sábado, 6 de junho de 2026

 Marcha para quem?

 Fernando Saboia Vieira

   Pastor em Brasília

   Advogado

  Doutor em Ciência Política

 

 

         Aconteceu em São Paulo, no último dia 4 de junho, reunindo mais de 1,5 milhão de pessoas, a Marcha para Jesus, evento que ocorre em diversas cidades do Brasil e do mundo, com o objetivo de testemunhar e proclamar a fé evangélica.

         No nosso País, no entanto, essa manifestação vem assumindo algumas características preocupantes, no meu modo de ver.

         Por um lado, verificamos, a cada ano, uma diluição da mensagem do Evangelho de Jesus, com seu chamado ao arrependimento e conversão, por conta de um crescente sincretismo religioso e cultural.

         As práticas religiosas, as manifestações artísticas, a participação de “famosos” pregadores e expoentes da chamada cultura gospel, amortecem a proclamação do Reino de Deus ao ponto de a tornarem quase ineficaz, validando, inclusive, estilos de vida incompatíveis com o Evangelho de Jesus, para quem, supostamente, seria a “marcha”!

         Neste ano, um outro aspecto preocupante, também já presente em edições anteriores, ganhou destaque, ofuscando o testemunho da fé bíblica: o evidente uso político do evento por seus organizadores ao trazerem, como convidados de honra, políticos incrédulos de direita em busca de votos nas próximas eleições, representante evangélico do governo, com a missão de promover aproximação política da esquerda com esse segmento religioso, e, até mesmo, inexplicavelmente, um ministro da suprema corte, também evangélico, que figurou próximo a pessoas não convertidas e associadas publicamente a fatos identificados em procedimentos legais sob a sua jurisdição.

 

         Daí a minha pergunta: marcha para quem?

 

         Creio que a maioria dos irmãos e irmãs que participaram do evento tinham um propósito legítimo de manifestação de sua fé, de testemunho do Evangelho de Jesus e de proclamação do Reino de Deus.

         Mas confesso que me causa indignação a maneira como essas pessoas estão sendo mobilizadas e usadas com objetivos outros, por líderes religiosos e políticos que querem tornar os evangélicos no Brasil um movimento social com fins de poder, a ser capturado e explorado por uma ou outra ideologia ou segmento partidário.

         Jesus se recusou, expressa e terminantemente, a usar as multidões que o apoiavam em certo momento de seu ministério com objetivos políticos ou para angariar prestígio, uma vez que, em suas palavras, a porta do seu Reino, que não pertence a este mundo, é estreita e passar por ela depende uma conversão pessoal, arrependimento, renúncia a si mesmo e ao pecado e obediência a Deus e a seus mandamentos em todas as áreas da vida.

         Sou a favor da participação dos cristãos evangélicos na política. Acho mesmo que faz parte de nossas obrigações como cidadãos, e do testemunho da nossa fé.

         No entanto, o preceito de Jesus sobre esse tema é separar o que é “de César” do que pertence a Deus. Há uma maneira simples de fazer essa distinção. Basta se perguntar para quem será a glória.

 

         Quero invocar aqui o auxílio do santo da Igreja:

 

         "Dois amores construíram duas cidades, a saber: o amor-próprio, levado até ao desprezo de Deus, fundou a cidade terrena; o amor a Deus, levado até ao desprezo de si mesmo, construiu a cidade celestial. 

A primeira gloria-se em si mesma e a segunda em Deus. Aquela busca a glória dos homens, e esta a glória de Deus. Naquela, seus príncipes e as nações veem-se sob o jugo da concupiscência do domínio; nesta, servem em mútua caridade, os governantes, aconselhando, e os súditos, obedecendo. 

 (Agostinho, “A Cidade de Deus”)

 

 

         A mim me parece razoavelmente claro para quem marchavam essas pessoas “famosas” e ilustres presentes no evento: para si mesmas, para seu grupo político, para seu sucesso pessoal, para sua própria glória.

         Tenho, assim, muitas dúvidas sobre os propósitos dos líderes evangélicos responsáveis pela organização dessa manifestação, e gostaria de lhes perguntar: 

 

Marcha para quem?

 

         Soli Deo Gloria!!

 

 

         Brasília, em junho de 2026, AD

 

         Fernando Saboia Vieira

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