terça-feira, 10 de setembro de 2019

Sobre as histórias que ouvimos e contamos uns aos outros



Histórias Contadas em Silêncio



Não simplesmente ouço suas histórias,
Contadas com palavras, gestos, olhares e silêncios:
Eu as recebo, as concebo, elas nascem dentro de mim,
Habitam minha alma e eu passo a nelas habitar
Como personagem e co-autor,
Elas se tornam histórias da minha própria história.

Suas histórias, eu as sinto, eu as vivo, as levo comigo,
Sofro seus dramas, carrego seus temores e seus sonhos,
Alegro-me e desespero-me com elas:
Tornam-me mais plural, mais pleno, mais humano,
Mais frágil e também mais forte.

Sigo afligido e consolado por essas histórias,
Que me acordam de madrugada,
Comigo conversam o dia inteiro
E me fazem meditar ao anoitecer
No dom precioso da vida,
Nos profundos e misteriosos caminhos
Do Deus sempre revelado e sempre oculto,
Na suficiente e surpreendente graça de Jesus,
Na infinitude do Espírito Criador e Consolador
Que tudo move, envolve, renova, vivifica...


Fernando Sabóia Vieira,
de "A Explosão de Silêncio", 2012, ainda inédito.



terça-feira, 20 de agosto de 2019

Viver e Passar



Viver e Passar


vivo,
quero dizer, passo
ou por mim passam
os ventos e as ondas
da vida que se faz, desfaz, refaz
e é eterna
porque está sempre a passar

passo,
quero dizer, vivo
ou em mim vivem
as fontes e as energias
do passar e do viver
no eterno pensar e pulsar
do Espírito de Deus

vivo, no passo que passo

passo, na vida que vivo



Fernando Saboia Vieira

De "Crônicas Alegres para esses meus Tristes Dias", 2019, inédito.



quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Novo Ano, Novo Homem

Imagem e Semelhança

Thomas Merton


         Mas quando Deus fez o homem Ele fez mais do que ordenar sua existência. Adão, que foi criado para ser o filho de Deus, o ajudador de Deus na tarefa de governar o mundo que Ele criara, foi misteriosamente formado por Deus, como nos diz frequentemente o Antigo Testamento, como um oleiro forma um vaso de barro. “Então, formou o SENHOR Deus ao homem do pó da terra e lhe soprou nas narinas o fôlego de vida, e o homem passou a ser alma vivente” (Gênesis 2:7, ARA).

         A vida de Adão, isto é, o “fôlego” que dava realidade, existência e movimento a toda a pessoa do homem, procedera misteriosamente da profundeza íntima da vida do próprio Deus. Adão não foi criado meramente como um animal vivo e movente que obedecia ao comando e vontade de Deus. Ele foi criado como um “filho” de Deus porque sua vida compartilhava algo do fôlego, ou Espírito, do próprio Deus. Pois “fôlego” é o mesmo que “espírito” (a palavra latina espírito está relacionada a spirare, respirar). 

         A criação de Adão não foi apenas uma concessão de vida, mas uma concessão de amor e sabedoria, de maneira que no exato momento em que passou a existir Adão foi, pela virtude dos dons sobrenaturais e prenaturais que acompanhavam todos os seus dons naturais, em algum sentido, “inspirado”. Se a expressão for permitida, a própria existência de Adão deveria ser um tipo de “inspiração”. Deus não pretendia apenas conservar e manter a existência corporal de Adão. Ele também estimularia e desenvolveria ainda mais direta e intimamente a vida e atividade espirituais que eram a razão principal para a existência de Adão.

         Adão, desse modo, foi criado para desde o princípio viver e respirar em união com Deus, pois assim como a alma era a vida do corpo de Adão, deveria o Espírito Santo se movendo em Adão ser a vida de sua alma. Para Adão, viver significaria “ser inspirado” – a ver as coisas como Deus as vê, amá-las como Deus as ama, ser movido em tudo em êxtase pelo Espírito de Deus. Desse modo, para Adão, êxtase não era de modo algum uma interrupção violenta da rotina normal da vida. Não poderia haver violência ou alienação numa vida assim: no Paraíso, êxtase é normal.

         Merton, Thomas. “The New Man”, Image and Likeness. Tradução de Fernando Saboia Vieira.

terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Para o Novo Ano

Brasília, em 1º de janeiro de 2019, AD.


Caros companheiros de jornada em busca da vida interior,



Nesse ano que começa, não quero ser avaliado por minhas eventuais vitórias, mas pela qualidade de minhas lutas, pois a Ele já pertence a toda a vitória;

Não pelos bens que possa adquirir, mas pela fidelidade e bondade que marcarem meu serviço e mordomia em relação aos que me forem confiados por Aquele a quem pertencem todas as coisas;

Não quero ser reconhecido pelo conhecimento e sabedoria que venha a obter, mas pela humildade e temor que tenham sido depositados no meu coração, porque n'Ele estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento;

Não pelas realizações e sucessos que possa alcançar, mas pela glória que minha vida venha a trazer ao nome daquele a quem pertence toda a Glória;

Não quero ser considerado pelo impacto e influência de minha vida nas vidas das pessoas, mas pela saudade do Pai que minhas ações e palavras possam produzir em seus corações.


Que a graça de Jesus seja com todos.

Fernando Sabóia Vieira




terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Preces de ano novo

Ano Novo
“Eu Sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim...

Não começar nada
Sem Aquele que é o Começo de tudo
O Princípio
O Renovo
O Alfa
A Sabedoria da criação

Não continuar nada
Sem Aquele que é o Sentido de tudo
A Palavra
A Força
A Alegria
O Dom de existir

Não alcançar nada
Sem Aquele que é o Fim de tudo
O Alvo
O Destino
O Ômega
A Vida abundante

Fernando Sabóia Vieira
De “Café com Poesia”, meados da década de 90.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Preces de ano novo

Oração de manhã cedo


Crescer como tudo
o que cresce
na força da tera
no calor do sol
no fluir das águas
e no movimento do ar

Te amar como tudo
o que te ama
no fruto que nasce
no menino que corre
na menina que dança
na vida que surpreende
nos gestos anônimos de coragem
e de ternura

Te servir como tudo
o que te serve
e se move à tua voz
na terra e nos céus
os seres viventes
e as coisas inanimadas
nos ciclos da vida
e nos passeios dos astros


Fernando
de "Chuvas Serôdias", 2016

domingo, 2 de dezembro de 2018

Versos Exilados

Página Solta


Todos vivemos
tentando manter um pouco
de lucidez, sem saber, ao certo,
de onde veio essa estranha ideia
de fazermos sentido

O mundo é obra
de um genial artista,
genial ao ponto da insanidade

Aqui, no meio da vida,
no meu escritório em casa, minha oficina
de pensamentos,
minha sala de guerra,
só o Senhor faz fluir a vida,
a vida que é o sentido dela mesma,
a vida que é ser contigo, Rei meu
e Deus meu

Daqui, vejo o Senhor e me vejo
quebrado e pequeno
num grande mundo perigoso

Daqui, saio para a luta,
não sei até quando,
mas sei que Ele vive e reina


Fernando Saboia Vieira
de "Versos Exilados", 2008.

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Melissa


Melissa, Mel e Melodia



Mais melodias, mais sabores
Mais perfumes no céu
Mais fantasias, mais amores
Mais doçuras de mel

Quero ouvir sua voz brilhar
E ver melodias no seu olhar
Quero passear em suas histórias
E um dia viver em suas memórias

Você vai ser uma abelhinha
A buscar flores e mel,
Ou uma princesinha do céu?

Você vai ser uma princesinha
Dos olhos cor de mel,
Ou uma abelhinha a voar no céu?


Fernando Saboia Vieira
Novembro de 2018, AD


Poesias da estação


Manhã de outubro


Estou ainda aqui
Nesta primeira hora
Da manhã que lenta se vai
Sentado à mesa, no escritório
Em casa

Para além daquele flamboyant
Que já floresce
Neste final de outubro
O dia me chama
E me alucina
Com a harmonia e o caos

Fico mais um pouco
Tento esticar os minutos
Tomo vagarosamente meu café

Encho minha lama
Da beleza iluminada e distorcida
Brilhante e sofrida
De quadros de Van Gogh
Que desfilam na tela do computados
Ao ritmo de uma melodia pungente

Quero viver este dia
Como quem passeia
Num mundo novo e estranho
Encantado com seus mistérios
Compadecido de suas misérias


  

Reforma no Palácio


Vi que tudo envelhecia
Nos azulejos, nos carpetes
Nos mármores e nas histórias
Do palácio outrora moderno
E agora marcado pelo tempo
E pelos passos perdidos

De velho a antigo
A dignidade de andar
O caminho da história
E de lutar as lutas das eras

Aceitar o sol e a chuva
A secura e a umidade
Mas não aceitar
Os desaforos do destino
Embora vivendo nele


Fernando Saboia Vieira
de "Êxtase Azul". 






quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Êxtase Azul


Êxtase Azul


Me envolveu
De repente me arrebatou
Num azul imenso,
Amplo, profundo
Que não era do ar
E não era da água
Num mundo todo fluido
Denso e macio
Permeável e consistente

Não sei se voava
Não sei se nadava,
Mas tudo era movimento
Liberdade, expansão, viagem

Uma luz difusa, amena
Variações, possibilidades de sentir
De ouvir e de ver, brilhos e cintilações
Silêncio e diálogo
Uma alegria imensa
Em sorrisos e risadas

Havia alguém que estava em tudo
Em toda parte, dentro e fora
A me ver, a me ouvir, a me abraçar

E eu, desprendido de tudo
E integrado a tudo
Conscientemente rendido,
Voluntariamente atravessado,
Finalmente, senhor de mim mesmo


Fernando Saboia Vieira
Brasília, 8 de março de 2018, AD.


terça-feira, 29 de maio de 2018

Ciclos

Ciclos das Terras dos Mundos e dos Sentimentos

Ciclos não são repetições, meros retornos ao mesmo tempo, lugar e estado. Ciclos são reencontros, revisitações, retraduções, curvaturas da vida sobre si mesma, dobraduras do tempo e do espaço nos caminhos da eternidade e do infinito. Ciclos são fins que se tornam começos e começos que se tornam chegadas em novas terras, mundos e sentimentos no inesgotável fluir criador e criativo de Deus.
Ciclos envolvem todas as coisas, pensamentos, histórias, sonhos, emoções, razões, façanhas e fracassos, e fazem com que todas se toquem, se interpenetrem, se reencontrem, se reinterpretem, revelando a profunda simplicidade que abraça as infinitudes da Realidade e da Presença.
Meus ciclos, narrados em crônicas poéticas, minhas luzes, minhas trevas, minha jornada, minha solidão de tudo e minha comunhão com tudo o que também cicla comigo, em mim e à minha volta.

Brasília, últimos dias do ano da Graça de 2017.
Fernando, como Fernando
Sabóia, como Elias
Vieira, como Dídimo

 Ciclos

Rever os ciclos
Viver as formas
Pensar o ar
E flutuar na música
Que ele leva

Vivemos a voltar
De onde viemos
Onde nunca estivemos

O medo de ir
Mas o sonho de viajar
A tentação de ficar
Mas o desejo de fluir

- Eu vi um pequeno esquilo tentando atravessar uma avenida larga e movimentada, a ir e voltar, sem saber mais de onde vinha nem para onde ia...



A música

A música me levou
E me trouxe
Me fez voar levemente
Me fez andar calmamente

Me contou histórias
Dos silêncios eternos da criação
Antes da Voz tudo despertar

Sentidos semearam palavras
No silêncio e no coração
E ainda vou ter que as seduzir
Até que aceitem minhas mãos
E meus lábios,
Até que seu sentido, som e silêncio
Se encontrem
Em letra e melodia



A voz

A voz
Na escuridão
É luz
Que não se vê
A voz
No deserto
É caminho
Que não se faz

A voz
Na minha alma
Escura, deserta
É luz e é caminho
Que não vejo
Que não faço

A voz cria
A voz ilumina
A voz desperta

A voz conta histórias
De antes dos começos
E de depois dos fins





O tempo

Por um brevíssimo
Momento
Eu entendi o tempo

Mas o tempo
Não fica aí parado
Para a gente olhar bem
Para ele

Sei que o tempo
É o ser e o não ser e o vir a ser
Encontrados
E separados

Eu sei porque vi...


  

Café da manhã

A bebida quente na manhã fria,
Nas mãos que seguram a caneca,
Nos lábios que tocam o sabor,
No corpo que se acalma com o calor.

O sol apenas timidamente atravessa as nuvens pensativas
E deixa o tempo úmido, lento...

Poucos passarinhos se atrevem na chuva fina
E a cidade parece mais distante, menos agitada...

Tudo me envolve, tudo me enche
E percebo, me integro,
Conheço, sou conhecido
Recebo, sou recebido
Na Presença e na Realidade
Que finalmente compreendo
Como um só existir
Um só respirar
Um só mover

A razão de todas as coisas, horas e ciclos,
O sentido de todos os seres e palavras,
A glória de todas as estrelas e astros,
A vida, o dom precioso da vida

Amar com o amor do Amado
Viver a vida no Amado


Aqui mesmo, enquanto vivemos

Nos ciclos das águas
E dos ventos
No revolver das entranhas da terra
No nascer e no morrer
Em tudo, em tudo flui o Espírito
No ser eterno de Deus

- Na ciclagem dos motores aflitos
Na tosse rouca das máquinas engripadas
Nos mundos inquietos do construir e do destruir
Em tudo, a agonia dos homens
Na luta contra o caos e o nada

Eu caminho no planeta
Que gira e orbita uma estrela morna
Que viaja numa galáxia retorcida
Que corre alucinada
Num universo que passeia
Ninguém sabe por onde...




Não gosto     

Sei que se pode amar
Sem paixão
Mas não gosto

Sei que se pode comer
Sem feijão
Mas não gosto

Sei que se pode viver
Sem viajar
Mas não gosto

Sei que se pode pensar
Sem emoção
Mas não gosto




Estranho amor

Estranho amor
Que mais ama
O menos amável
Que mais busca
O menos encontrável
Que mais vê
O menos visível

Estranho amor
Que mais me quer
Quando menos eu me quero
Que mais me encontra
Quando mais eu me perco

Estranho amor, infinito amor
Na minha estranha vida
Na minha ínfima vida
Buscada, encontrada
Para ser sempre por Ti amada




Ciclo de presença e de ausência

Um pouco distante
É verdade
Mas também inexplicavelmente
Sereno

Completamente
Ausente
Estou fora de tudo
De mim e do mundo

Totalmente
Presente
Estou dentro de tudo
De você e do mundo

Sentimentos que tive
E perdi
Palavras que nunca encontrei
E levo comigo
Calados, eloquentes


  

Ciclos da vida e do tempo

I

Um pouco de solenidade
Nos gestos comuns da manhã:
Escovar os dentes
Sentir a água morna do banho
O primeiro toque ameno do dia
O ritual do nó da gravata
A primeira lembrança da lida

Demorar um pouco mais
Ao olhar e ver pela janela
O sol que se levanta
Iluminando a chuva que cai
Fazendo brilhar – e desaparecer –
O orvalho da madrugada
Como inspiração de viver
Os ciclos da eternidade

Um pouco de suavidade
Nas primeiras palavras
Um certo respeito ao silêncio
Como busca de uma atenção
Mais clara, mais admirada
À consciência da Presença




II

Meus passos andam sozinhos
Nos salões e túneis
Por onde o tempo não caminha
Embora nos surpreenda
Com inesperados percalços
E rostos jovens
E rostos envelhecidos

Salão Negro, solene
De festas e velórios
Salão Branco, funcional
Com a inexplicável chapelaria
Sem chapéus – sem cabeças? –
Salão Verde, desgastado, encardido
Com sua arte invisível, incompreendida
Perdida no meio dos perdidos passos

Corredores
Onde correm o bem e o mal
Profecia e alucinação
Demônios federais, estaduais e municipais
E um ou outro anjo desgarrado
Numa missão impossível

  
III

Na vida
É necessária uma certa liturgia
Para que nem tudo seja profanado
Na necessária eficiência da rotina

Menos humanos seremos
Se não nos tornarmos mais divinos

IV

Havia um amor livre, doce
Ingenuamente alegre
Que ainda procuro
Mesmo depois de ter encontrado

Talvez seja ainda
Um movimento de querer
Um sorriso e um beijo
Como o tudo do dia
Mas que para incompreendido
Quase ofensivo
Nesses seres estranhos
Que conversam comigo
O tempo todo

  
Ciclos das águas e da luz

As nuvens que passeiam
No ciclo das águas
Os pensamentos que fogem
Nos ciclos das mágoas
E os corações que morrem
No momento do olhar

Muito pouco
Se pode ver
Quase nada
Se pode querer

Ciclos intensos
Terríveis, imensos

Em algum lugar, a luz
Que também é um ciclo de energia
Em lampejos de alegria
Nascida nos infinitos
Dos pensamentos de Deus



Excertos de “Ciclos das Terras dos Mundos e dos Sentimentos”
Fernando Sabóia Vieira, Brasília, 2017, A