há uma maneira simples de fazer essa distinção. Basta se perguntar para quem será a glória.

 

         Quero invocar aqui o auxílio do santo da Igreja:

 

         "Dois amores construíram duas cidades, a saber: o amor-próprio, levado até ao desprezo de Deus, fundou a cidade terrena; o amor a Deus, levado até ao desprezo de si mesmo, construiu a cidade celestial. 

A primeira gloria-se em si mesma e a segunda em Deus. Aquela busca a glória dos homens, e esta a glória de Deus. Naquela, seus príncipes e as nações veem-se sob o jugo da concupiscência do domínio; nesta, servem em mútua caridade, os governantes, aconselhando, e os súditos, obedecendo. 

 (Agostinho, “A Cidade de Deus”)

 

 

         A mim me parece razoavelmente claro para quem marchavam essas pessoas “famosas” e ilustres presentes no evento: para si mesmas, para seu grupo político, para seu sucesso pessoal, para sua própria glória.

         Tenho, assim, muitas dúvidas sobre os propósitos dos líderes evangélicos responsáveis pela organização dessa manifestação, e gostaria de lhes perguntar: 

 

Marcha para quem?

 

         Soli Deo Gloria!!

 

 

         Brasília, em junho de 2026, AD

 

         Fernando Saboia Vieira

terça-feira, 21 de abril de 2026

 A Arte de Envelhecer



Recebi um dia desses uma correspondência do meu dileto amigo Cairos. Eu já estava, em verdade, sentindo falta de suas provocativas e criativas reflexões sobre a vida, frutos de sua vocação para filósofo desocupado e pensador do caos cotidiano.

        Bem, ele não me decepcionou. Encaminhou-me esse texto que compartilho com vocês, embora fuja um pouco à proposta deste espaço virtual.

Se tiverem algum comentário ou queixa comprometo-me a transmitir a ele, sem muita esperança de que reconsidere. Trata-se de um obstinado a pensar por conta própria.

 

Fernando Saboia Vieira

2014



Reflexões sobre

 

A VETUSTA E QUASE ESQUECIDA

 

ARTE DE ENVELHECER



Cairos Anann Cronn



            Conselhos que dou a mim mesmo, nesta quadra estranha da vida.

 

1)        Escolher minhas demências senis. Não supor que não as terei. Melhor preferir algumas a ser vítima de quaisquer.

 

2)        Evitar o ridículo de querer se manter eternamente jovem e o patético de ser um velho covarde, que faz da velhice uma desculpa para a autocomiseração.

 

3)        Aceitar o tempo e suas marcas em mim, no meu corpo e na minha alma, fazer delas troféus e roteiros de vitórias e derrotas, tristezas e alegrias.

 

4)        Manter a autocrítica, o senso do ridículo. Não pode haver nada mais ridículo do que um velho ridículo que não se enxerga mais.

 

5)        Evitar o modernismo e o anacronismo. Viver na suspensão do tempo. Esse é um dos privilégios da idade: não ter que ir nem ter que voltar, poder apenas estar aqui, agora.

 

6)        Ser cada vez mais sério: ninguém suporta – pelo menos eu não – um velho debochado.

 

7)        Falar cada vez menos. O silêncio fica bem nos mais velhos, combina com os cabelos brancos e as longas estradas percorridas.

 

8)        Reconhecer os novos limites e saber que alguns serão insuperáveis. “Olimpíadas” da terceira idade são a quintessência da degradação humana.

 

9)        Não contar histórias a quem não quer ouvi-las e, principalmente, não as contar várias vezes.

 

10)    Visitar o passado para encontrar nele o sentido do presente e a esperança do futuro.

 

11)    Evitar o futuro do subjuntivo e o futuro do pretérito: conjugar a vida no futuro do indicativo: não dizer, “quando eu fizer”, ou, “eu faria”, mas “eu farei”!

 

12)     Ouvir as histórias dos outros, com cada vez maior atenção. Elas levam a mundos alternativos e fantásticos, cheios de aventuras, dramas e riquezas humanas.

 

13)    Tentar aprender sempre algo novo, de preferência por puro prazer.

 

14)    Manter o máximo de autonomia, mas aceitar ajuda. Quem não aceita ajuda acaba dando mais trabalho.

 

15)    Terminar o que já foi começado, antes de iniciar projetos que não se poderão concluir, a não ser os que semeiam um futuro a ser vivido pelos outros.

 

16)    Conviver cada vez mais com os mais jovens. Eles são janelas para os futuros que eu não verei e os portais para os mundos que não visitarei.

 

17)    Evitar a futilidade e a frivolidade. São afrontas ao dom precioso da vida e um desrespeito profundo a si mesmo.

 

18)    Valorizar o tempo, não ter pressa para o que for belo, significativo e eterno, sem se perguntar se é “útil” ou “produtivo”.

 

19)    Manter uma razoável quantidade de dúvidas na mente. Recusar as explicações “cabais”: elas encolhem a alma.

 

20)    Nunca deixar de se admirar com a vida, com o mundo, manter-se perplexo diante das coisas mais cotidianas.

 

21)    Manter o olhar para adiante, isto é, para a eternidade, embora a curva na estrada e a nuvem escura no horizonte.

 

22)    Aceitar as críticas e admoestações, não obstante a arrogância dos jovens e a impaciência dos velhos. Você está entre uma coisa e outra.

 

23)    Não desejar nem temer a morte. “Sê bravo, sê forte, não fujas da morte, que a morte há de vir” (GD).

 

24)    Muito cuidado com o ceticismo e o cinismo Aparência de sabedoria eles têm, mas “lado negro da força eles são” (MY).

 

25)    Aceitar as incompletudes da vida para poder viver plenamente.

 

26)    Evitar conversar comigo mesmo e com meus amigos invisíveis – ausentes, falecidos, fictícios – diante de pessoas que não têm esse nível de transcendência espiritual.

 

27)    Não esperar das pessoas o que elas não têm para dar, mesmo quando elas pensam que sim e o prometem: “de onde menos se espera, daí é que não saí nada mesmo” (BT).

 

28)    A sabedoria do tempo é: eu antes não sabia apenas superficialmente coisas que hoje eu não sei profundamente.

 

29)    Não tentar mudar ninguém, exceto a mim mesmo.

 

30)    Não reclamar, não murmurar, não resmungar: as coisas e as pessoas que nunca se importaram não começarão a se importar agora.

 

31)    Não falar alto. As pessoas não estão ficando surdas, elas apenas não estão sempre interessadas no que tenho a dizer.

 

32)    Aceitar, pacientemente, ser interrompido nas conversas e aprender a não insistir em histórias que as pessoas não querem ouvir e em lições que elas não estão dispostas a receber.

 

33)    Não ficar com raiva quando tomam minha insistência por idiotia – talvez seja mesmo.

 

34)    Ter alguém com autorização prévia e expressa para me interditar, se necessário, e me proteger de mim mesmo.

 

35)    Fazer de tudo para não perder mais nenhum pôr do sol, eclipse, lua cheia ou passagem de cometa.       

 

36)    As virtudes do envelhecimento são: paciência consigo mesmo, humildade diante de todos e contentamento em Deus.

 

37)    Fazer do tempo meu amigo e aliado. Ele passa, eu passo; mas, um dia, nem eu nem ele passaremos mais, e teremos, então, longas conversas.

 

38)    Fazer cada coisa “com calma atenção e tempo, com paciência e talento” (FSV).

 

39)    Aprender a atravessar os silêncios provocados por perguntas sem respostas, e encontrar neles a Presença daquele que ouve e vê, que sabe e envolve.

 

40)    Aprender a usar mais reticências do que pontos finais...

 

   

 

Fernando

2026