quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Da Renúncia ao Encontro



    Companheiros de Jornada em busca da vida interior,

     Ainda medito sobre o caminho estreito e desértico da renúncia. Ao longo dos anos, percorri – e ainda percorro – muitos atalhos e veredas nessa jornada em direção ao Encontro e gostaria de compartilhar algo sobre alguns lugares escuros e escabrosos que encontrei – e ainda encontro – na minha alma peregrina.
     Devem ser eles tratados sempre como tentações a serem resistidas, inimigos traiçoeiros a serem evitados ou vencidos, caminhos maus do coração a serem aterrados, aplainados e retificados.
     Tratam-se, em verdade, de condições da alma que surgem a partir dos atos concretos e das posturas existenciais de renúncia. Não obedecem a uma sequência determinada e podem vários existir ao mesmo tempo. São antíteses do fruto do Espírito e caminhos para longe do Encontro com o Senhor que produz o Contentamento.
     Menciono, em primeiro lugar, o sentimento mais natural e que quase inevitavelmente acompanha a renúncia que é a dor da perda. Renunciar é perder, e perder, via de regra, dói. Quanto mais precioso e querido o objeto da renúncia, mais intensa a dor. O grande perigo aqui é transferir para essa dor a afeição que tínhamos ao renunciado e mantê-la viva em nós como uma espécie de tributo ao que se foi. Essa é uma maneira de não renunciar de coração.
     A dor da perda deve ser aceita como natural, sofrida com esperança e superada no devido tempo pela ação do Consolador. Se nos apegarmos a ela, perdemos a oportunidade do Encontro íntimo com o Pai por meio do Seu Espírito.
     Outra sensação comum é o medo do vazio. Muitas pessoas hesitam ou mesmo recuam diante da renúncia por temor de que ela seja simplesmente perda e anulação. Pensam que a vida poderá ser menos plena e que só lhes restará para sempre a falta do que abandonaram.
Embora a renúncia deva ser incondicional, é preciso lembrar que renunciamos para ter o Senhor, e que Ele é suficiente para preencher qualquer ausência ou perda.
Pode, nesse caminho, surgir sutilmente, em qualquer momento da vida, o desejo de compensação por aquilo a que um dia renunciamos. Esse desejo pode nos levar à tentação de providenciarmos nós mesmos as coisas que cremos nos fazerem falta, ou substitutos para elas, ou nos instigar a cobrar isso da vida ou dos outros, vale dizer, de Deus. Muitas pessoas desperdiçam suas vidas tentando recuperar em alguma versão “espiritual” o que renunciaram no primeiro momento do discipulado.
Novamente, para que a renúncia nos leve pelo caminho da vida interior, da comunhão com Deus, é preciso nos firmarmos na disposição de fazer do Encontro com Ele a fonte de toda nossa satisfação. Se o Senhor for nosso único bem, veremos com é muito linda nossa herança!
A dor, o medo e a frustração, se instalados na alma, produzirão um dos piores venenos espirituais que é o ressentimento. De tanto visitarmos esses lugares sombrios do coração e de sentirmos novamente aquelas emoções negativas podemos nos tornar pessoas cheias de mágoas, de ressentimentos.
O ressentimento é uma enfermidade letal para a vida interior e só pode ser vencido na Cruz. Ele é a contradição do amor de Deus encarnado na entrega do Filho e da Graça do Filho no Seu sacrifício por nossos pecados. Quando entendemos que renunciamos por causa d’Ele e para Ele e nos dispomos a receber sua Presença em nós não podemos continuar ressentidos com nada nem ninguém.
Pessoas ressentidas facilmente assumem a postura de julgamento das demais, do mundo inteiro e finalmente de Deus. Sua insatisfação com suas vidas e seus desejos não correspondidos fazem com seus egos cresçam e se projetem sobre tudo e sobre todos.
Quando renunciamos, renunciamos principalmente ao trono de nossas vidas, para que Ele seja o Senhor de tudo. Se nós mesmos somos d’Ele, o que temos a reivindicar? Essa convicção deve ser não apenas uma doutrina para nós, mas uma declaração existencial, concreta, diária.
Vamos deixar que Ele mesmo julgue quem deve ter o que, e quem deve viver sem ter o que.
     Mas, talvez, para alguns, a atitude principal não seja a de reivindicar ou julgar. Consideram-se mesmo indignos de qualquer bem ou consideração. Cuidado aqui. A renúncia não é uma penalidade que aplicamos em nós mesmos para aplacarmos nossos sentimentos de culpa. Quem procede assim, pode cair na armadilha da autocomiseração, que anula o propósito Deus para nós.
     A renúncia não nos faz vítimas de nada. Ao contrário, ela nos abre as portas das mansões celestiais onde estão escondidos todos os tesouros eternos. Ela nos torna pobres para podermos herdar o Reino.
     Finalmente, o pior dos inimigos, o mais enganoso e também o mais mortífero nesse caminho da renúncia: o orgulho espiritual.
     A renúncia não pode se tornar para nós um troféu de santidade ou a prova de nossa espiritualidade. Quando esse sentimento encontra abrigo em nosso coração abrimos suas portas para a presença do Inimigo. Não temos qualquer mérito se renunciamos à vida que era morte para assumirmos a morte d’Ele, que é vida. O Senhor nos ofereceu isso livre e graciosamente, sem qualquer condição ou requisito, a não ser a nossa também livre e completa entrega.
     Quando duas entregas livres e incondicionais se encontram, a d’Ele e a nossa, manifesta-se o amor de Deus, a força mais poderosa do universo, para promover o Seu propósito eterno no meio dos homens. Mas mesmo a nossa entrega é Ele quem a proporciona, por meio do Seu Espírito, que nos convence do pecado, da justiça e de juízo e nos revela o Seu amor paternal.
     A dor da perda, o medo do vazio, o desejo de compensação, o ressentimento, o julgamento, a autocomiseração, o orgulho espiritual. São todos esses lugares sombrios e inóspitos, onde a vida não pode florescer. Para que a renúncia seja Encontro e Contentamento é preciso que os evitemos a todo custo e, se porventura nos virmos em qualquer deles, rapidamente voltemos nosso olhar para o Senhor e exercitemos o poder da fé para prosseguirmos em direção ao Alvo para o qual fomos chamados.
     Caros companheiros de jornada, que possamos cada dia viver concretamente nossa renúncia a tudo para termos tudo n’Ele. Que essa renúncia produza em nós o Encontro íntimo com o Senhor, fonte de todo Contentamento.

     Na suficiente graça de Jesus,

     Brasília, DF, setembro de 2011, aD.

Fernando Sabóia Vieira

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Flores são eternas




Flores são eternas
Como os momentos que adornam
Como os sorrisos que afloram
Como as palavras que semeiam
Como os sentimentos que exalam
Como os sonhos que embalam

Flores são eternas
Porque passam e marcam almas eternas
Com lembranças de imagens e amores que não passam
Mesmo que passem os céus e a terra

Flores são eternas
Porque são preciosas quando riquezas são inúteis
São significativas quando as palavras são inadequadas
Porque são vida e sacrifício
Quando gestos são banais e efêmeros

Flores são eternas 
Porque podem dizer eternamente
“Eu amo você”
Em todas as cores e continentes
Formas e estações
                  
Flores são eternas
Porque, como a poesia, celebram a vida e a paixão
Em todas as nossas partidas e distâncias
Chegadas e encontros

Flores são eternas como nosso amor
Que sem nunca nos separar
A cada dia anos encontra
E nos encanta
Com improváveis floradas
Neste mundo indiferente e sem esperança


Fernando Sabóia Vieira, de “Crônicas do Reino”


quarta-feira, 21 de setembro de 2011

homens à procura de homens

procurem os homens perturbados
mas não pelo caos da vida
quebrados, não pelas lutas
embriagados, mas não de vinho
cegos, não pelas trevas
famintos, mas não de pão
sedentos, não de água
miseráveis
mas não por falta de bens

procurem homens que vagam
pela vida, perplexos,
em busca do que não conhecem
que falam palavras que não entendem
obcecados por um amor
que nunca encontraram
um amor imenso
alucinante
que não sabem de onde vem
mas que desejam ter
e que desejam dar

homens que não vêem mais
o mundo, que o mundo vai apagando
se esquecendo deles
poetas iletrados
profetas inacabados
gênios sem respostas
músicos sem harmonias
pintores sem cores
escritores sem histórias
pregadores sem palavras


Fernando Sabóia, de "Versos no Altar"

A Moça Que Tinha a Alma Turva



Eu lhe digo, moça, que as sombras
são ilusões
e que toda dor é sombra
do corpo projetada sobre a alma
que quer refletir o rosto
Iluminado do Ser.

A vida não é dia e noite,
a vida é tarde e manhã.
Não é a plenitude do sol
nem a supremacia das trevas.
A vida é um caminhar ao amanhecer
até que a Estrela da Manhã
brilhe sozinha no horizonte.

Esse é o seu tempo
da suprema coragem de brilhar
sempre, novamente, embora as sombras
e as dores.

- Brilhe, moça, caminhe para o amanhecer
e brilhe!


Fernando Sabóia

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Renúncia, Encontro e Contentamento


Fernando Sabóia, Bsb, set/2011, aD

         Companheiros de Jornada em Busca da Vida Interior,

         Estive meditando sobre esse aspecto tão fundamental da caminhada em busca da vida interior que é a renúncia. Ele já estava presente, sem dúvida, quando falamos sobre o desprendimento, pois que este supõe renunciar intimamente ao mundo e às coisas que lhe são próprias. No entanto, a necessidade de renúncia é tão evidente nas palavras de Jesus como decisiva para o discípulo que deve ser ela objeto específico de nossas considerações e atitudes acerca da espiritualidade que almejamos.
         O que é, essencialmente, a renúncia para o discípulo de Jesus e qual deve ser o seu fruto espiritual? Penso que a substância da renúncia cristã é o encontro com Jesus e seu fruto é o contentamento.
         Contentamento é uma condição espiritual que está além do ter ou não ter, da alegria ou da tristeza. Podemos estar contentes na abundância ou na carência de bens, materiais ou não, e podemos estar contentes a despeito da nossa inevitável parcela de dores e tristezas nesta vida.
         No entanto, o contentamento só é produzido em nós quando a essência da nossa renúncia é o encontro, e não a perda. De fato, no centro da renúncia cristã está o Senhor. É por causa d’Ele, por meio d’Ele        e para Ele que tomamos nossa cruz, negamo-nos a nós mesmos e a tudo renunciamos para seguir a Ele.
         Quando consideramos a renúncia apenas ou principalmente como perda nos lançamos num ascetismo estéril, sem esperança, onde a ausência e a dor são as condições finais de tudo. Não é cristã uma espiritualidade assim buscada e construída. Nós renunciamos porque fomos a isso chamados por Ele, para estar plenamente com Ele, sem quaisquer intermediações, nem de bens, nem de amores, nem mesmo da vida neste mundo.
         Esse encontro com Jesus, todavia, só pode ter essa plenitude e produzir seu fruto de contentamento quando ocorre num verdadeiro e imenso vazio existencial.
         A renúncia não é um ato acabado, exaurido num momento, mas, antes, uma condição que temos que assumir a cada dia em nossa jornada com o Mestre. Nesse caminho encontramos dificuldades, dores e tentações, mas também graça, livramento e alegrias.
         É inegável que a renúncia, como perda, dói física e emocionalmente. Ela suscita medos e temores, inseguranças e dúvidas. Depois, com o tempo, podem surgir mágoas, ressentimentos, invejas, desejos de compensação, cobranças, vinganças, murmurações. Autocomiseração, solidão.
         Eventualmente, poderá ocorrer a maior de todas as tentações da renúncia: o orgulho espiritual. Pessoas rigorosas consigo mesmas, que se impõem privações e renúncias em busca de distinção e destaque, terminam por cair no engano de se acharem melhores do que as demais e de julgarem a todos a partir de seus próprios padrões de pretensa santidade.
         Tudo isso é o oposto do desejado fruto do contentamento. Como será ele, então, produzido, se nossa débil e corrompida condição humana nos impele a sentir e agir tão diferentemente? E mais, quando consideramos que a renúncia demanda por Jesus vai além do ter para atingir o querer e o ser, como chegar a tal satisfação íntima?
         Com efeito, como cruz, a renúncia é perda concreta, existencial, íntima e exterior. Mas, se é uma renúncia ordenada por Deus, e não fruto de nossas debilidades ou fantasias espirituais, será ela sacrifício, cuja essência não é ser perda e dor, mas, sim oferta agradável Àquele a quem amamos.
         Assim, o propósito da renúncia para o discípulo não é o vazio e nem mesmo o encontro consigo mesmo, mas o encontro com o Senhor em quem há plenitude de vida e de propósito. E, nessa plenitude, estará o nosso contentamento, ainda que não sejamos capazes de dela desfrutar completamente nesta existência terrena.
         Cada coisa que renunciamos, bens, sentimentos, prazeres, dores, alegrias, direitos, sonhos, opiniões, relacionamentos, direitos, desejos, deve criar em nós um pouco mais de espaço a ser preenchido por Jesus, Seu Reino, Sua vida, Suas bênçãos.
         Se Ele é o nosso pastor, nada desejamos. Se Ele está conosco, nada tememos. Ele nos conduz à abundância e ao descanso dos pastos verdes e águas tranquilas. N’Ele temos segura esperança de alegria e júbilo eternos (Salmo 23).
         Quando o Senhor é nosso único bem, descobrimos quão bela e agradável é nossa herança, o quanto Sua presença nos protege, conforta, alegra e supre (Salmo 16).
         Aqui devemos nos lembrar: esse encontro com o Senhor acontece no lugar predileto, por Ele mesmo escolhido: dentro de nós, onde Ele deseja habitar.
         Nas renúncias grandes e pequenas de cada dia encontramos especial ocasião de intimidade com o Senhor, e n’Ele temos o contentamento que coloca em nossos lábios louvor, adoração e ações de graças.

         Graça de Jesus seja com todos.

         Fernando Sabóia Vieira





terça-feira, 13 de setembro de 2011

Amar e Buscar: Propósitos Divinos em Vidas Humanas


Para Gustavo e Rafaela, no seu noivado, quase primavera de 2011, aD.

O que buscam jovens que se encontram, se aproximam, se conhecem, se encontram e decidem se dar um ao outro para viverem juntos? A felicidade? Afeto? Realização como homem e mulher, pai e mãe? Companhia? Paixão? Compaixão? Aventuras? Conquistas? Refúgio? Ânimo? Alegria?
Tantas coisas buscamos ao mesmo tempo nesse passo da vida e nenhuma delas responde plenamente a essa pergunta. Nem mesmo todas elas juntas! O que de fato procuramos, creio, está incluído em tudo isso e vai ainda muito além, em direção a um propósito eterno, criacional e final, escondido no coração de Deus e revelado na Sua Palavra.
Buscamos identidade, significado, sentido, valor, vida, comunhão. Ao longo da existência, descobrimos que amar é essa busca compartilhada, confiada ao outro, comprometida com o outro, exposta, encarnada e finalmente libertada pelo encontro.
Amar é traduzir, nessa busca cotidiana, cada palavra, cada sentimento, cada gesto, cada momento, cada alegria e cada dor numa linguagem superior, mais essencial, mais profunda, capaz de transcender a si mesma em direção a sua fonte divina, de onde vem e para onde retorna, num ciclo presente incessante.
Escrevi, há muitos anos, quando tinha ainda menos idade do que vocês, esses versos simples, e acho que mesmo agora não consigo dizer melhor, embora saiba hoje mais sobre o significado e o poder dessas palavras inesgotáveis:


Tua Imagem


Amar é fazer
De toda frase
Verso
De toda oração
Gesto

Servir é trazer
Em cada verso
Mensagem
Em cada gesto
Tua Imagem

Amor é frase
Verso
Mensagem

Culto é oração
Gesto
Tua Imagem

O amor nasce quando verdade, poesia, oração e gesto vão se tornando expressão de uma mesma busca. O amor cresce e se fortalece quando isso se revela como serviço e como manifestação da Presença do Senhor em cada momento. O amor acontece plenamente quando a procura se torna encontro e em tudo está a Imagem do Deus que tudo ama.
Vida e culto se unem nessa busca que é o amor, produzindo sentido, significado e contentamento na comunhão com o Pai, um com o outro e com os outros, porque o amor é sempre inclusivo.
Esse é o tempo de vocês aprenderem o amor como busca, caminho, escolhas, semeadura, renúncias, encontros, perdas, lutas, decepções e celebrações.
Lembrem-se, no entanto, de que enquanto nossas grandes decisões determinam para onde vamos, são nossas atitudes nas pequenas coisas de cada dia que revelam quem somos e moldam em quem estamos nos tornando.
Tenham, pois, sempre, como propósito aprender cotidianamente a ter o mesmo sentimento (atitude, disposição interior, modo de pensar) que houve em Jesus e, diante um do outro, busque, cada um, se esvaziar, se mostrar humano, ser servo e exercitar o perdão, a misericórdia, a graça, a bondade, e a lealdade, que são as grandes avenidas pavimentadas pela humildade e que nos ligam ao coração amoroso do nosso Pai. Andem nelas!

Hoje, celebramos o amor de vocês!

Que a luminosa e suficiente Graça de Jesus seja com vocês todos os dias.

Fernando, BsB, DF, 10 Set 2011, aD.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

BAÚ do Fernando Sabóia: Orações do Cotidiano

BAÚ do Fernando Sabóia: Orações do Cotidiano: Tenho apenas hoje Minha vida é um breve instante, uma hora que passa, minha vida é um momento que eu não tenho o poder de reter. Tu sabes,...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Cesta Básica

Penso que uma coisa importante na vida é sempre saber distinguir o essencial do supérfluo. Assim, compartilho a minha “Cesta Básica”. Não custa caro, embora alguns itens passem às vezes por períodos de entressafra...



Cesta Básica

Café
com poesia
Pão
com romance
Feijão
com fantasia

Amor
de todo dia
Fé
em cada lance
Amanhã
com alegria


Fernando Sabóia, de “Café com Poesia”.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Encontros Cariocas


I – o marinheiro


Trazemos cicatrizes, meu velho,
não tantas no corpo
quantas nas palavras
nos olhares
e nos sentimentos.

Pesa-nos o que não teremos
nem seremos,
mais do que o que fizemos
e nos tornamos:
é a curva da vida
na linha do horizonte no mar
a já nos dar vistas
da nova terra
sob um novo céu.

Mas quando conversamos,
caminhamos juntos,
por entre as memórias
das antigas guerras
da velha cidade
o tempo se esquece de nós
e sabemos que somos seres eternos
numa travessia pelas agitadas ondas
da contingência e da efemeridade.

Nunca fui do mar,
mas navegaria com honra e coragem
sob seu comando.

- Que os ventos do Espírito
soprem sempre a seu favor, meu Capitão!


Fernando Sabóia

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O CHAMADO DE JESUS PARA SER DISCÍPULO

Mateus 4:12-22; Marcos 1: 14-24; Lucas 5:1-11

        
         A cena é de uma simplicidade comovente e confortadora: Jesus encontra homens do povo, trabalhadores, envolvidos com suas prosaicas tarefas diárias. Ele os chama para O seguirem, sem lhes dar quaisquer motivos ou explicações. Não faz concessões de nenhum tipo, exige uma obediência imediata. Aqueles que ouvem o chamado, de imediato, abandonam seus afazeres, suas famílias, seus relacionamentos, sua cidade, seu lugar na sociedade, seus planos de vida, sua religião, seus conceitos e O seguem para viverem o Reino que lhes é anunciado, arrependidos, convencidos do próprio pecado e rebeldia. Vencidos por Seu amor e graça, renunciam a tudo, até à própria vida, e O seguem, sem saber a onde essa decisão os levaria.
         Meditando sobre a natureza e as conseqüências desse chamado, não apenas nas vidas daquelas pessoas que o ouviram de viva voz do Senhor, nas ermas paragens da Galiléia do primeiro século, mas também nas experiências de muitos que o temos ouvido, por todos os lugares do planeta, nesses dois milênios, pela pregação dos profetas de Deus e pelo ministério do Espírito Santo, quatro aspectos ou implicações da convocação de Jesus para segui-lO têm ocupado meu pensamento e orações.
         Quero enunciá-los de pronto, para depois compartilhar o que Deus tem me falado sobre cada um deles: o chamado de Jesus produz solidão; o chamado inclui na comunhão; o chamado envia ao serviço; e o chamado transforma.
         Essas implicações paradoxais e exigentes do chamado de Jesus produzem, na vida do discípulo uma constante reflexão e busca. Devem acompanhá-lo a cada instante, produzindo oração, quebrantamento, dependência do Pai.

         “Como é possível essa seqüência imediata de chamado e obediência?... Porque para essa seqüência de chamado e obediência só existe uma razão válida: Jesus Cristo... O chamado ao discipulado é, portanto, comprometimento exclusivo com a pessoa de Jesus...”
         Dietrich Bonhoeffer, “Discipulado”

O chamado de Jesus produz solidão. Lucas 9:57-62, 14:26-33.

         Quando Jesus nos chama ele nos desconecta de nossos vínculos e pertencimentos naturais: relacionamentos, cultura, valores, posição social, profissão, projetos de vida, sonhos, bens. Somos completamente desencaixados de tudo o que nos dava conforto, segurança, realização e um sentido aparente à vida.
         As próprias leis da natureza são suspensas e não se aplicam mais da mesma forma.
         Até de nós mesmo somos afastados, de nossa própria vida e identidade. Não somos mais quem pensávamos que éramos, não nos pertencemos mais.
         Jesus não aceita qualquer tipo de intermediação entre Ele e a resposta ao chamado, nem espiritual, nem moral, nem social e nem mesmo psicológica.
         Ele não nos dá razões ou convencimentos emocionais. Somos apartados de nossos parâmetros de decisão e de nossos sentimentos e levados à dimensão da fé, que é operada pela manifestação da autoridade suprema de Deus, que reivindica Sua posição diante do ser criado, e pelo obediente reconhecimento deste daquela autoridade.
         Assim, o chamado de Jesus ao discipulado provoca uma crise, nos leva a um deserto, a uma completa solidão. É certo que em seguida nos incluirá na comunhão dos discípulos, da família de Deus, mas não devemos nos esquivar da contundente confrontação pessoal e solitária a que o Senhor nos leva quando nos chama e na qual nos mantém, enquanto nos dispusermos a seguí-lO.
         O deserto é necessário por ser o lugar da intensa e exclusiva comunhão com Deus. O Senhor precisa nos separar de tudo o mais, nos despojar completamente, para que possamos estar diante dEle como Ele nos criou e nos vê: despidos de tudo, sem conceitos, sem pretensões, sem passado, sem pertencimentos, completamente livres e totalmente dependentes do único relacionamento que subsiste: o de criatura e Criador, que pode se tornar, dali em diante, de Pai e filho. Esse esvaziamento é absolutamente imprescindível para que possamos pertencer exclusivamente a Ele.
         Esse é o movimento duplo da santificação: afastamento e reencontro, renúncia e consagração, perda e ganho, confissão e perdão, condenação e justificação, morte e vida, lei e graça.
         Podemos ver isso na vida de Jesus. A Sua perfeita comunhão com o Pai o levava a constantemente se retirar para lugares desertos e ali orar e ouvir a Deus. Antes, o povo de Israel havia sido tratado na pedagogia do deserto. Do deserto o Senhor chamava Seus profetas na economia da Velha Aliança, até o último e maior deles, João Batista.
         Precisamos ter claro que o chamado de Jesus e suas implicações nos acompanham toda a vida. Fomos chamados pelo nome, individual e particularmente, e aquela solidão absoluta, aquela renúncia completa que marcou nossa conversão precisa ser renovada constantemente para que possamos ter uma vida de comunhão plena com o Pai.
Temos que voltar, cada dia, a esse lugar solitário de adoração e santificação. Foi ali que fomos achados e resgatados, libertos de nossas fantasias e pecados e salvos da condenação de nossa vida rebelde contra Deus. Ali, fizemos com Ele uma aliança e entregamos nossa vida, nossos direitos, nossa honra, imagem. Tudo colocamos em Suas mãos. Ali, Ele se tornou precioso para nós, como um tesouro oculto no campo, como uma pérola única. Ali, fomos completamente conquistados por Seu amor e graça. Ali, nos comprometemos com Seu Reino e vontade. Ali nos esvaziamos para sermos cheios dEle.
       Quando não retornamos a esse lugar, quando deixamos de estar a sós com o Senhor nessa solidão e deserto a que Ele nos chama, não nos esvaziamos e permanecemos cheios de nós mesmos e de nossos conceitos e vontades. Retomamos o controle e o cuidado de nossas vidas, voltamos a buscar segurança, conforto e sentido no que fazemos, nas circunstâncias da vida, nas obras dos homens, nos relacionamentos que nos são caros.
Fazendo isso, perdemos o sentido, a motivação, a alegria de segui-lO. Tudo nos parece difícil e pesado. Não há poder nem graça em nossas vidas, pois o Reino de Deus só chega a nós a partir do nosso encontro com o Rei, e nele apenas permanecemos na medida em que continuamos em Sua presença.
Nos momentos críticos e decisivos da vida é na nossa solidão diante de Deus que nós nos encontramos, nos fundamentamos e nos mantemos íntegros, nas provações e nas alegrias. É no altar dessa Presença que oferecemos nossas ansiedades como oração e súplica e nosso júbilo como louvor.
Precisamos ter nossos lugares e momentos de particular e íntima comunhão com o Pai, para onde sempre voltamos para orar, conversar, chorar, celebrar.
Embora Deus esteja em todo lugar, não estamos o tempo todo diante dEle da mesma maneira. Assim, é preciso buscar a Deus, mesmo que, pela fé, já saibamos que O temos. Aliás, ensinam os pais da Igreja, é justamente por isso que podemos buscá-lO, porque Ele mesmo já se deu a nós, pois do contrário inutilmente inventaríamos ciências, filosofias, ritos, religiões e sacrifícios, sem jamais encontrá-lO.
E essa busca de Deus deve ter princípio, direção e sustento em nossa comunhão pessoal com Ele, em momentos e lugares que a Ele consagramos como altares erguidos em nossa peregrinação pelo deserto. Deus anseia por esses encontros, e deles tem saudades, quando nós nos afastamos, quer por rebeldia, quer por envolvidos com os cuidados do mundo ou mesmo atarefados com a obra do Reino.
Jesus nos disse para buscarmos a recompensa do “Pai que vê em secreto”. Ali está toda a satisfação e graça de Deus: na esmola escondida, no jejum discreto, na oração a portas fechadas. Boas obras, sacrifício e devoção prestados apenas a Ele, para Sua exclusiva glória e inteiro agrado.
Se não temos o hábito de estarmos a sós com Deus, ou se, na nossa vida agitada, cheia de atividades e de interações nos distanciamos e perdemos o caminho para nosso lugar de comunhão solitária, ou, ainda, se o chamado de Jesus começa a nos parecer distante, preso a um passado que nos dá nostalgia, mas que não repercute hoje, então precisamos desenvolver de novo algumas disciplinas associadas à solidão. Mencionamos algumas que podem nos ajudar a encontrar ou reencontrar nossos altares no deserto.
Disciplina do silêncio. Deus fala aos silenciosos. Quando sossegamos e calamos nossas vozes interiores, entramos no santo silêncio da maravilhosa e temível presença de Deus e nos preparamos para ouvir.          Os tagarelas estão por demais cheios de si mesmos e de mundo para poderem escutar o Espírito. Disciplina da contemplação. Somos transformados naquele cuja imagem contemplamos. Embora possamos contemplar nos encontros públicos, ou mesmo em qualquer hora ou lugar, é no nosso tempo reservado que aprendemos a admirar e amar as virtudes de Deus, e somos confrontados por elas. Disciplina da meditação. Não apenas ler e compreender a Palavra, não apenas lembrar-se dos preceitos e verdades de Deus, mas deixar que o Espírito as faça penetrar profundamente na nossa mente e coração, nos enchendo com Sua Presença e poder.

O chamado inclui na comunhão


É o estar a sós com Deus que nos prepara e orienta para a comunhão. É a partir do nosso encontro solitário com o Senhor que somos devolvidos à sociedade dos homens e aos negócios do mundo, que reencontramos nossos vínculos, relacionamentos e atividades. Contudo, agora como alguém que não pertence mais a si mesmo, que esteve na presença do Deus Altíssimo e foi por ele enviado, dado às pessoas como servo do Reino.
Todos os nossos relacionamentos, afetos e atividades são, desde então, mediados e condicionados por nossa comunhão com Ele, em solidão: é em Cristo que nos conhecemos, é nEle que permanecemos ainda neste mundo e é por Ele que falamos e vivemos.
         Vamos, pois, para a comunhão, vazios de direitos, reivindicações e pretensões. Ao contrário, nos encontramos com os homens na condição de seus devedores por amor a Cristo. É com o Senhor que resolvemos nossos problemas e questões de relacionamento.
         Acertados com Ele, nos voltamos uns para os outros e pedimos perdão e restituímos, perdoamos e abençoamos, nos reconciliamos, nos suportamos, nos amamos como o Senhor nos amou, nos auxiliamos com as cargas uns dos outros, para que todos sigamos a caminhada após Ele.
Quando nos parece difícil o relacionamento com alguém, precisamos voltar a estarmos a sós com Deus, para novamente nos esvaziarmos de nós mesmos e sermos cheios dEle. Assim, nos reencontrarmos com nosso semelhante, marcados pela Presença e pela Palavra do Senhor, por Seu amor e graça, como seus portadores de Seus dons e testemunhas de Seus feitos. Vasos vazios e santos, prontos para serem cheios do tesouro da revelação de Deus e da vida de Jesus.
Se não procedemos assim, violamos a comunhão na Igreja, usando-a para nossos próprios interesses e conforto emocional, dando lugar a nossas preferências e sentimentos, formando nossos partidos e nos encastelando em nossas razões, opiniões e direitos. Vivemos uma geração que tem uma mentalidade reivindicatória, consumista, individualista. Só nosso encontro a sós com o Senhor nos livra da tirania no nosso ego, levando-o à cruz, e nos abre as portas da comunhão espiritual em Cristo, que se fundamenta na Graça repartida a cada um em seu encontro pessoal e solitário com Ele.
“A comunhão cristã não é sanatório espiritual. Quem se associa à comunhão por estar fugindo de si mesmo, abusa dela, usando-a para conversação e divertimento, por mais espiritual que isso possa parecer.”
“A pessoa que não suporta a solidão deve tomar cuidado com a comunhão.”
“Se não queres ficar sozinho rejeitas o chamado de Cristo e não terás parte na comunhão dos eleitos.”

(Dietrich Bonhoeffer, “Vida em Comunhão”)


“somente andando nos lugares desertos
de sua própria alma
é que pode um homem tornar-se
verdadeiro amigo de Deus”

(de “Veredas no Deserto”) 




O chamado envia ao serviço



         Jesus veio para servir. Ele, o maior de todos, fez-se servo de todos. Os discípulos do Senhor são chamados para uma vida de serviço, pois não há outro modo de seguir ou imitar o Mestre.
         O serviço me mantém no meu lugar, afasta-me do trono, lembra-me continuamente de quem eu sou e de qual o propósito da minha vida.
         O servo não controla a própria existência, não tem agenda pessoal, direitos, preferências. Sua vida é totalmente dependente do seu Senhor, a quem busca unicamente agradar. Muitas vezes nos esquecemos disso. Vivemos vidas agitadas, cheias de compromissos, de obrigações e de projetos. Talvez tenhamos muitos sonhos, talvez sequer tenhamos tempo para sonhar, envolvidos com nossas tarefas. No entanto, se somos discípulos, somos servos e, nessa condição não vivemos para nós mesmos.
         Proclamação e edificação, socorros, ajudas, diaconias, serviços são partes do que somos, conseqüências do nosso chamado e conteúdo da nossa comunhão.
         Não há chamado sem serviço e não pode haver comunhão sem serviço. Somos servos do Senhor e servos uns dos outros. Sem serviço a comunhão não produz a vida de Jesus. Torna-se teórica, vazia, sem alegria e sem frutos.
         Nosso principal serviço em relação ao mundo é sermos sal e luz, proclamadores das virtudes de Deus, do Seu reino. Se somos seguidores de Jesus temos que nos perguntar continuamente onde Ele estaria, o que estaria fazendo se estivesse fisicamente neste mundo.
         O servo não distingue tarefas comuns ou nobres. Quem faz essa distinção já não é servo, mas senhor da obras. Quando servimos, o que nos importa é o Senhor, e não a tarefa.
        

O chamado transforma


         Estar com Jesus transforma. A comunhão com o corpo transforma. O serviço transforma.
         Não ser continuamente transformado é doentio, é sinal de que algo não está bem em nossas vidas. O Senhor está continuamente empenhado em nos levar à completa estatura de Cristo, a sermos santos e irrepreensíveis.
         Essa transformação começa no momento da conversão e deve prosseguir todos os dias da nossa vida. Trata-se de abandonar os vícios adquiridos e desenvolver as virtudes de Jesus. Mudar comportamentos, sentimentos, pensamentos, propósitos, hábitos.
         Fazemos muitos planos quanto ao futuro em relação a nossos planos de vida, profissão, filhos etc. Temos que ter também alvos a respeito da nossa santificação, do nosso crescimento espiritual. Como eu quero ser daqui a alguns anos? O que o Senhor quer mudar em mim?
         Andar com Jesus transforma. A Sua companhia é desafiadora e poderosa. Suas palavras produzem vida e virtude.
         “Vinde a mim ... aprendei de mim...” . Ir até Jesus implica aprender com Ele. E a primeira lição é essa: mansidão e humildade (Mateus 11:28-30).                                                                                         


Fernando Sabóia, de “Crônicas do Reino”.






sexta-feira, 22 de julho de 2011

Cuidado

"Não culpes o demônio por tudo o que vai mal. Muitas vezes o homem é seu próprio demônio." Sto. Agostinho

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Interioridade

"Quando o homem despreza a Deus por amor de si mesmo, não permanece em si, é expulso de si. Torna-se um exilado do seu coração por renegar seu verdadeiro ser e viver fora de seu próprio íntimo. Ao entregar seu amor ao que não é seu, se distrai, se dissipa e se esquece de si mesmo." Sto. Agostinho

quarta-feira, 20 de julho de 2011

terça-feira, 19 de julho de 2011

Virtudes

"É mais fácil simular virtudes do que possui-las. Por isso o mundo está cheio de farsantes." Sto. Agostinho

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Esperança

"Toda a minha esperança se estriba em tua misericórdia. Dá-me, Senhor, o que me pedes e pede-me o que quiseres." Sto Agostinho

sábado, 16 de julho de 2011

UM POUCO DE THOMAS À KEMPIS (1380-1471)

Imitar Cristo e Desprezar Todas as Vaidades Terrenas


“Aquele que me segue, não anda em trevas”, diz o Senhor (João 8:12). Por essas palavras de Cristo somos admoestados a imitar Sua vida e Seus hábitos, se quisermos ser verdadeiramente iluminados e libertos de toda cegueira do coração. Que nosso principal esforço seja, então, estudar a vida de Cristo!

O ensino de Cristo é mais excelente do que todo o conselho dos santos, e aquele que tem o Seu espírito encontrará aí um maná oculto. Agora, há muitos que ouvem com freqüência o Evangelho, mas dão pouca importância a ele, porque não têm o espírito de Cristo. No entanto, quem quer que queira entender plenamente as palavras de Cristo deve buscar moldar toda sua vida pela de Cristo.

Quem benefício há em falar eruditamente sobre a Trindade se, carecendo de humildade, você desagradar a Trindade? De fato, não é a erudição que torna um homem santo e justo, mas uma vida virtuosa o faz agradável a Deus. Eu prefiro sentir contrição, a saber, como defini-la. Pois o que nos aproveitaria saber de cor toda a Bíblia e os princípios de todos os filósofos se vivermos sem a graça e o amor de Deus? Vaidade de vaidades e tudo é vaidade, exceto amar a Deus e servir a Ele somente.

Essa é a grande sabedoria – buscar o reino dos céus desprezando o mundo. Portanto, é vaidade procurar riquezas que perecem e nelas confiar. Também é vaidade buscar honra e ser enfatuado de orgulho. É vaidade seguir as paixões lascivas do corpo e cobiçar coisas pelas quais severo castigo certamente virá. É vaidade aspirar a uma vida longa e pouco se preocupar em ter uma vida bem vivida. É vaidade se preocupar apenas com o presente e não fazer provisão para as coisas que virão. É vaidade amar o que rapidamente passa e não olhar para adiante onde habita a alegria eterna.

Lembre-se sempre do provérbio: “o olho não se sacia de ver nem o ouvido de ouvir”. Busque, muito mais, afastar seu coração do amor pelas coisas visíveis e volte-se para as coisas invisíveis. Pois aqueles eu seguem suas próprias paixões malignas maculam suas consciências e perdem a graça de Deus.

Thomas à Kempis, Imitação de Cristo, Capítulo I


Tradução de Fernando Sabóia Vieira, do texto disponível no sítio da Christian Classics Ethereal Library
(www. ccel. org)

terça-feira, 12 de julho de 2011

Conversas de inverno com Jesus

I

Não sei como fui parar tão longe
Como acumulei tantos silêncios
Como pude me esquecer de você
Tantas vezes
Quando o amo com todas
As forças da alma

Agora estou completamente preso
E só
Não tenho razões
Ou desculpas

Traz-me, Jesus, tão perto
Guarda-me, Jesus, tão dentro
Que eu possa ouvir teus sussurros
Sentir teus pensamentos
Chorar tuas dores
Sorrir tuas alegrias

.....................................................................................................

IV

Quando o dia amanhece
E a luz se espalha
Suavemente no horizonte
Ainda que a noite permaneça fria
E escura na minha alma
Eu inspiro a Tua Presença com o ar novo
Da madrugada e sei

Sei com absoluta e intransitiva certeza
Que Tu sabes todas as coisas
Que o teu conhecimento e sabedoria
Revestem de glória a natureza
O drama e a comédia humanos
As minha dúvidas, dívidas e humores

Saber que Tu sabes
É o quanto me basta para viver
Este dia em que não sei
Mais nada


Fernando Sabóia

De "Meu Caminho Coberto de Flores de Ipê Roxo"

terça-feira, 5 de julho de 2011

Relacionamentos, Mídia e Pós-Modernidade: Do Maniqueísmo à Reflexão


Irmãos queridos,

Um novo mundo surgiu nas últimas décadas. Posso não gostar de tudo o que ele traz, mas não tenho como impedi-lo de existir. Ele acontece agora, está presente e é inevitável. Escolher não participar dele passa a ter um custo muito elevado. Para os nossos filhos e netos ele é natural, é o mundo que já encontraram quando nasceram.
Assim, penso, nós, mais velhos, temos que fazer um esforço para escapar da tentação maniqueísta de classificar todas as inovações que nos assustam como “más”, em comparação com as práticas do passado, que eram “boas”, e refletirmos sobre esse novo estágio civilizatório, se queremos que nossa mensagem e mesmo nossa vida tenham algum significado, relevância ou impacto para esta geração e para aquela que já surge em seu meio.
Esse novo mundo é global, midiático, tecnológico, rápido, intenso, plural e massificado. Isola, desencaixa as pessoas e, ao mesmo tempo, as aproxima, lhes propõe uma diversidade de possibilidades. Distâncias são relativizadas pelos meios tecnológicos de comunicação e de transmissão de informações. Assim, conceitos de identificação, pertencimento e participação devem ser necessariamente revistos.
Um aspecto sobre o qual é fundamental refletir nessa nova ordem é com relação aos efeitos que tudo isso tem nos relacionamento. As novas tecnologias de comunicação, as mídias eletrônicas, sítios de relacionamento, comunidades virtuais, a troca intensa e rápida de informações pessoais, qual o impacto de tudo isso nos relacionamentos? Facilitam? Dificultam? Tornam-nos mais ou menos pessoais? Continuam as relações humanas sendo essencialmente as mesmas, ou estão se modificando na modernidade? Em que medida a mídia configura os relacionamentos? Relacionamentos midiáticos podem ser tão autênticos quanto os presenciais?
Relacionamentos sempre foram mediados por tecnologia e por convenções sociais – linguagem, costumes, espaços de convivência etc. No que as novas tecnologias diferem das tradicionais? Qual o papel das convenções sociais nesse contexto? Como isso interfere nos relacionamentos?
O que torna um relacionamento autêntico, pessoal, significativo, íntimo, produtivo, edificante? O quanto o fator presença é decisivo para isso? Pode uma amizade, por exemplo, ser desenvolvida à distância?
Quais os efeitos da intensidade e velocidade das comunicações modernas? E dos limites e características impostos pela mídia usada? Por exemplo, o empobrecimento da linguagem em favor de outros símbolos, o uso intenso de imagens, a conversa coletiva, as postagens públicas, as comunidades virtuais.
Como lidar com a grande quantidade de informações expostas? Como interpretá-las? Até que ponto são personagens e até que ponto são autores? O que uns revelam sobre os outros?
Seriam os grupos, comunidades, tribos etc do mundo virtual uma maneira de recompor a fragmentação e o desencaixe da vida pós-moderna? Ou, ao contrário, aprofundam esses fenômenos ao criar um espaço alternativo dissociado da "realidade"?
            Afinal, as pessoas buscam identidade, pertencimento, prazer e significado, mas vivem em meios sociais desestruturados, massificados, impessoais. A não identificação com o próximo, ou a rejeição dessa identificação, faz com que se busque isso com o "distante", com quem, no entanto, se tem mais contato do que com o "próximo", embora um contato mediado pelas novas tecnologias. Quais as caraterísticas de relacionamentos formados assim? Cumprem os propósitos almejados?
É possível usar a mídia positivamente, em prol do reino, para desenvolver relacionamentos edificantes, para proclamação do evangelho? Que cuidados são necessários? Que vantagens há? Que limitações?
Trago muito mais perguntas do que afirmações com o propósito mesmo de despertar a reflexão. Talvez haja outros que, como eu, estavam com certa indisposição maniqueísta em relação a esse tema, como a outros colocados na pauta pela modernidade. Mas temos que discernir os novos tempos e encontrar maneiras de cumprirmos nossa missão até o Dia do Senhor.
Que a graça de Jesus seja com todos.

Fernando Sabóia Vieira
Brasília, 2011, AD.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os ipês roxos florescem em junho



I

Como não pensar em tudo
E deixar a mente vazia
À procura do sentido
E do sentimento
Da emoção, da beleza
E do momento?

Tudo foge
E tudo se encontra
Nesta inesperada e fria
Manhã de chuva fina
Em pleno junho

Uma serenidade úmida me envolve
Abraça todas as coisas
Com ares de inverno me comove

Me enche de pensamentos fluidos
Recortados
A vida revela seus segredos dúbios
Encantados

II

Emoções emprestadas
Historias contadas, vividas
Sonhadas
Na delícia das despedidas
Cheias de reencontros

Tudo na vida são os gemidos
Das almas rompendo a mudez
Desses corpos vazios
Enchendo os sons de sentidos
De novos mundos
De lendas e lugares perdidos

III

Longas pausas
Suspendem o tempo
E o pensamento

A eternidade
Traz pleno o vento
E o momento

O céu absurdamente azul
O planeta teimosamente verde
As flores rebeldes e coloridas

IV

Amar é escolha
E encontro
Fatalidade e decisão
Sonhar a realidade
E viver o sonho

Amar é começar
Como se continuasse
É se perder onde se está
É se encontrar
Onde nunca se esteve

Amar é saber
Que esses olhos são os únicos
Que te dizem tudo
Que te importa que brilhem
Que podem te achar
Quando a nuvem escura
Já encobriu céus e terra


Fernando Sabóia
De "Meu Caminho Coberto de Flores de Ipê Roxo"

terça-feira, 28 de junho de 2011

50 ANOS

I


Mais silenciosos
Do que o esperado

Como uma pausa
Como se cruzasse um portal
Entre mundos e eras
Como se tudo tivesse sido apenas
Uma longa introdução

Perdi coisas
Que nunca tive

Futuros que não aconteceram
Passados inexistentes

Ganhei coisas
Que sempre tive

Passados vividos
Futuros encontrados


II


Perdeu-se o tempo
Da simplicidade
De ser ingênuo ou herói

Saber é um caminho
Sem volta
Pensar é um vício
Sem cura

Agora
O caminho
Se torna peregrinação
E o tempo
Apenas uma possibilidade


III


Faço perguntas
Cada vez mais humanas
Em busca de razões
Cada vez mais divinas

Obtenho cada vez menos
Respostas

Mas tenho, cada vez mais
A silenciosa companhia
Da Palavra
Da Palavra plena
E transitiva em si mesma


IV


Translúcido
Transparente
Completamente atravessado
Vazado
Sem opacidades
Sem toldos

Não consumido
Não obliterado

Refratado
Decomposto
Reposto
Integrado

Seus olhos, Seus olhos
Como chamas de fogo...



Fernando Sabóia

De "Meu Caminho Coberto de Flores de Ipê Roxo"

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Comentário fotográfico da Ana Quésia, gaúcha/brasiliense "exilada" em São Paulo, sobre os crepúsculos de Brasília.