Fernando Saboia Vieira
BSB/Jan/2025, AD
“... e cheguem os anos dos quais venhas a dizer:
Não tenho neles contentamento;
...
... também quando ... houver espantos no caminho
... e o gafanhoto por um peso...”
(Eclesiastes 12:1,5)
Queridos irmãos e irmãs, companheiros de jornada,
Em um dos mais belos textos da antiga literatura
semítica, o autor do Eclesiastes descreve os efeitos físicos
e emocionais do envelhecimento com delicadeza e poesia, como
se a retratar um amado ancião ou anciã.
No entanto, o ciclo final da vida natural humana é uma
realidade difícil de ser enfrentada.
A decadência física e mental, a fragilidade emocional,
o declínio da capacidade produtiva, da inteligência, das
habilidades, o adoecimento, a perda de autonomia, a solidão
pessoal, familiar e social, as reconfigurações dos
relacionamentos mais próximos e as mudanças cada vez mais
rápidas na sociedade, que interferem nas atividades
cotidianas e rotineiras, são alguns dos fatores que podem
tornar o envelhecimento um fardo pesado.
Somem-se a isso a crescente consciência da finitude, da
proximidade da morte e da angústia da não existência a
perturbarem e afligirem a alma em sua essência mais profunda
e íntima.
Há os que fazem balanços da vida que viveram e se perdem
em frustrações e arrependimentos ou se desesperam em ver
suas conquistas e vitórias se tornarem efêmeras lembranças
a serem extintas em tão pouco tempo.
Há os que se entregam passivamente ao curso inexorável
do fim que se aproxima e se alienam, se fecham, desistem de
viver.2
Alguns repetem o lugar comum de que a vida é breve e
passa rápido; outros talvez concordem com o filósofo que diz
que “não recebemos uma vida curta, mas a tornamos breve, não
somos pobres em anos, mas os desperdiçamos”
.
As alterações físicas e emocionais decorrentes de
mudanças hormonais, pessoais e ambientais fazem do
envelhecimento um ciclo semelhante à adolescência, com o
sinal invertido.
Os adolescentes entram em conflitos em busca de mais
liberdade e autonomia; os idosos lutam para não as perder.
Ambos, os adolescentes e os idosos, querem o comando pleno
de suas vidas. Os adolescentes ainda não o tem, os idosos
não o tem mais. Curiosamente, isso lhes dá um traço comum de
insurreição contra as pessoas em autoridade sobre eles ou
encarregas do seu cuidado.
Na adolescência as alternativas e possibilidades estão
se abrindo para os projetos de futuro, gerando expectativas
e temores quanto às escolhas que devem fazer; na velhice
essas alternativas se fecham por não haver mais tempo para
novas tentativas, o que também provoca expectativas e
temores.
Há, ainda, assim no adolescer como no envelhecer,
frequentemente, o descompasso entre o físico, o mental e o
emocional. Na adolescência, esses aspectos podem se
desenvolver em ritmos diferentes e gerar desarmonias e
conflitos íntimos e relacionais. No envelhecimento, não raro,
algum deles decai mais rapidamente do que os demais, também
produzindo desarmonias e conflitos.
Numa frase, os adolescentes, ainda não, os idosos, não
mais...
Como cristãos, cremos na vida após a morte biológica e
no propósito de Deus que se estende para a eternidade, no
Seu Reino. Mas nem por isso sentimos com menos intensidade
os efeitos do envelhecimento. Ele nos lembra todos os dias
que somos humanos, que esta vida passa, que este mundo não
subsistirá.
Quero, como exemplo, destacar dois aspetos do texto do
Eclesiastes: os espantos do caminho e o peso do gafanhoto.
Na juventude, reunimos força e disposição para lidar
com os “caminhos da vida”, com as tarefas, rotinas e
necessidades que se apresentam cotidianamente. Ainda que
temamos os perigos e nos sintamos por vezes incapazes de
enfrentá-los, prosseguimos buscando nos aperfeiçoar e vencer
obstáculos.3
Quando começa a florescer a amendoeira, passamos a ter
progressiva dificuldade em realizar as tarefas e atividades
cotidianas e sentimos mais receios em percorrer caminhos que
nos parecem cada vez estranhos e obscuros.
Estamos mais inseguros num mundo que muda rapidamente.
Nossos conhecimentos se defasam, temos dificuldade em
assimilar novas informações.
A tecnologia, em especial, com suas inovações impostas
velozmente a todos, tem criado barreiras quase
intransponíveis para os mais idosos. Tudo depende de ter
acesso e saber percorrer as interfaces de aplicativos e
sites, até mesmo para lidar com o poder público, para
garantir direitos e obter serviços.
Sentimos o peso do gafanhoto quando tarefas e atividades
comuns de nossa vida começam a nos onerar mais, a nos
produzir mais cansaço físico e mental.
O nosso corpo e nossa alma nos dizem que está chegando
o momento de ter mais descanso, mais sossego, de se dedicar
mais à dimensão imaterial da vida, ao relacionamento com
Deus e com as pessoas, aos “tesouros dos céus”, ao que tem
valor eterno, ao crescimento no conhecimento e na sabedoria
espirituais, à comunhão com o Jesus, à vida no Espírito.
Talvez seja o momento de nossas atividades e afazeres
refletirem mais nosso mundo interior, buscando expressar, a
partir dele, amor, alegria, paz, esperança, paciência e
graça, mesmo em meio às lutas e circunstâncias da vida, as
quais agora reconhecemos como transitórias e efêmeras.
Mas isso não é fácil de se ter ou obter, mesmo porque
pode implicar vencer hábitos e conceitos arraigados em nós
sobre como viver e, talvez, recuperar o tempo perdido em que
não cultivamos tais aspectos em nossa alma, por demais
dedicamos às demandas da vida comum.
Todas essas coisas acontecem para nós, que estamos agora
vivendo esse ciclo final da vida, num contexto de sociedade,
de família e de Igreja que praticamente exclui ou torna
irrelevantes as contribuições dos mais velhos, vistos,
muitas vezes, como objetos de preocupações e de trabalhos
que ninguém, na verdade, quer ou pode assumir, considerado
o ritmo de vida que se leva para conseguir uma condição
segura e confortável em termos materiais.
Queridos companheiros e companheiras de jornada, o
principal objetivo de lhe escrever essas considerações, que
contêm mais perguntas implícitas do que afirmações ou
soluções, é convidá-los a uma conversa sobre o
envelhecimento.4
É certo que não faltam, nas famosas redes sociais e
mídias eletrônicas, influenciadores, coachs, gurus, gestores
de qualquer coisa e autoproclamados especialistas com toda
sorte de conselhos e de propostas para os idosos, a preço
relativamente baixo, oferecendo, não raro, ilusões de
juventude eterna.
Contudo, nós, como cristãos, não podemos nos eximir de
fazer essas reflexões à luz das Escrituras e considerando o
propósito eterno de Deus para nós, em qualquer fase da vida.
Precisamos pensar no que o Senhor requer de nós como
homens e mulheres maduros, na Igreja, na família e na
sociedade. Que frutos devemos produzir ainda, uma vez que
tenhamos algo de força e de disposição para servir. Temos
que buscar a melhor maneira de viver os anos que temos à
frente e de completar nossa jornada como discípulos.
Igualmente, devemos nos preparar para o ciclo final da
vida terrena, como fizermos até aqui em relação às fases
anteriores, de crescimento, formação, estudo, trabalho,
família etc.
O envelhecimento pode se abater de diferentes formas
para cada um de nós, mas acontecerá com todos os que não
partirem ainda jovens. Precisamos, como família de Deus,
estarmos em mútua cooperação para vivermos o melhor possível
o que a idade nos trouxer de possibilidades, dificuldades e
desafios.
Aguardo retorno dos que eventualmente aceitarem o
convite para esse diálogo e tiverem considerações e
contribuições a trazer. Esclareço que são bem-vindos não
apenas os que já se veem nesse momento da vida ou próximos
dele, mas também os mais jovens que desejem participar e
colaborar.
Quem sabe em breve poderemos estar juntos para conversar
pessoalmente sobre tudo isso.
Que a suficiente graça de Jesus seja com cada um de
vocês.
Seu conservo e já legalmente idoso companheiro de
jornada,
Fernando
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