domingo, 22 de fevereiro de 2026

“ENLATADOS”?

 

Uma crônica de Carnaval

 

 

“Não vos ajusteis a este mundo, e sim transformai-vos com uma mentalidade nova, pra discernir a vontade de Deus, o que é bom, aceitável e perfeito” (Romanos 12:2, BP).

 

         Neste Carnaval, com aval presencial e expresso do governo federal e vinculação com uma ideologia e um projeto de poder político, uma escola de samba exibiu em seu desfile uma ala em que representava famílias rotuladas como “tradicionais”, “neoconservadoras” em latas de conserva - “famílias em conserva” - numa clara referência depreciativa e agressiva dirigida, principalmente, ao segmento cristão da sociedade que defende valores morais diferentes daqueles propagados pelos que se identificam como de esquerda.

 

         Uma reflexão inicial a que esse fato grotesco nos remete é quanto à distinção que devemos fazer entre a nossa fé cristã e as rotulações culturais e ideológicas que nos são impostas na presente geração.

 

Quando nos dizemos cristãos, estamos nos referindo, essencialmente, a nossa fé, ao Reino de Deus, a uma escolha de vida renovada e transformadora experimentada a partir de um encontro com o Senhor e a um compromisso com Sua vontade revelada nas Escrituras Sagradas.

 

Podemos ser eventualmente identificados como tradicionais do ponto de vista da sociedade em determinados lugares e momentos da história em que o cristianismo teve longa influência nos valores e na cultura. Certamente, não somos considerados “tradicionais” no mundo islâmico ou hinduísta!

 

Conservadores ou neoconservadores é uma rotulagem proveniente da sociologia e da política, sem fundamento direto nos postulados da nossa fé cristã. Nos nossos dias, principalmente, tem sido usada na arena eleitoral como estratégia de influência e de captura de apoio nas disputas de poder.

 

 

 

Embora esses aspectos estejam bastante interligados, especialmente quando vemos uma exposição pública desse tipo, devemos manter essa distinção clara para não sermos contaminados pela mentalidade do presente século que os considera de modo tendencioso, malicioso e sofístico. 

         

Diante das repercussões dessa alegoria carnavalesca grotesca e tendenciosa, talvez devamos, inicialmente, considerar se somos nós mesmos que nos alienamos, que nos “enlatamos”, ou se o é mundo que quer nos alienar, nos “enlatar”, nos “conformar”, nos impor um lugar determinado em seus esquemas e padrões?

 

De plano, já nos lembramos que, como discípulos de Jesus, somos chamados para ser tanto “sal” quanto “luz”, separados, mas não isolados, participantes, mas não confundidos, e vivermos nossa fé nesse paradoxo de estarmos no mundo sem pertencer mais a ele.

 

Qual deve ser, então, nossa resposta a essa provocação?

 

Nenhuma? Posso entender e devo respeitar os que pensam dessa maneira, mas acredito que, talvez, ela signifique, simplesmente, dar razão aos que nos representam dessa maneira e perdermos a oportunidade de dar testemunho de nossa fé, da “razão da nossa esperança”.

 

Também penso que uma resposta à sociedade e às instituições deve ser dada, principalmente por meio de nossa participação social e política como cidadãos, nas áreas de atuação e nos momentos e pelos canais disponíveis de manifestação.

 

Em relação às pessoas que encontramos ou com quem convivemos, nossa missão é testemunhar o Evangelho e proclamar o Reino de Deus, expressando nossa fé em amor, em palavras e em serviço.

 

Que nos desculpem se encontramos amor, alegria, paz, propósito, valor, força, ânimo, consolo, socorro, esperança e salvação eternas nas nossas “latinhas”, nas nossas escolhas e decisões provenientes da nossa fé em Deus e no Evangelho – se somos felizes em nossas “latinhas”.

 

Mas nos desculpem também porque não vamos nos deixar confinar nelas, não vamos aceitar sermos “enlatados”, mas vamos sempre sair para anunciar o Reino de Deus, para sermos sal e luz, como discípulos de Jesus, como família de Deus.

 

Não devemos nos perder nas discussões políticas, ideológicas, eleitorais e mesmo culturais que essa provocação pode ensejar, mas é oportuno fazer uma reflexão sobre mentalidade do mundo e mentalidade do Reino de Deus tomando esse acontecimento como paradigma.

 

Dois aspectos se ressaltam para mim.

 

Primeiro, as pessoas do mundo nos veem como “enlatados”, alienados presos a uma visão ultrapassada da vida e da sociedade, a uma religiosidade ilusória.

 

Segundo, mais sutil do que o anterior, as pessoas do mundo querem que nos vejamos dessa maneira, felizes dentro de nossas “latinhas”, “conservados” em nossas ilusões, confinados a esse lugar na sociedade.

 

Como Igreja de Jesus, não vamos lhes conceder uma coisa nem outra.

 

Nosso amor, alegria e paz não nos vêm de uma alienação. Ao contrário.

 

São fruto do reconhecimento e da experiência real e concreta da malignidade do pecado em nós e à nossa volta, das dores e do caos que a separação de Deus causa às pessoas, aos relacionamentos e à própria natureza.

 

Eles decorrem do reconhecimento da necessidade da graça e do perdão de Deus para nós e para cada pessoa humana a fim de que possamos viver plenamente o propósito para o qual fomos criados.

 

Fluem da revelação e da experiência pessoal de Deus no Evangelho de Jesus, como poder para a salvação de todo aquele que crê, da comunhão com o Criador e do amor uns aos outros na comunidade dos discípulos.

 

Para nós, não se trata de disputar um modelo de sociedade ou de impor uma moralidade, e, menos ainda, de uma luta pelo poder em torno de uma ideologia ou modelo de sociedade. Trata-se, essencialmente, de anunciar o Reino de Deus, sua realidade e propósito, o amor do Pai, a graça do Filho e o poder do Espírito Santo que nos levam à salvação eterna.

 

Por outro lado, não vamos viver isolados, “conservados em latas”.

 

Ainda que pudéssemos ser tentados a isso, pois agradaria muito ao nosso Inimigo, já que nos tornaria irrelevantes e estéreis para esta geração, não é esse o nosso chamado e vocação como discípulos de Jesus.

 

Não vamos nos deixar “enlatar”, mesmo que se nos ofereçam esse espaço social para nele vivermos “conservados”, confinados num gueto religioso, como opção para termos nossa identidade respeitada e uma vida tranquila.

 

Não faremos isso porque contraria a essência da nossa fé, da nossa identidade em Cristo, do amor a Deus e ao próximo, e seria desobedecer à ordem direta do Senhor: “ide”, “anunciai o Reino”, “sede minhas testemunhas”, “fazei discípulos” ...

 

Amados, somos chamados não para sermos “conservados”, mas, sim, continuamente transformados pela renovação da nossa mente, não “enlatados”, mas peregrinos e proclamadores.

 

 

Que a suficiente graça de Jesus seja com todos, companheiros e companheiras de jornada.

 

Soli Deo Gloria!

 

Brasília, em fevereiro de 2026, AD.

 

 

Fernando Saboia Vieira

 

 

 

 

 

 

 

 

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