sábado, 25 de julho de 2026

Os Espantos do Caminho e o Peso do Gafanhoto

 

Fernando Saboia Vieira

BSB/Jan/2025, AD


“... e cheguem os anos dos quais venhas a dizer:

Não tenho neles contentamento;

...

... também quando ... houver espantos no caminho

... e o gafanhoto por um peso...”

(Eclesiastes 12:1,5)


Queridos irmãos e irmãs, companheiros de jornada,


Em um dos mais belos textos da antiga literatura

semítica, o autor do Eclesiastes descreve os efeitos físicos

e emocionais do envelhecimento com delicadeza e poesia, como

se a retratar um amado ancião ou anciã.

No entanto, o ciclo final da vida natural humana é uma

realidade difícil de ser enfrentada.

A decadência física e mental, a fragilidade emocional,

o declínio da capacidade produtiva, da inteligência, das

habilidades, o adoecimento, a perda de autonomia, a solidão

pessoal, familiar e social, as reconfigurações dos

relacionamentos mais próximos e as mudanças cada vez mais

rápidas na sociedade, que interferem nas atividades

cotidianas e rotineiras, são alguns dos fatores que podem

tornar o envelhecimento um fardo pesado.

Somem-se a isso a crescente consciência da finitude, da

proximidade da morte e da angústia da não existência a

perturbarem e afligirem a alma em sua essência mais profunda

e íntima.

Há os que fazem balanços da vida que viveram e se perdem

em frustrações e arrependimentos ou se desesperam em ver

suas conquistas e vitórias se tornarem efêmeras lembranças

a serem extintas em tão pouco tempo.

Há os que se entregam passivamente ao curso inexorável

do fim que se aproxima e se alienam, se fecham, desistem de

viver.2

Alguns repetem o lugar comum de que a vida é breve e

passa rápido; outros talvez concordem com o filósofo que diz

que “não recebemos uma vida curta, mas a tornamos breve, não

somos pobres em anos, mas os desperdiçamos”

.

As alterações físicas e emocionais decorrentes de

mudanças hormonais, pessoais e ambientais fazem do

envelhecimento um ciclo semelhante à adolescência, com o

sinal invertido.

Os adolescentes entram em conflitos em busca de mais

liberdade e autonomia; os idosos lutam para não as perder.

Ambos, os adolescentes e os idosos, querem o comando pleno

de suas vidas. Os adolescentes ainda não o tem, os idosos

não o tem mais. Curiosamente, isso lhes dá um traço comum de

insurreição contra as pessoas em autoridade sobre eles ou

encarregas do seu cuidado.

Na adolescência as alternativas e possibilidades estão

se abrindo para os projetos de futuro, gerando expectativas

e temores quanto às escolhas que devem fazer; na velhice

essas alternativas se fecham por não haver mais tempo para

novas tentativas, o que também provoca expectativas e

temores.

Há, ainda, assim no adolescer como no envelhecer,

frequentemente, o descompasso entre o físico, o mental e o

emocional. Na adolescência, esses aspectos podem se

desenvolver em ritmos diferentes e gerar desarmonias e

conflitos íntimos e relacionais. No envelhecimento, não raro,

algum deles decai mais rapidamente do que os demais, também

produzindo desarmonias e conflitos.

Numa frase, os adolescentes, ainda não, os idosos, não

mais...

Como cristãos, cremos na vida após a morte biológica e

no propósito de Deus que se estende para a eternidade, no

Seu Reino. Mas nem por isso sentimos com menos intensidade

os efeitos do envelhecimento. Ele nos lembra todos os dias

que somos humanos, que esta vida passa, que este mundo não

subsistirá.

Quero, como exemplo, destacar dois aspetos do texto do

Eclesiastes: os espantos do caminho e o peso do gafanhoto.

Na juventude, reunimos força e disposição para lidar

com os “caminhos da vida”, com as tarefas, rotinas e

necessidades que se apresentam cotidianamente. Ainda que

temamos os perigos e nos sintamos por vezes incapazes de

enfrentá-los, prosseguimos buscando nos aperfeiçoar e vencer

obstáculos.3

Quando começa a florescer a amendoeira, passamos a ter

progressiva dificuldade em realizar as tarefas e atividades

cotidianas e sentimos mais receios em percorrer caminhos que

nos parecem cada vez estranhos e obscuros.

Estamos mais inseguros num mundo que muda rapidamente.

Nossos conhecimentos se defasam, temos dificuldade em

assimilar novas informações.

A tecnologia, em especial, com suas inovações impostas

velozmente a todos, tem criado barreiras quase

intransponíveis para os mais idosos. Tudo depende de ter

acesso e saber percorrer as interfaces de aplicativos e

sites, até mesmo para lidar com o poder público, para

garantir direitos e obter serviços.

Sentimos o peso do gafanhoto quando tarefas e atividades

comuns de nossa vida começam a nos onerar mais, a nos

produzir mais cansaço físico e mental.

O nosso corpo e nossa alma nos dizem que está chegando

o momento de ter mais descanso, mais sossego, de se dedicar

mais à dimensão imaterial da vida, ao relacionamento com

Deus e com as pessoas, aos “tesouros dos céus”, ao que tem

valor eterno, ao crescimento no conhecimento e na sabedoria

espirituais, à comunhão com o Jesus, à vida no Espírito.

Talvez seja o momento de nossas atividades e afazeres

refletirem mais nosso mundo interior, buscando expressar, a

partir dele, amor, alegria, paz, esperança, paciência e

graça, mesmo em meio às lutas e circunstâncias da vida, as

quais agora reconhecemos como transitórias e efêmeras.

Mas isso não é fácil de se ter ou obter, mesmo porque

pode implicar vencer hábitos e conceitos arraigados em nós

sobre como viver e, talvez, recuperar o tempo perdido em que

não cultivamos tais aspectos em nossa alma, por demais

dedicamos às demandas da vida comum.

Todas essas coisas acontecem para nós, que estamos agora

vivendo esse ciclo final da vida, num contexto de sociedade,

de família e de Igreja que praticamente exclui ou torna

irrelevantes as contribuições dos mais velhos, vistos,

muitas vezes, como objetos de preocupações e de trabalhos

que ninguém, na verdade, quer ou pode assumir, considerado

o ritmo de vida que se leva para conseguir uma condição

segura e confortável em termos materiais.

Queridos companheiros e companheiras de jornada, o

principal objetivo de lhe escrever essas considerações, que

contêm mais perguntas implícitas do que afirmações ou

soluções, é convidá-los a uma conversa sobre o

envelhecimento.4

É certo que não faltam, nas famosas redes sociais e

mídias eletrônicas, influenciadores, coachs, gurus, gestores

de qualquer coisa e autoproclamados especialistas com toda

sorte de conselhos e de propostas para os idosos, a preço

relativamente baixo, oferecendo, não raro, ilusões de

juventude eterna.

Contudo, nós, como cristãos, não podemos nos eximir de

fazer essas reflexões à luz das Escrituras e considerando o

propósito eterno de Deus para nós, em qualquer fase da vida.

Precisamos pensar no que o Senhor requer de nós como

homens e mulheres maduros, na Igreja, na família e na

sociedade. Que frutos devemos produzir ainda, uma vez que

tenhamos algo de força e de disposição para servir. Temos

que buscar a melhor maneira de viver os anos que temos à

frente e de completar nossa jornada como discípulos.

Igualmente, devemos nos preparar para o ciclo final da

vida terrena, como fizermos até aqui em relação às fases

anteriores, de crescimento, formação, estudo, trabalho,

família etc.

O envelhecimento pode se abater de diferentes formas

para cada um de nós, mas acontecerá com todos os que não

partirem ainda jovens. Precisamos, como família de Deus,

estarmos em mútua cooperação para vivermos o melhor possível

o que a idade nos trouxer de possibilidades, dificuldades e

desafios.

Aguardo retorno dos que eventualmente aceitarem o

convite para esse diálogo e tiverem considerações e

contribuições a trazer. Esclareço que são bem-vindos não

apenas os que já se veem nesse momento da vida ou próximos

dele, mas também os mais jovens que desejem participar e

colaborar.

Quem sabe em breve poderemos estar juntos para conversar

pessoalmente sobre tudo isso.

Que a suficiente graça de Jesus seja com cada um de

vocês.


Seu conservo e já legalmente idoso companheiro de

jornada,


Fernando


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