terça-feira, 21 de abril de 2026

 A Arte de Envelhecer



Recebi um dia desses uma correspondência do meu dileto amigo Cairos. Eu já estava, em verdade, sentindo falta de suas provocativas e criativas reflexões sobre a vida, frutos de sua vocação para filósofo desocupado e pensador do caos cotidiano.

        Bem, ele não me decepcionou. Encaminhou-me esse texto que compartilho com vocês, embora fuja um pouco à proposta deste espaço virtual.

Se tiverem algum comentário ou queixa comprometo-me a transmitir a ele, sem muita esperança de que reconsidere. Trata-se de um obstinado a pensar por conta própria.

 

Fernando Saboia Vieira

2014



Reflexões sobre

 

A VETUSTA E QUASE ESQUECIDA

 

ARTE DE ENVELHECER



Cairos Anann Cronn



            Conselhos que dou a mim mesmo, nesta quadra estranha da vida.

 

1)        Escolher minhas demências senis. Não supor que não as terei. Melhor preferir algumas a ser vítima de quaisquer.

 

2)        Evitar o ridículo de querer se manter eternamente jovem e o patético de ser um velho covarde, que faz da velhice uma desculpa para a autocomiseração.

 

3)        Aceitar o tempo e suas marcas em mim, no meu corpo e na minha alma, fazer delas troféus e roteiros de vitórias e derrotas, tristezas e alegrias.

 

4)        Manter a autocrítica, o senso do ridículo. Não pode haver nada mais ridículo do que um velho ridículo que não se enxerga mais.

 

5)        Evitar o modernismo e o anacronismo. Viver na suspensão do tempo. Esse é um dos privilégios da idade: não ter que ir nem ter que voltar, poder apenas estar aqui, agora.

 

6)        Ser cada vez mais sério: ninguém suporta – pelo menos eu não – um velho debochado.

 

7)        Falar cada vez menos. O silêncio fica bem nos mais velhos, combina com os cabelos brancos e as longas estradas percorridas.

 

8)        Reconhecer os novos limites e saber que alguns serão insuperáveis. “Olimpíadas” da terceira idade são a quintessência da degradação humana.

 

9)        Não contar histórias a quem não quer ouvi-las e, principalmente, não as contar várias vezes.

 

10)    Visitar o passado para encontrar nele o sentido do presente e a esperança do futuro.

 

11)    Evitar o futuro do subjuntivo e o futuro do pretérito: conjugar a vida no futuro do indicativo: não dizer, “quando eu fizer”, ou, “eu faria”, mas “eu farei”!

 

12)     Ouvir as histórias dos outros, com cada vez maior atenção. Elas levam a mundos alternativos e fantásticos, cheios de aventuras, dramas e riquezas humanas.

 

13)    Tentar aprender sempre algo novo, de preferência por puro prazer.

 

14)    Manter o máximo de autonomia, mas aceitar ajuda. Quem não aceita ajuda acaba dando mais trabalho.

 

15)    Terminar o que já foi começado, antes de iniciar projetos que não se poderão concluir, a não ser os que semeiam um futuro a ser vivido pelos outros.

 

16)    Conviver cada vez mais com os mais jovens. Eles são janelas para os futuros que eu não verei e os portais para os mundos que não visitarei.

 

17)    Evitar a futilidade e a frivolidade. São afrontas ao dom precioso da vida e um desrespeito profundo a si mesmo.

 

18)    Valorizar o tempo, não ter pressa para o que for belo, significativo e eterno, sem se perguntar se é “útil” ou “produtivo”.

 

19)    Manter uma razoável quantidade de dúvidas na mente. Recusar as explicações “cabais”: elas encolhem a alma.

 

20)    Nunca deixar de se admirar com a vida, com o mundo, manter-se perplexo diante das coisas mais cotidianas.

 

21)    Manter o olhar para adiante, isto é, para a eternidade, embora a curva na estrada e a nuvem escura no horizonte.

 

22)    Aceitar as críticas e admoestações, não obstante a arrogância dos jovens e a impaciência dos velhos. Você está entre uma coisa e outra.

 

23)    Não desejar nem temer a morte. “Sê bravo, sê forte, não fujas da morte, que a morte há de vir” (GD).

 

24)    Muito cuidado com o ceticismo e o cinismo Aparência de sabedoria eles têm, mas “lado negro da força eles são” (MY).

 

25)    Aceitar as incompletudes da vida para poder viver plenamente.

 

26)    Evitar conversar comigo mesmo e com meus amigos invisíveis – ausentes, falecidos, fictícios – diante de pessoas que não têm esse nível de transcendência espiritual.

 

27)    Não esperar das pessoas o que elas não têm para dar, mesmo quando elas pensam que sim e o prometem: “de onde menos se espera, daí é que não saí nada mesmo” (BT).

 

28)    A sabedoria do tempo é: eu antes não sabia apenas superficialmente coisas que hoje eu não sei profundamente.

 

29)    Não tentar mudar ninguém, exceto a mim mesmo.

 

30)    Não reclamar, não murmurar, não resmungar: as coisas e as pessoas que nunca se importaram não começarão a se importar agora.

 

31)    Não falar alto. As pessoas não estão ficando surdas, elas apenas não estão sempre interessadas no que tenho a dizer.

 

32)    Aceitar, pacientemente, ser interrompido nas conversas e aprender a não insistir em histórias que as pessoas não querem ouvir e em lições que elas não estão dispostas a receber.

 

33)    Não ficar com raiva quando tomam minha insistência por idiotia – talvez seja mesmo.

 

34)    Ter alguém com autorização prévia e expressa para me interditar, se necessário, e me proteger de mim mesmo.

 

35)    Fazer de tudo para não perder mais nenhum pôr do sol, eclipse, lua cheia ou passagem de cometa.       

 

36)    As virtudes do envelhecimento são: paciência consigo mesmo, humildade diante de todos e contentamento em Deus.

 

37)    Fazer do tempo meu amigo e aliado. Ele passa, eu passo; mas, um dia, nem eu nem ele passaremos mais, e teremos, então, longas conversas.

 

38)    Fazer cada coisa “com calma atenção e tempo, com paciência e talento” (FSV).

 

39)    Aprender a atravessar os silêncios provocados por perguntas sem respostas, e encontrar neles a Presença daquele que ouve e vê, que sabe e envolve.

 

40)    Aprender a usar mais reticências do que pontos finais...

 

   

 

Fernando

2026

 

domingo, 19 de abril de 2026

Por favor, me deixem envelhecer



Quero meus cabelos poucos e brancos

Como testemunhas de lidas e lutas

De verões e invernos

Como troféus de derrotas e vitórias


Vou levar minhas marcas e rugas

Como mapas e rotas

Dos caminhos em que me perdi

E me achei


Andar devagar

Falar devagar


Olhar devagar

Pensar devagar


Viver não como quem resolve problemas

Mas como quem cogita mistérios

Não como quem decifra enigmas

Mas como quem contempla maravilhas


Contar histórias e memórias

Recordar o passado como o sentido

Do presente e a invenção do futuro


Ser conduzido, ser ensinado

No mundo novo e estranho

Que surge à minha volta

No qual sou estrangeiro e peregrino


Indiferente a tudo o que passa

Amigo de tudo o que flui


Conversar com amigos presentes e ausentes

Encontrados, lembrados e inventados

Moradores dos mundos onde minha alma

Passeia em passeios cada vez mais longos



Fernando

2021