terça-feira, 1 de outubro de 2013

De Sombras e de Luzes


Sombras e luzes
 
I
 
Suaviza, Senhor, meu coração,
A aspereza dos meus pensamentos,
A rudeza dos meus sentimentos

E a dor incessante da minha carne


Que meus afetos fossem ternos
Como esse entardecer lavado

Da chuva de outubro
E dourados, como esse sol oblíquo

Que de despede do dia
 

Que eu soubesse falar palavras plenas
De graça e de compaixão,

Que meus gestos fossem generosos, livres,
Incontidos,

Como o abraço sussurrante da noite
Quando convida ao aconchego e ao desespero

Ao sono e à vigília
Ao lamento e à oração


II


Nunca tive medo de alma
Sempre as via – e as lia - por aí,

Espremidas em corpos bizarros, patéticas,
Sugadas, esmagadas, mendigadas,

Indigentes, mudas, mutiladas.


Mas agora, elas deram para me espiar,
Me espreitar nas ruas e olhares,

Esquinas e sombras,
E eu vejo suas insones penitências,

Escuto suas ladainhas e lamentos
Adivinho seus dias de beleza perdida

E nunca esquecidos.


E tenho um medo novo...
 

Tenho medo de não saber dizer
Seus esconjuros, não saber exorcizar

Suas maldições, não conseguir aliviar seus fardos
E cansaços da vida.

 
Tenho medo, principalmente, de as levar comigo,

Na minha história, na minha memória...

 
III

 
Gosto dessa paz
Que me chega do nada

E me surpreende
Com seu sorriso calmo

Que me explica tudo
Sem me dizer palavra

 
Gosto dessa paz alada
Que flutua no ar e paira,

Desliza na mente e no coração
Anunciando a Presença do Todo

Em Tudo

 
Gosto dessa paz silenciosa
Que me faz esquecer as perguntas

Que me assombram a alma
E me sussurra histórias fantásticas

E me semeia sonhos eternos

 
IV
 

Uma coisa que realmente me assusta
É esse desejo constante

De estar sempre em outro lugar


Não é fugir, mas viajar, encher a alma
De cores, de ares,

De mares e de amores


Não é não estar aqui, onde sempre estou,
Mas é estar também lá,

Onde nunca posso estar


Ensinei minha alma a voar
E agora ela não consegue mais caminhar

Assim, ao rés da vida

 
V
 

como se tivesse feito
uma longa, muito longa viagem

para parte alguma
e me perdido

ou me esquecido na volta


Ele nunca se perde
e nunca me perde

Ele nunca se esquece
e nunca me esquece

 
vou continuar a jornada
pela noite escura

com seus assustadores silêncios
e terríveis aparições

 

até ver brilhar no horizonte
a estrela da manhã...

 
Fernando Sabóia Vieira
de "Sombras e Luzes"

 


 

quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Dia do Abraço


é simples, me abrace

 
 

se eu lhe parecer triste

me abrace

me pergunte porque e

me abrace

se eu não responder

me abrace

se eu responder

me abrace

se você não me entender

me abrace

se você me entender

me abrace

se você não concordar

me abrace

se você concordar

me abrace

 

seu abraço sozinho

me explica

me corrige

me anima

me simplifica

me diz para onde ir

 

é simples, me abrace

 


Fernando Sabóia

De “Versos no Altar”

 

terça-feira, 10 de setembro de 2013

DUAS ALMAS, UMA SÓ CARNE!


 
Mensagem compartilhada no casamento de WILSON e MÍRIAN

Salvador, em 01/09/13
 
VERBETES


"SERÃO OS DOIS UMA SÓ CARNE" – descreve um fato, uma realidade, algo consumado, impossível de se separar. Não é uma ficção jurídica, mas uma realidade física e espiritual.
O texto original usa expressão matemática, exata: eram 2 agora apenas 1.


"QUE SEJAIS UNIDOS DE ALMA" – aponta para um propósito, um vir a ser, uma busca de harmonia, de entendimento, de se ter um mesmo sentimento e pensamento.
A palavra original sugere aproximação, equilíbrio, afinidade de mente, sentimento, pensamento. Sintonia, sinfonia, sinergia – “sin psique”.

 HOMILIA

Essas duas postulações bíblicas, uma específica para o casamento e a outra facilmente aplicável a ele, nos colocam diante de um dos paradoxos da união conjugal: DUAS ALMAS, uma masculina e uma feminina, habitando UMA SÓ CARNE.


Alguns casais têm a ERRÔNEA EXPECTATIVA DE SER UMA SÓ ALMA, o que resulta em conflitos, imposições, dominações, disputas, cobranças, decepções.


 Esse pensamento equivocado coloca o casal na BUSCA E EXIGÊNCIA DE ALGO IMPOSSÍVEL, pois significaria deixar o homem de ser homem e a mulher de ser mulher, produzir uma alma mista, híbrida, descaracterizada, descolorida.

Nada mais distante do projeto e propósito de Deus.

A Palavra não declara que os casais são ou devem ser uma só alma, mas os convoca a que VENHAM A SER UNIDOS DE ALMA.

Isso significa que o casamento deve TORNAR O HOMEM MAIS MASCULINO e a MULHER MAIS FEMININA, na convivência, na aceitação, na união, na comunhão e na cooperação dos diferentes, com todos os benefícios- e a diversão garantida - dessa diversidade planejada por Deus quando, desde o princípio, "macho e fêmea os criou".

HOMENS E MULHERES SERÃO SEMPRE DIFERENTES, reagirão sempre a partir de pontos de vista, de maneiras de pensar e de sentir diferentes. Não é propósito de Deus no casamento mudar isso!!!

Quando partimos da ILUSÓRIA IDÉIA DE SER UMA SÓ ALMA, teremos a cada situação concreta de vida uma decepção e produziremos uma distância pelo estranhamento do outro como não eu, como diferente de mim, oposto e antagônico a mim.

Quando, no entanto, partimos do RECONHECIMENTO E ACEITAÇÃO das diferenças, consideradas não como problemas, mas como diversidade e complementação, essa distância não será percebida como obstáculo, mas como caminho, pois, embora diferentes, FOMOS FEITOS para nos encontrarmos e nos unirmos.

Assim, é necessário QUE OS CÔNJUGES BUSQUEM CADA DIA SER UNIDOS DE ALMA. Mas essa união será SEMPRE RESULTADO de escolha, decisão, renúncia, compromisso, propósito, amor.

No casamento, a essa DIFERENÇA CRIACIONAL somam-se OUTRAS DIFERENÇAS, culturais, educacionais, familiares e de historias de vida, que vão compor o complexo mundo da alma de cada um.
O MARIDO não deve tentar impor uma maneira masculina de viver à esposa, nem se irritar ou ficar impaciente ou autoritário quando ela está apenas sendo mulher, com suas virtudes e limitações e expressando seu mundo cultural, familiar, seus valores e expectativas.

E vice-versa. A ESPOSA não deve deixar de respeitar o marido, ser rixosa, fazer chantagem ou tentar assumir o comando quando ele está simplesmente vendo o mundo e se comportando como homem, com suas qualidades e deficiências, expressando seu universo, seus projetos, sua formação, sua cultura peculiar.

O REINO DE DEUS NÃO NOS DESPERSONALIZA, NÃO NOS TORNA ASSEXUADOS NEM CULTURALMENTE NEUTROS. NÃO APAGA NOSSAS HISTÓRIAS PESSOAIS NEM OBLITERA NOSSAS HERANÇAS, HABILIDADES E CARACTERÍSTICAS.

O REINO DE DEUS NOS COLOCA NUMA DINÂMICA DE SERMOS TRANSFORMADOS NA NOSSA VERDADEIRA IDENTIDADE CRIADA POR DEUS E CORROMPIDA PELO PECADO E DE VIVERMOS A REALIDADE PLENA DA PRESENÇA DE DEUS.

UM PROCESSO FUNDAMENTAL NESSA TRANSFORMAÇÃO SÃO OS RELACIONAMENTOS E O CASAMENTO É UM DOS QUE MAIS COOPERA NESSE SENTIDO.

Desse modo, devem os dois buscar essa aproximação que só pode acontecer a partir do reconhecimento das diferenças e do respeito a elas.

É semelhante ao que ocorre quando você se relaciona com alguém de outro país. São inicialmente estrangeiros um para o outro, mas vão se criando pontes de afinidade, esforços de aproximação, de reconhecimento das diferenças e de busca de sua superação.

PARA SEREM UNIDOS DE ALMA, os casais deverão se conhecer, se dar a conhecer, compartilhar, se esforçar para desvendar o mundo interior do outro, sua realidade pessoal, familiar, espiritual, emocional, intelectual, cultural, aprender sua língua, ainda que a entenda e fale sempre como estrangeiro, pois nunca será sua própria língua materna, conhecer o universo do outro a partir dele mesmo, de dentro, como quem mora lá, mesmo sendo alienígena.

Homem e mulher FORAM FEITOS PARA SE COMPLEMENTAREM, se aceitarem, se ajudarem, se amarem. Mas não para se entenderem completamente, para se fundirem numa só pessoa. É na dinâmica do relacionamento entre opostos que pode surgir a expressão da IMAGO DEI, que só se revela na vivência concreta do amor.

A ESPOSA deve ser cuidada e amada, mesmo quando o marido não a compreende ou não concorda com ela ou não consegue convencê-la do que lhe parece óbvio...

O MARIDO deve ser respeitado e amado, mesmo quando a esposa não o entende ou não concorda ou ele não consegue ver o que lhe parece tão claro e evidente...

O fato da unidade de carne operada pelo casamento e a busca da união de alma prescrita pelas Escrituras como ideal da comunhão cristã são dois aspectos fundamentais da aliança conjugal, que apenas podem ser produzidos pelo Espirito Santo. Sua realização, no entanto, sempre dependerá do compromisso de cada um com Deus e com o outro.

Para amar não é necessário entender, sentir, pensar ou querer do mesmo modo. O amor é a superação da razão e do sentimento pela transformação de natureza de mente e de propósitos produzida pelo Espirito de Deus.

O ESPOSO DIZ: "QUERIDA não estou prometendo a você que sempre vou entender suas palavras, seus silêncios, seus olhares, suas alegrias e tristezas, seus medos, seus sonhos, suas aflições, suas expectativas, mas estou me comprometendo a cuidar de você e a amar você em qualquer circunstância.".

A ESPOSA DIZ: "QUERIDO não estou prometendo a você que sempre vou entender suas ações, reações, solidão, prioridades, sentimentos, medos, hesitações, silêncios, cálculos, argumentos e razões, mas estou me comprometendo a respeitar e a amar você em qualquer circunstância.".

Finalmente, podemos dizer que O SER UMA SÓ CARNE, COMO FATO E CONSUMAÇÃO, OPERA NA DIMENSÃO DA FÉ; enquanto que o SER UNIDOS DE ALMA, COMO PROPÓSITO E BUSCA, SE ENCARNA DIA APÓS DIA NO IMPULSO DA ESPERANÇA; e que UM E OUTRO SÃO EXPRESSÕES NECESSÁRIAS DO AMOR.

EPÍLOGO


Esse caminho de superação das distâncias pela perseverança do amor é magnificamente descrito nas palavras do grande poeta chileno que escreveu:

NERUDA – SONETO II

Amor, cuántos caminos hasta llegar a un beso,
qué soledad errante hasta tu compañía!
Siguen los trenes solos rodando con la lluvia.
En Taltal no amanece aún la primavera.

Pero tú y yo, amor mío, estamos juntos,
juntos desde la ropa a las raíces,
juntos de otoño, de agua, de caderas,
hasta ser sólo tú, sólo yo juntos.

Pensar que costó tantas piedras que lleva el río,
la desembocadura del agua de Boroa,
pensar que separados por trenes y naciones

Tú y yo teníamos que simplemente amarnos,
con todos confundidos, con hombres y mujeres,
con la tierra que implanta y educa los claveles.


Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
Que solidão errante até a tua companhia!
Seguem sozinhos os trens deslizando com a chuva.
Em Taltal não amanhece ainda a primavera.

Mas tu e eu, meu amor, estamos juntos,
Juntos das roupas até as raízes,
Juntos de outono, de água, de quadris,
Até que seja só tu, só eu, juntos.

Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
A desembocadura da água de Boroa,
Pensar que separados por trens e nações

Tu e eu tínhamos que simplesmente nos amar
Confundidos com todos, com homens e mulheres,
Com a terra que implanta e educa os cravos.

(Tradução : Fernando Saboia Vieira)



FERNANDO SABÓIA VIEIRA

O AMOR A DEUS E O PROPÓSITO ETERNO


 “PARA O BEM DOS QUE AMAM A DEUS...” Romanos 8:28-30

                  Irmãos queridos,

          Estive meditando nesses últimos tempos sobre esse texto de Romanos 8:28-30 e chamou-me a atenção um aspecto ao qual não tinha ainda dado a devida ênfase.

Analisando os verbos contidos nessa passagem, percebi que amar a Deus é a única ação que o texto atribui a nós. Todas as demais ações descritas são de Deus a nosso favor.

Podemos, assim, concluir que amar a Deus é a maneira de nos colocarmos na condição em que Ele pode fazer com que todas as coisas cooperem para nosso bem, segundo o Seu propósito.

Ocorre que quando nos vemos em situações difíceis, sofridas, complicadas, facilmente esquecemos o amar a Deus como centro de nossa vida e como nossa primeira e absoluta prioridade, como apontou Jesus (Mateus 22:37-38; Deuteronômio 6:4-9).

Algumas evidências desse esquecimento são nossa ansiedade, medo, murmuração, questionamentos, pensamentos confusos, sofismas, busca de soluções próprias, expectativas nos homens, ações e iniciativas, precipitadas e independentes. Tudo isso demonstra o desfoque do nosso amor e nos afasta do propósito de Deus.

Amar a Deus santifica e direciona todo nosso ser e nosso viver, pois envolve o coração, isto é, confiança, esperança, sentimentos, pensamentos, decisão, afetos; a alma, sede da vontade, valores, prioridades, identidade, entendimento, integridade, eternidade, significado e proposito, relacionamentos; e ainda toda nossa força, vale dizer, ação, trabalho, esforço, obra, serviço, realizações.

Por outro lado, se não buscamos amar a Deus acima de tudo, seu propósito se perde em nossas vidas, se esvai pelos buracos que são produzidos em nós por nossos falsos amores e confiança, em nós mesmo, nas pessoas, no mundo.

Somente o amar a Deus nos coloca em harmonia com o Seu propósito. Do contrário, só resta o caos e a desordem, o não amor.

Devemos nos lembrar de que o centro de toda tentação é nos afastar do amor a Deus, da confiança total nele, da completa entrega e serviço a Ele, com todo nosso ser. Se qualquer aspecto ou área da nossa vida permanecer fora, nosso amor será falso e distorcido: ou será hipócrita, apenas com os lábios; ou será legalista, apenas com atos externos; ou será efêmero, apenas com sentimentos.

Podemos mesmo dizer que toda santidade e espiritualidade estão contidas nisso, em amar a Deus com todo o ser, com todo o fazer, com todo o pensar, o tempo todo.

Amamos a Deus em qualquer circunstância? Talvez hoje Ele esteja nos dando oportunidades de aprender a amá-lo e, assim, nos fazer o bem.

Thérèse de Lisieux orou da seguinte forma, acerca do amar a Deus: “Minha vida é um instante, uma hora que passa; minha vida é um momento que não tenho o poder de reter. Tu sabes, oh meu Deus, que para te amar aqui na Terra eu tenho apenas hoje.”.

Como aprender e crescer no amar a Deus? Alguns caminhos nos são apontados pelos mestres da Igreja:

·         Conhecer mais a Deus pela Palavra, meditação, adoração, contemplação.

·         Relacionar-se, andar com Ele, conversar com Ele cotidianamente.

·         Guardar seus mandamentos, fazer Sua vontade, para que Ele venha habitar em nós.

·         Perseverar nas provações, tentações e circunstâncias adversas, esperando Seu socorro.

·         Imitar a vida de Jesus.

·         Amar os homens, pois esse é o segundo mandamento, semelhante ao primeiro.

 Que o amor do Pai, a graça de Jesus e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos.

Brasília, agosto/setembro de 2013, AD.

Fernando Sabóia Vieira

terça-feira, 18 de junho de 2013

A Ansiedade inevitável e a Paz incompreensível


Fernando Sabóia Vieira, Bsb, jun/13, AD.

 

“Não andeis ansiosos de coisa alguma; em tudo, porém sejam conhecidas, diante de Deus, as vossas petições, pela oração e pela súplica, com ações de graças.

E a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus.”

Filipenses 4:6-7

 

         O texto diz para não andarmos ansiosos. O que significa aí essa expressão, andar? Ela quer dizer permanecer, se manter, prolongar-se nesse estado. É natural que experimentemos ansiedade, é, na verdade, praticamente inevitável, neste mundo caótico e hostil em que vivemos, que em alguns momentos estejamos ansiosos. Mas não devemos andar ansiosos. A ansiedade não pode se tornar uma condição constante, algo habitual em nossa vida, ao ponto de moldar nossa personalidade e nosso caráter: não podemos nos tornar pessoas ansiosas.

Quando isso acontece com alguém, quando a ansiedade impregna seu ser, a pessoa sempre encontrará um motivo, real ou não, para continuar ansiosa, com graves danos a si mesma e aos outros com quem se relaciona.

         Ansiedade significa ter a mente dividida, confusa, perdida no mundo das inseguranças, das possibilidades, dos medos, do que pode ou não acontecer. A alma ansiosa perambula por lugares áridos, tudo temendo, tudo esperando, constantemente fora de casa, do santuário onde deve morar: o santuário da comunhão com a Presença íntima de Deus, que habita no Seu templo que somos nós! Ali, somente ali, a alma encontra descanso, alimento, identidade e significado.

         Assim, o grande dano causado pela ansiedade é que ela retira nossa atenção de onde devemos sempre estar focados. Deixamos de olhar para o Senhor e de perceber o sentido espiritual de tudo o que nos acontece e nos dispersamos no caos e nas trevas que aparentemente nos cercam.

         Em Mateus 6:22-24 encontramos as seguintes palavras de Jesus:

 

         “São os olhos as lâmpadas do corpo. Se os teus olhos forem bons (puros, simples), todo o te corpo será luminoso. Se, porém, os teus olhos forem maus, todo o teu corpo estará em trevas. Caso a luz que há em ti sejam trevas, quão grandes trevas serão!”

 

A palavra aqui traduzida por “bons” significa, literalmente, puros, no sentido de simples, sem contaminação, sem mistura. Ter olhos bons, ou puros, então, quer dizer olhar para uma única coisa, ter um único foco, manter a atenção numa única coisa, que deve ser Deus e a realidade do Seu Reino espiritual: “olhando, firmemente, para o Autor e Consumador da nossa fé”.

Nossa sociedade moderna sofre de um grave e profundo transtorno de déficit de atenção. Como está constantemente procurando alívio para sua falta de valores e de sentido para a existência, distrai-se, se dispersa na diversão que lhe é multiforme e abundantemente oferecida pelas mídias. Nós, pessoas modernas, especialmente aqui no Ocidente, temos profunda dificuldade em nos concentrarmos, em focarmos nas coisas essenciais, verdadeiras, simples e profundas que constituem o mundo espiritual.

O “olhar” significa a maneira de considerar, de compreender e apreender a realidade que nos cerca. Nós não podemos escolher os estímulos externos nem controlar as circunstâncias da vida, mas podemos decidir sobre o que trazemos para dentro de nós e sobre como interiorizamos essas coisas, à semelhança com o que fazemos em relação aos alimentos para nosso corpo. Não temos que comer tudo o que se oferece a nós a cada momento. Do mesmo modo, precisamos aprender a alimentar a alma com o que vai santifica-la e vivificá-la.

Esse é um dos sentidos da expressão “guardar o coração”, de onde “procedem as fontes da vida”.

Se não tivermos um “olhar puro”, contaminaremos nosso coração com pensamentos e sentimentos confusos e distorcidos, e nos encheremos de trevas espirituais. Passaremos a ser dominados por medos, paixões, mentiras, preconceitos, ignorância, obsessões, prisões emocionais e mentais.

Tudo isso vai produzir ansiedade e se esse estado se prolonga na alma esta se desagrega, se fratura, perde sua identidade pessoal e significado, podendo cair no desânimo em qualquer de suas formas: pânico, desespero, apatia, depressão.

         É fundamental que desenvolvamos em nossas vidas as disciplinas espirituais que buscam o controle dos pensamentos e dos sentimentos. Hoje em dia, muitos ensinam a considerar tudo o que brota do íntimo da pessoa como natural e aceitável. Pode até ser mesmo natural, mas considerando que temos uma natureza dominada pelo pecado, nem tudo que vem do nosso íntimo agrada a Deus. De fato, Jesus disse que é do coração que procedem as contaminações que comprometem toda a vida espiritual.

A Palavra nos indica, por exemplo, no que pensar:

 

“Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento” (Filipenses 4:8).

“Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra” (Colossenses 3:2).

 

Igualmente, o que sentir:

 

“Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão de longanimidade” (Colossenses 3:12).

“Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5).

 

Esse é um tema que merece uma discussão adequada em outro espaço, mas quero apenas deixar duas indicações para os interessados.

Uma, a lembrança de que o domínio próprio é fruto do Espírito Santo e de que, assim, podemos e devemos ser aperfeiçoados nisso, pois Ele está em nós.

A outra é uma dica dos antigos mestres da igreja. Quando temos dificuldade com algum pensamento ou sentimento impuro ou inadequado, que insiste em nos assaltar, o melhor a fazer é não dar atenção a ele, não lutar contra ele, mas ignorá-lo e voltar a mente e o coração para o que deve ser objeto de nossa meditação e busca. O caso é que quando nos esforçamos para não pensar ou não sentir, alimentamos esse pensamento ou sentimento.

Imagine-se tentando prestar atenção em uma aula quando há um barulho externo. Quanto mais você prestar atenção no ruído, mais ele ocupará sua mente. Se, ao contrário, você focar no professor, logo não prestará mais atenção no barulho externo. Talvez você tenha que fazer isso várias vezes, voltando-se de novo para a aula, mas com o tempo se disciplinará.

Quando Deus é nosso único foco, é Aquele para quem constante e repetidamente se dirige nosso olhar, somos iluminados por Sua luz, e podemos ver todas as coisas, inclusive aquelas que escapam à percepção do homem natural.

Prosseguindo como texto de Filipenses 4:6-7, Paulo nos diz que, ao contrário de andarmos ansiosos, devemos fazer “conhecidas diante de Deus” todas as nossas petições, “pela oração e pela súplica, com ações de graças”.

Deus conhece, de fato, todas as coisas, mas nem todas as coisas estão “conhecidas diante dele”, isto é, apresentadas, submetidas, expostas, entregues a Ele.

Quando nós levamos nossas petições a serem conhecidas diante de Deus nós podemos nos desapegar delas, nos despendemos delas, somos delas libertados. Deixamos todas aquelas situações nas mãos de quem tem o poder para resolvê-las, de quem nos ama e cuida de nós muito melhor do que nós mesmos. E, assim, encontramos a paz da submissão e da confiança.

Muitas vezes somos nós mesmos que retemos conosco nossas preocupações e ansiedades. Fazemos isso porque elas dizem respeito a “tesouros” do nosso coração, coisas que queremos, sonhos, expectativas, difíceis de entregar ou renunciar.

Quando as colocamos diante de Deus, deixamos tudo por conta do Seu cuidado e estamos nos dispondo a aceitar Sua vontade, que pode não ser igual a nossa.

O texto diz “pela oração e pela súplica”. Orar e suplicar são diferentes. Uma envolve mais a mente, a outra mais o coração. Quando oramos, utilizamos a razão, a argumentação, somos propositivos, descritivos. Quando suplicamos, expressamos nossos sentimentos, nossas emoções, nossos temores e expectativas.

Assim, devemos orar e suplicar, colocar todo nosso ser diante de Deus, pois essa é a postura da fé, que inclui a totalidade do que somos: razão, sentimento, inteligência, emoção, corpo, alma e espírito. Essa é a maneira como poderemos obter a paz de mente e também de coração!

Devemos nos lembrar, no entanto, de que, “a oração não muda Deus, mas transforma o homem que ora” (Kierkegaard). Quando oramos, expressamos nosso estado de filiação a Deus e vamos sendo moldados à Sua imagem, como filhos.

Assim, podemos não saber o que Deus vai fazer, mas sabemos quem Ele é, e é essa consciência potencializada pela fé que produz a paz que excede todo entendimento e que nos transforma em pessoas não ansiosas, mas espirituais. O resultado a ser buscado na oração e na súplica deve ser sempre esse encontro existencial com o Pai.

Como sabemos que nossa oração e súplica atingiram esse ponto? Sabemos que chegamos nesse santuário de adoração íntima quando, em meio a nossos pedidos e clamores, fluem as ações de graças, o louvor, a adoração.

Tendo colocado diante do Senhor nossas petições, embora não possamos compreender todas as coisas e ainda que não vejamos, de imediato, resultados externos, mas, no entanto, tendo sido tomados pela consciência da Presença soberana de Deus e do Seu amor, louvamos e agradecemos por Ele ser quem Ele é e por Ele nos tornar quem devemos ser, independentemente de tudo o mais.

Paulo não diz que nossas petições serão atendidas, mas nos assegura paz de mente e de coração! Paz na mente porque ainda que não tenhamos todas as respostas temos confiança no Deus que sabe todas as coisas; paz no coração porque o Seu amor lança fora todo o medo.

FSV/13.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Papéis, Personagens, Personalidade e Autofagia da Alma


Caros companheiros de jornada em busca da vida interior,

 
         Ainda como introdução ao tema da santidade da alma, tenho alinhavado alguns pensamentos sobre sinceridade e autenticidade, que compartilho com vocês.

Fernando

 
Papéis, Personagens, Personalidade e Autofagia da Pessoa

Fernando Sabóia Vieira

 
Filipenses 1:10 – “serdes sinceros e inculpáveis para o Dia de Cristo”

Filipenses 2:15 – “vos torneis irrepreensíveis e sinceros”

 

         Um dos mais pitorescos filósofos gregos da antiguidade foi Diógenes de Sínope. Tendo assumido uma vida de extrema pobreza, conta-se, vivia dentro de um barril. Durante o dia, passeava pelas ruas de Atenas com uma lanterna acesa. Segundo ele, estava à procura de homens verdadeiros.

         Tenho refletido, nesses dias, sobre sinceridade, autenticidade. Também estou em busca de homens verdadeiros, a começar por mim mesmo. Sou autêntico? Sou sincero? Expresso o que sou, creio, desejo e penso, ou estou sempre escondendo algo, sendo conveniente, me disfarçando, desempenhando um papel, agindo por medo ou vaidade?

         Os cristãos deveriam ser as pessoas mais autênticas e sinceras. Encontramos, nas Escrituras, muitas exortações nesse sentido. Deus se compraz “com a verdade no íntimo”, deve ser honrado não apenas com os lábios, mas com o coração, deve ser adorado em espírito e em verdade. De igual modo, devemos ter uns para com os outros um amor “não fingido” e celebrar nossa comunhão com os “asmos da sinceridade e da verdade”, recusando o veneno da hipocrisia farisaica.

          Mas, infelizmente, com demasiada frequência, não é o que acontece. De fato, tenho encontrado muitos que deixaram de ser pessoas e se tornaram apenas personagens: repetem frases feitas, chavões, palavras ocas, não expressam pensamentos ou sentimentos verdadeiros. Esses, tão somente, desempenham – representam – papéis. A verdadeira pessoa que eles são está oculta, perdida, abafada, consumida por uma artificialidade, um comportamento aprendido, superficial. Será preciso mais do que a lanterna de Diógenes para encontrar em qualquer deles sua pessoa autêntica. É uma tarefa para o Espírito que perscruta todas as coisas, até mesmo as profundezas da alma humana.

         Como acontece da pessoa vir a ser devora por um personagem dela mesma?

         Somos todos chamados a desempenhar papéis na vida. Começamos com os papéis naturais de filhos, irmãos, parentes, depois de amigos, pais, mães, profissionais etc. Na igreja, do mesmo modo, temos papéis a cumprir como irmãos, companheiros, discipuladores, líderes, pastores etc. Um papel significa um padrão, um conjunto de atitudes que devemos ter, tarefas que devem ser desempenhadas, qualidades a serem desenvolvidas, uma personalidade a ser moldada, um caráter a ser formado.

         O papel é um ideal que ainda não alcançamos e, por isso, ao nos esforçarmos para desempenhá-lo, acabamos, de algum modo, representando um personagem: o discípulo, o pai, a mãe, o irmão, o líder que deveríamos ser, mas que, efetivamente, ainda não somos.

         Talvez pudéssemos diferenciar desempenhar de representar um papel, considerando o primeiro o saudável exercício de responsabilidades e o segundo a artificialidade compatível com as artes cênicas, mas não com a vida real. No entanto, penso que, na prática, os dois aspectos tendem a se confundir: quando desempenho um papel, quase que inevitavelmente, em alguma medida, represento um personagem.

         Essa é a face exterior de um processo que deveria ser sempre comandado por sua dinâmica interior, da comunhão íntima com Deus e da presença vivificadora do Espírito Santo, única capaz de produzir uma verdadeira transformação do que somos naturalmente no que devemos nos tornar nEle, ou seja, de gerar identidade pessoal  autêntica, conformada com o propósito para o qual fomos criados, à medida em que buscamos desempenhar os papéis que Ele a nós nos destina.

         Quando, no entanto, o desempenho de papéis, vale dizer, a exterioridade, a funcionalidade, se torna o fator dominante na formação da personalidade e do caráter, ele assume o aspecto mais próprio da representação, e o personagem se torna antropofágico passando a consumir a pessoa, que pode vir a se tornar uma caricatura, uma versão falsa de si mesma. Essa dissociação da identidade, fracionada entre pessoa e personagem, pode vir a ser patológica, inclusive.

         É curioso notar como o personagem, com o tempo, conforma não apenas o comportamento e as emoções, mas modifica até mesmo o corpo, cristalizando posturas, expressões faciais, gestos. Não vemos pessoas que têm posturas sempre encolhidas, ou desafiadoras, ou apressadas ou indolentes, ou têm os rostos marcados por expressões de dor, de temor, de alegria?

Há nelas, quase sempre, certa artificialidade, uma desconexão da postura e da expressão com o momento e o ambiente. São as roupas e expressões do personagem que já está a encobrir a pessoa.

         A superposição do personagem em relação à pessoa pode ter como pano de fundo a consciência de nossa inadequação aos papéis de nós requeridos, de nossas fragilidades. O personagem é sempre definido, não oscila, faz o que esperam dele, repete as frases corretas, assume as posturas que lhe garantirão proteção, acolhimento, reconhecimento, poder etc. Assim, a pessoa é tentada a se esconder por debaixo do personagem e não percebe sua própria dissolução.

         Esse processo também pode ser alimentado pela culpa, pelo medo da rejeição, pelo desejo de aceitação, pelo instinto de autopreservação, pela necessidade de adaptação ao meio. Também sofremos as pressões da imposição de padrões de sucesso e de realização dentro e fora da igreja.

As modernas redes sociais midiáticas são grandes estimuladoras disso, pois possibilitam, na criação dos perfis, que cada um se apresente como personagem de uma história de vida construída com muitos elementos de artificialidade.

         Identificamos, desse modo, o que podemos chamar de dilema da transformação. Buscamos sempre desempenhar nossos papéis e nos tornar pessoas melhores. No entanto, nesse caminho, podemos nos perder e deixar de ser autênticos.


         Thomas Merton escreveu:

         “O homem é um ser livre que está sempre se transformando em si mesmo. Mas essa transformação nunca é meramente indiferente. Estamos sempre nos tornando melhores ou piores."

         Nós, cristãos, buscamos constantemente ser transformados à imagem de Deus e temos Jesus como nosso modelo. Mas ao viver uma vida de imitação do Senhor em suas palavras, obras, coração, atitudes e sentimentos, ao desempenhar nossos papéis, ao tentar alcançar o padrão de santidade de caráter que Ele nos requer, temos que ter o cuidado de estar sempre produzindo uma versão autêntica e verdadeira de nós mesmos, caso contrário podemos estar apenas representando um personagem que acabará por nos consumir a identidade pessoal.

         É muito importante lembrar que embora os padrões de vida, comportamento, compromisso, serviço e santidade requeridos por Deus sejam os mesmos para todos, sua busca e desempenho nunca nos tornará um exército de robôs homogeneizados e despersonalizados. Ao contrário, cada um de nós expressará de forma particular e única uma faceta da infinitamente multiforme natureza divina.

         O dramaturgo Luigi Pirandello (1867-1939) escreveu uma curiosa peça teatral intitulada “Seis Personagens à Procura de um Autor”, na qual um diretor de teatro tem suas sessões de ensaio invadidas por seis personagens que desejam ser aproveitados na peça.

         Talvez possamos daí imaginar um caminho de volta para aqueles que estão sendo consumidos por seus personagens: a busca do Autor da Vida, do nosso Criador, para que Ele nos dê autêntica identidade e verdadeiros papéis a desempenhar, que nos construam como pessoas.

         De todo modo, nossa integridade e autenticidade pessoal e a sinceridade e verdade do nosso caráter e comportamento só poderão ser alcançadas pelo caminho da busca da vida interior pelos indispensáveis passos do esvaziamento, do encontro com Deus, consigo mesmo, da regeneração produzida pelo Espírito Santo, do ser nova criatura.

 
         Brasília, janeiro/fevereiro de 2013, AD.

          Fernando Sabóia Vieira

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Amanheceres


 

A vida me envolve com penumbra e mistério

Enquanto espero coar

O primeiro café da manhã fria de chuva.

 

Nunca tenho fome a essa hora.

 

O dia tenta amanhecer na minha mente,

Com seus horários, agendas,

Filas e inquietações.

 

Eu tento prolongar, mais um pouco,

O lusco-fusco dessa madrugada da alma,

Que sossega na penumbra

E no silêncio, enquanto espera.

 

Na quietude silenciosa da primeira hora

- hora do Espírito e da poesia –

Ainda posso ouvir as vozes de seres e de mundos

Que logo serão abafadas pela ruidosa sensatez

Da vida comum.

 

 

Fernando Sabóia Vieira